A volta de Donald Trump à presidência dos EUA promete ser bastante movimentada. O republicano tomou posse nesta segunda-feira (20) e já indicou que todas as promessas feitas durante o período eleitoral serão colocadas em prática o quanto antes.
Essa nova dinâmica na maior economia do mundo reacendeu o debate sobre a influência dos EUA na economia global, especialmente em relação ao dólar, que tende a ganhar força durante o segundo mandato de Trump.
Uma das explicações mais interessantes sobre o fenômeno de fortalecimento do dólar é a chamada teoria do dólar milkshake. Esta teoria, criada pelo economista Brent Johnson em 2016, utiliza uma analogia simples para descrever como a moeda norte-americana “suga” a liquidez de outras economias para os EUA, consolidando sua posição de dominância econômica global.
O que é a teoria do dólar milkshake?
Imagine que a liquidez global — a quantidade de dinheiro disponível no mercado mundial — seja representada por um milkshake, e que o dólar americano funcione como o canudo que suga essa liquidez em direção aos Estados Unidos.
Esse processo se intensifica especialmente durante períodos de crise, quando investidores buscam refúgio financeiro em ativos mais seguros e confiáveis, como o dólar e os títulos do Tesouro americano (treasuries).
Na prática, o fortalecimento do dólar ocorre porque a moeda americana, considerada uma reserva de valor segura, atrai capital mundial ao mesmo tempo que outras moedas perdem força. Esse movimento é impulsionado por fatores como políticas econômicas, incluindo taxas de juros elevadas estabelecidas pelo Federal Reserve (Fed) e a emissão de dívidas denominadas em dólares.
O dólar poderá ficar mais forte em 2025
A EQI Research prevê que o Fed deverá adotar um processo mais gradual de redução das taxas de juros em 2025.
“Em dezembro, após o anúncio de um corte de 25 pontos-base na taxa básica de juros da economia norte-americana, Jerome Powell destacou que o processo de redução de juros será mais gradual daqui para frente”, afirma a casa de análises.
A EQI Research acrescenta que Powell mencionou, em discurso, que essa decisão foi amplamente debatida e gerou divergências entre os membros do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC).
Além disso, os analistas destacam que as políticas prometidas por Trump podem exercer pressão inflacionária no médio prazo. “Isso deve influenciar o FOMC e o ritmo dos cortes de juros”, avaliam os especialistas da EQI.
A análise também aponta que “esse ritmo mais gradual reflete a necessidade de acompanhar de perto a evolução dos dados de atividade econômica e inflação, bem como os impactos potenciais das medidas adotadas pelo novo governo”.
O segundo mandato de Trump traz consigo políticas protecionistas que ganham força, como o aumento de tarifas de importação e iniciativas para valorizar o dólar. O objetivo dessas medidas é fortalecer as empresas norte-americanas e atrair ainda mais investidores estrangeiros para o país.
Com isso, a EQI Research destaca que as promessas de políticas de Trump podem aumentar a pressão inflacionária no médio prazo, trazendo mais desafios para o Fed. “Isso deve influenciar o FOMC e o ritmo de cortes de juros”, reforça a casa.
A casa de análises conclui afirmando que mantém a expectativa de uma taxa terminal de juros mais elevada do que a inicialmente projetada no início do ciclo de cortes, devido a uma inflação mais alta no médio e longo prazo.
Essa tendência de taxas de juros finais mais altas nos EUA deve aumentar o interesse dos investidores em aplicar no mercado americano, especialmente em treasuries, considerados os ativos mais seguros do mundo.
Um ponto de destaque são os treasuries de 10 anos, que oferecem taxas de retorno atraentes para investidores internacionais.
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Por que o dólar é tão forte?
A força do dólar decorre de sua aceitação mundial como meio de troca, reserva de valor e unidade de conta. Atualmente, cerca de 60% das reservas cambiais do mundo estão em dólares, e metade dos empréstimos internacionais e títulos de dívida utilizam a moeda americana.
Dois fatores principais explicam esse protagonismo:
- Segurança e estabilidade: o sistema bancário sólido dos EUA, aliado à previsibilidade econômica e política, torna o dólar um porto seguro para investidores em tempos de crise.
- Alta taxa de juros: desde 2007, o Federal Reserve tem adotado políticas monetárias mais restritivas, elevando as taxas de juros. Isso atrai capital estrangeiro para os EUA, já que os investidores preferem alocar recursos em ativos que oferecem maiores retornos, como os títulos do Tesouro americano.
Esse movimento é impulsionado pelo mecanismo chamado carry trade, no qual investidores tomam dinheiro emprestado em países com juros baixos, como Japão e Europa, e o aplicam em mercados com taxas mais altas, como os Estados Unidos. Essa estratégia não apenas valoriza o dólar, mas também pressiona outras moedas para baixo.
Impactos globais: o custo do fortalecimento do dólar
Embora o fortalecimento do dólar beneficie os EUA, ele pode causar desequilíbrios nas economias de outros países, especialmente os emergentes. Quando o dólar se valoriza, aumenta o custo de dívidas internacionais denominadas na moeda americana, dificultando o pagamento para países que precisam importar recursos financeiros.
Além disso, a crise inflacionária enfrentada pelos EUA em 2022 destacou a interdependência econômica. Apesar de a inflação ter gerado desafios internos, o dólar atingiu sua maior valorização em 20 anos, comprovando a resiliência da moeda.
Mesmo em cenários de alta dívida pública — atualmente acima de US$ 30 trilhões — e inflação elevada, o dólar segue como referência global.
E o futuro?
A dominância do dólar tem gerado debates sobre o impacto de sua valorização no longo prazo.
Alguns países, como El Salvador e Equador, já adotaram o dólar como moeda oficial para reduzir instabilidades locais. Na América do Sul, países como Argentina discutem a dolarização para tentar estabilizar suas economias.
Por outro lado, o aumento da dívida pública americana e as incertezas econômicas levantam dúvidas sobre a sustentabilidade dessa posição dominante. Ainda assim, nenhum outro câmbio conseguiu replicar as características únicas do dólar, como segurança, liquidez e estabilidade.
A teoria do dólar milkshake ajuda a explicar como, mesmo diante de crises internas, os EUA conseguem absorver a liquidez global e manter o dólar como a moeda mais forte do planeta.
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