Nesta segunda-feira, um dia depois do resultado das eleições, a equipe da EQI Research fez uma live especial para discutir o que a reeleição do presidente Lula muda nas carteiras.
Passamos por macroeconomia, internacional, renda fixa, ações e fundos imobiliários.
Reuni aqui os pontos principais de cada bloco, com a nossa leitura sobre onde estão os riscos e as oportunidades neste novo cenário.
Ouça a live na íntegra, enquanto você lê esta coluna:
Uma eleição fora do roteiro
Entre o primeiro e o segundo turno, Lula ganhou votos em todos os Estados e virou o resultado em Minas Gerais. A abstenção caiu de 21% para 19%, algo que não havia acontecido em eleições anteriores, e os votos brancos e nulos ficaram em um patamar historicamente baixo.
Dos cerca de 10 milhões de votos a mais que o presidente somou no segundo turno, perto de 5 milhões vieram do Sudeste e 3 milhões do Nordeste. O mercado estava posicionado para outro desfecho, e a reação de segunda-feira mostrou isso.
O índice futuro do Ibovespa chegou a cair perto de 20% e fechou o dia em queda de 13%. O dólar bateu R$ 5,60 e encerrou perto de R$ 5,40. A curva de juros subiu entre 200 e 250 pontos-base, e o IFIX recuou 5,7%.
O problema continua sendo o fiscal
O Brasil acumula 12 anos seguidos gastando mais do que arrecada, e a dívida pública, próxima de 82% do PIB, está no maior nível desde 2002. O tamanho do ajuste necessário para estabilizá-la depende de duas variáveis: o juro real e o crescimento da economia.
Com o PIB crescendo 2% ao ano e juro real de 5%, seria preciso gerar um superávit primário de 2,5% do PIB. Com juro real perto de 9%, nível que as NTN-Bs passaram a indicar, o esforço sobe para mais de 5% do PIB. Para este ano, a expectativa é de déficit de 0,5% do PIB. Em reais, estamos falando de pelo menos R$ 250 bilhões a mais por ano.
A imprensa já fala em uma PEC para obrigar o governo a perseguir o centro da meta fiscal, em revisão de gastos obrigatórios, em limitar a correção dos pisos de saúde e educação e em cortes de gasto tributário. Entre eles, estaria uma nova tentativa de acabar com a isenção de IR de LCIs, LCAs, CRIs e CRAs.
Nada foi anunciado até agora. O mercado vai olhar primeiro para o nome do ministro da Fazenda e depois para a capacidade de aprovação das medidas. Enquanto essa resposta não vem, o cenário se aproxima de uma estagflação: câmbio mais fraco e expectativas piores pressionam a inflação e travam investimento.
O petróleo Brent acima de US$ 110 também não ajuda. Nossa projeção de IPCA para 2027, hoje em 4,3%, tem viés de alta. A de PIB, em 1,5%, tem viés de baixa.
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Internacional: a janela continua aberta
O investidor brasileiro mantém, em média, cerca de 5% do patrimônio fora do país, uma proporção reduzida em relação a outras economias.
Um estudo da FGV, por exemplo, estima que o câmbio responde por 15% a 18% da cesta de consumo, a depender da faixa de renda. Ou seja, parte relevante do seu custo de vida já é dolarizada.
A alta recente do dólar não elimina a oportunidade. Historicamente, a volatilidade cambial dos períodos eleitorais é pequena perto dos grandes movimentos, que acontecem depois. Lá fora, a Treasury de 2 anos paga 4,81% e a de 10 anos, 5,12%, taxas altas para o padrão histórico em dólar.
O S&P 500 sobe 11,4% em 2026 e está perto de 7.600 pontos, mas o P/L projetado caiu de 22,1x para 18,5x, abaixo da média de 10 anos (19,2x), porque os lucros cresceram mais rápido do que os preços.
Nossa recomendação é manter entre 15% e 20% do patrimônio no exterior, respeitando o seu perfil.
Renda Fixa: as taxas voltaram a pagar prêmio
Na carteira de renda fixa que publicamos na sexta-feira, reduzimos em 5 pontos percentuais a posição em prefixados a favor do pós-fixado, porque o prefixado pagava perto de 12% com a Selic em 13,75%. Agora, a eleição mudou essa conta.
O Tesouro Prefixado 2029 voltou a ser negociado perto de 15%. Com a Selic projetada para terminar 2027 em torno de 12,5%, isso equivale a algo entre 110% e 120% do CDI. Preferimos os vencimentos curtos, porque a visibilidade fiscal ainda é baixa. Se o governo anunciar um nome forte para a Fazenda, parte desse prêmio deve sair.
Nos títulos atrelados à inflação, o juro real médio do IMA-B saiu de IPCA + 6,7% para a faixa entre 7,5% e 7,8%. O Tesouro IPCA+ 2032 voltou a 7,80% e pode passar de 8%. A marcação a mercado pesa no curto prazo, mas taxas mais altas reduzem o capital necessário para gerar renda.
Na nossa simulação, R$ 1,7 milhão aplicado a IPCA + 8% gera uma renda mensal equivalente ao teto do INSS, cerca de R$ 8.500, corrigida pela inflação. A IPCA + 6%, o mesmo objetivo exigiria R$ 2,3 milhões. Ou seja, a alta das taxas reduziu em R$ 600 mil, cerca de 26%, o capital necessário para contratar a mesma renda real.
Para quem está construindo a carteira de aposentadoria, este é um momento para travar juro real alto por um prazo longo.
