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A “Parasita” brasileira: por que a classe média perdeu o andar de cima

A “Parasita” brasileira: por que a classe média perdeu o andar de cima

Kinea Investimentos aponta endividamento recorde e inadimplência mesmo com pleno emprego, mostrando que o esgotamento da classe média virou regime estrutural

O endividamento das famílias brasileiras praticamente dobrou desde meados dos anos 2000 e se aproxima de recordes históricos. A inadimplência segue em alta mesmo com a taxa de desemprego cravada nas mínimas históricas. Para a Kinea Investimentos, esse descolamento entre mercado de trabalho aquecido e finanças familiares pressionadas não cabe na leitura cíclica que costuma orientar a cobertura do consumo brasileiro.

Em relatório publicado na última segunda-feira (18), sob o título “Parasita”, a gestora do Itaú defende que a ressaca atual da classe média resulta de uma trajetória mais longa, em que o país consumiu como se tivesse resolvido seu problema de renda estrutural, quando seguia apoiado sobre bases frágeis. A analogia com o filme sul-coreano de Bong Joon-ho organiza o argumento.

A entrada de milhões de brasileiros num novo padrão de consumo foi real, mas sua permanência dependia de condições que não eram sustentáveis.

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Ascensão sem alicerce

Entre 2003 e 2013, o Brasil viveu o ciclo mais forte de expansão do consumo de massa desde a estabilização monetária do Plano Real. O salário mínimo avançou em média 5,1% ao ano em termos reais nesse intervalo. O crédito bancário como percentual do PIB saltou cerca de 30 pontos percentuais a partir de meados dos anos 1990. Os termos de troca, impulsionados pelo superciclo das commodities, subiram 51%. O Estado se somou à equação com transferências, gasto direto e crédito direcionado.

Milhões de famílias passaram a acessar bens e serviços antes distantes, como o primeiro carro novo, a viagem de avião e o financiamento do imóvel. Mas o motor desse avanço pouco tinha a ver com ganho de eficiência.

A Produtividade Total dos Fatores no Brasil registrou crescimento médio anual negativo de 1,2% entre 1980 e 2024, o pior desempenho num grupo de comparáveis que inclui China, Coreia do Sul, Índia, Hungria, Polônia e EUA, segundo dados das Penn World Tables compilados pela gestora.

“O Brasil teve bons momentos, mas nunca consolidou uma trajetória robusta de produtividade. Cresceu com mais crédito, mais consumo, mais trabalho e, em certos momentos, com ajuda relevante do setor externo. Mas cresceu pouco em eficiência”, afirma a Kinea.

Para a gestora, o país cresceu pouco em capacidade de gerar mais renda por trabalhador e em capacidade de transformar ventos favoráveis em prosperidade duradoura.

Crédito vira renda

O endividamento das famílias brasileiras em relação à renda praticamente dobrou desde meados dos anos 2000, segundo dados do Banco Central.

O comprometimento de renda com serviço da dívida atingiu máximas históricas, com a parcela destinada a juros se aproximando de 11% da renda mensal e a parcela de amortização rondando 22%.

A concessão acumulada em 12 meses de crédito pessoal e cheque especial somadas superou R$ 500 bilhões, com forte expansão também do cartão de crédito rotativo, uma das linhas mais caras do sistema financeiro.

A gestora chama atenção para a mudança de função do crédito na vida das famílias brasileiras.

“O crédito, que deveria servir para antecipar renda futura, passou em muitos casos a funcionar como substituto de uma renda que não cresceu o suficiente para sustentar o padrão de vida incorporado nas expectativas das famílias”, diz o relatório.

Para a Kinea, esse é o ponto que explica a permanência da inadimplência mesmo com o desemprego em mínimas históricas, num ambiente em que o avanço marginal da renda não compensa o custo acumulado da dívida.

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Padrão virou luxo

A deterioração fica mais clara quando se sai dos agregados macroeconômicos. Um carro popular, que em 2013 custava o equivalente a 16,9 salários médios nominais, passou a custar 25,1 salários médios em 2025, segundo dados do IBGE. Isso significa que o brasileiro precisa trabalhar 49% mais tempo hoje para comprar um veículo de entrada do que precisava há pouco mais de uma década.

