A sucessão familiar e empresarial deve ser planejada enquanto o fundador ainda está no auge de sua capacidade de liderança, e não quando o afastamento se torna inevitável. A avaliação foi feita pelo historiador e escritor Leandro Karnal durante a Money Week 2026.
Karnal participou do painel “Como Construir Legado em um Mundo Imediato: o Longo Prazo do Ponto de Vista de Sucessão, Família e Patrimônio” ao lado de Patricia Freitas, da Prudential, e do professor de filosofia Guilherme Freire.
Durante a conversa, os participantes discutiram como a preferência por resultados imediatos dificulta a preparação das próximas gerações, a preservação do patrimônio e a continuidade das empresas familiares.
Karnal recorreu ao caso do ex-presidente Getúlio Vargas para mostrar os riscos provocados pela ausência de um processo sucessório organizado. A questão, segundo ele, alcança famílias, empresas e até o Estado.
“Getúlio Vargas cometeu um erro de quem tem poder, seja na família, na empresa ou no Estado: ele não preparou um sucessor. E deve-se preparar um sucessor no apogeu, nunca no declínio”, afirmou Karnal.
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Sucessão começa com a formação dos herdeiros
Para Guilherme Freire, o planejamento sucessório não pode começar somente com a divisão dos bens. Antes das decisões financeiras e jurídicas, é necessário preparar os filhos, transmitir valores e estabelecer um projeto comum para a família.
“O problema clássico de sucessão é este: morre o pai, nenhum filho foi formado para ser sucessor e começam as brigas. Mas, quando se tem essa cabeça de unidade familiar, formação das virtudes e projeto comum, o planejamento financeiro é uma sequência inevitável”, explicou Freire.
Segundo o filósofo, muitos empresários mantêm o controle do negócio pelo maior tempo possível e deixam de preparar os herdeiros desde cedo. Essa dificuldade de compartilhar responsabilidades pode comprometer tanto a continuidade da empresa quanto a preservação do patrimônio nas gerações seguintes.
Freire também destacou que a construção de um legado exige aceitar resultados que demoram a aparecer. O princípio vale para a sucessão, os investimentos, a saúde e a formação pessoal.
“As coisas mais valiosas da vida não são imediatas. Exercícios físicos, investir em ativos e melhorar a vida espiritual são ações que, isoladamente, podem não fazer diferença, mas, como hábito, transformam completamente a vida ao longo dos anos”, afirmou.
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Envelhecimento amplia necessidade de planejamento
O aumento da longevidade também deve modificar a maneira como as famílias organizam o patrimônio. Karnal ressaltou que o Brasil precisa se preparar para o envelhecimento da população e para vidas profissionais e familiares mais longas.
“Nós temos que nos preparar para um país que está envelhecendo. No Brasil, o futuro é da geriatria”, disse o historiador.
Patricia Freitas acrescentou que as pessoas estão demonstrando maior preocupação com o próprio cuidado, algo refletido pelo crescimento do mercado de bem-estar. A longevidade, porém, traz a necessidade de conciliar qualidade de vida, proteção financeira e planejamento sucessório.
Karnal observou ainda que a educação financeira não está estruturada de forma metódica nas escolas ou nas famílias. Para ele, o desafio é preparar recursos para o futuro sem perder de vista as necessidades do presente.
A construção de um legado, conforme o painel, ultrapassa a transferência de bens. O processo envolve formar sucessores, transmitir valores e organizar o patrimônio ainda no período de prosperidade, quando há tempo para corrigir decisões e preparar as próximas gerações.