Se você se identificou com a lógica de travar uma renda real por mais tempo, assunto destacado na coluna de hoje, o time de Produtos da EQI abriu uma janela para um CRI da Due Incorporadora, com lastro no projeto “Caribe Brasileiro”.
O rendimento-alvo é de IPCA+11,5% ao ano líquido, com prazo de apenas 4 anos. Vale lembrar que a isenção de IR para CRIs é um dos itens que podem entrar na mira do ajuste fiscal em 2027, o que torna o momento ainda mais relevante para quem avalia esse tipo de ativo. Para se tornar elegível, clique aqui.
Ações: separar o joio do trigo
A queda de segunda-feira devolveu os ganhos que a Bolsa acumulou desde o fim de agosto, quando o mercado passou a dar mais chance à vitória da oposição.
O P/L projetado do Ibovespa caiu de 9,4x para 7,8x, a média dos últimos cinco anos e abaixo da média histórica, perto de 10x. Parte do movimento foi técnica. Fundos alavancados precisaram zerar posições a qualquer preço e venderam primeiro o que tinha mais liquidez.
A queda também não foi homogênea. Exportadoras como Vale (VALE3) e Suzano (SUZB3), com receita em dólar e custos em reais, subiram. Empresas ligadas à atividade doméstica, alavancadas ou dependentes de financiamento para crescer foram as mais penalizadas.
Vemos oportunidade nas utilities: Equatorial (EQTL3), Axia (AXIA3), Sabesp (SBSP3) e Copasa (CSMG3) caíram de forma expressiva sem que seus fundamentos mudassem. São empresas com receita contratada e corrigida pela inflação, sem risco de demanda e com alavancagem controlada.
Nas empresas endividadas, a cautela deve ser maior, porque um ciclo de juros altos por mais tempo dificulta a desalavancagem.
Fundos Imobiliários: o imóvel vale 16% menos?
No chat da live, a pergunta mais frequente foi se os FIIs vão cair mais e se é hora de comprar. Para responder, separo a análise em três perguntas: o que vai acontecer com os juros reais longos, o que vai acontecer com a renda dos fundos e o que vai acontecer com o risco das carteiras de crédito. As respostas variam de fundo para fundo.
Desde o início do IFIX, a correlação com os juros reais longos é negativa. Quando o cupom da NTN-B sobe, os FIIs caem. Em outubro, com a queda dos juros, o índice vinha subindo bem. Na segunda-feira, o IFIX recuou 5,7%, na terceira maior queda diária da história, atrás apenas de dois pregões de março de 2020 (-13,2% e -6,6%).
A dispersão dentro do índice foi grande. Fundos de papel 100% indexados ao CDI, como KNCR, VGIR e KNUQ, caíram cerca de 1%. Fundos de lajes corporativas recuaram muito mais: o JSRE e o RCRB perderam mais de 12%, e o PVBI, dono de lajes na Faria Lima, caiu 16% em um dia. Faço aqui a pergunta que fiz na live: se você tivesse um desses imóveis, ele valeria 16% menos hoje do que na sexta-feira? A capacidade de gerar aluguel e o valor do ativo real não mudaram nesse intervalo.
O ponto que, de fato, muda a renda é a alavancagem. Fundos de tijolo com dívida no balanço terão um custo financeiro maior daqui para frente, e isso chega ao dividendo do cotista. Faz sentido que eles caiam mais do que a média.
Com a queda dos preços, o dividend yield do IFIX caminha para 13% ao ano, isento de IR, uma máxima histórica e acima da Selic terminal projetada. Para quem tem horizonte de médio e longo prazo e busca renda, isso significa desembolsar menos hoje para contratar um fluxo de caixa maior.
Há ainda um ganho que a NTN-B não oferece: um fundo comprado com desconto sobre o valor patrimonial pode ter valorização quando os juros cederem e o P/VP voltar a subir.
Na alocação, o primeiro passo é distinguir o que mudou na expectativa de juros do que mudou na capacidade do fundo gerar renda.
No tijolo, os galpões logísticos seguem os mais resilientes: o estoque em construção já está pré-locado, os contratos são longos e os inquilinos incluem Amazon (AMZN; AMZO34), Mercado Livre (MELI; MELI34), Shopee e Shein.
No papel, prefiro seletividade. Fundos 100% CDI servem para a parcela pós-fixada da carteira. Os fundos IPCA+ negociados com deságio permitem comprar uma carteira originada a IPCA + 8% ou 8,5% com retorno implícito muito superior. Aqui, qualidade de crédito, garantias e gestores que já atravessaram ciclos de juros altos pesam mais do que o dividend yield isolado.
O tema a monitorar é a tributação. O risco de mudança na isenção de FIIs, Fiagros e incentivados já estava no nosso cenário, qualquer que fosse o presidente eleito, porque o ajuste fiscal por via da receita tende a passar por esse debate em 2027.
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O que fazer agora?
O dia seguinte à eleição concentrou liquidações forçadas e reprecificação de cenário, e as duas coisas precisam ser separadas. O panorama mudou, com juros altos por mais tempo, câmbio mais fraco e incerteza fiscal até que o governo mostre nomes e medidas. Mas a reação de preço foi desigual, e é nessa diferença que estão as oportunidades.
Taxas de renda fixa acima de 15% no prefixado e de IPCA + 8% no indexado, utilities com fundamentos preservados e FIIs de tijolo sem alavancagem com desconto relevante são exemplos que destacamos. Para quem ainda não tem patrimônio fora do Brasil, este também é um bom momento para começar.