O movimento se repete em outras linhas clássicas do orçamento familiar. Desde 1999, plano de saúde acumulou inflação de 846%, creche de 790% e empregado doméstico de 667%, todas muito acima do IPCA do período (473%). No estudo “Mapping the World’s Prices” do Deutsche Bank Research Institute citado pelo relatório, o Brasil aparece como o segundo país em que um iPhone 16 Pro de 128 GB mais pesa no salário médio, atrás apenas do Egito.

O cesto que define o estilo de vida da classe média ficou estruturalmente mais caro do que o índice oficial de inflação sugere.

“O resultado é simples. O que antes parecia padrão passou a se comportar como luxo. Não no sentido de extravagância, mas no sentido de acessibilidade decrescente”, escreve a Kinea.

A gestora separa o conceito estatístico de classe média, definido pela posição no meio da distribuição de renda, do conceito funcional, que pressupõe saneamento adequado, educação de qualidade, capacidade de poupar e resiliência diante de choques. Em vários desses critérios, o Brasil continua distante de economias que efetivamente consolidaram uma sociedade de renda média estável.

O nó do Estado

As transferências do governo respondem por 21,2% da renda disponível das famílias brasileiras, segundo dados do BCB, IBGE e Tesouro Nacional. O patamar fica acima do observado em pares como Coreia do Sul (17,3%), Colômbia (15,4%) e México (13,7%).

O peso vem majoritariamente da Previdência contributiva (13,5% da renda), seguido pela folha central de ativos (4,5%) e por transferências assistenciais (3,3%). Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada (BPC) somados respondem por mais de 12% da despesa primária federal, depois de oscilarem em torno de 6% durante boa parte das décadas de 2000 e 2010.

A Kinea atribui parte da rigidez fiscal à arquitetura constitucional brasileira.

“Esse ciclo tem raízes na Constituição de 1988, que cristalizou um pacto social baseado em transferências e benefícios indexados ao salário mínimo, sem contrapartida fiscal clara”, afirma o documento.

Para a gestora, transferências sustentam o consumo no curto prazo, mas não elevam produtividade nem geram crescimento sustentável da classe média, num arranjo politicamente custoso de romper.

O resultado, segundo a Kinea, é paradoxal: o poder de compra do trabalhador é corroído pela inflação que a política alimenta, e a produtividade fica reduzida pela carga tributária elevada que financia o sistema.

Onde alocar

A leitura macro tem implicação direta para o portfólio recomendado pela gestora.

A Kinea defende que o desconto estrutural da bolsa brasileira reflete crescimento fraco, produtividade baixa, custo de capital elevado e um consumidor pressionado de forma duradoura, e não apenas um acidente de humor passível de reprecificação automática.

Num gráfico de cotações setoriais desde janeiro de 2022, utilities subiram cerca de 200% até maio de 2026, enquanto o índice de consumo doméstico se manteve praticamente estável no mesmo período.

A preferência da gestora recai sobre negócios com fluxos longos, demanda inelástica, receitas indexadas e menor dependência da renda disponível do consumidor médio. Saneamento, transmissão e distribuição de energia, concessões e outras utilities aparecem como as teses mais bem posicionadas.

O retorno total ao acionista projetado pela Kinea para o triênio 2026-2028 chega a 31,9% em Copel (CPLE6), 28,0% em Equatorial (EQTL3), 26,3% em Axia (AXIA6) e 24,6% em Sabesp (SBSP3), combinando dividendos e crescimento esperado de lucros.

A síntese da gestora aponta para mudança de regime, não para janela tática de alocação.

“O consumidor brasileiro endividado não é um tema de um trimestre. É um regime. E regimes, mais do que manchetes, são o que moldam portfólios”, conclui a Kinea.

O recado para o investidor é privilegiar resiliência, geração de caixa, fluxos previsíveis e carrego real, em vez de apostar na volta automática de um ciclo de consumo amplo e despreocupado.