O agronegócio brasileiro enfrenta uma crise provocada principalmente pelos juros elevados, pela queda dos preços e pelo endividamento dos produtores, mas pode iniciar uma recuperação nos próximos dois anos. A avaliação foi apresentada no painel “O Agro que Move o Brasil: Momento da Virada”, durante a Money Week 2026.
Participaram da discussão Guilherme Nastari, diretor da Datagro; Rodrigo Claro, head de Agro da EQI Investment Banking; e Moacir Teixeira, sócio-fundador da EcoAgro. Os especialistas analisaram as dificuldades financeiras do setor e as condições para o início de um novo ciclo.
Para Moacir, é incorreto tratar as dificuldades atuais como um problema exclusivo do agronegócio. O cenário também alcança a indústria e o comércio e está relacionado à manutenção dos juros em níveis elevados.
“Existe uma visão de que o agro está em crise. Não, o agro está vivendo uma crise, assim como a indústria e o comércio também estão. Fruto de quê? De uma política de juros de dois dígitos há cinco anos. Uma economia moderna não aguenta esse processo”, afirmou Teixeira.
O executivo acrescentou que as projeções do Boletim Focus ainda indicam juros de dois dígitos nos próximos dois anos, prolongando a pressão sobre empresas e produtores que precisam de financiamento.
Alavancagem aumenta vulnerabilidade do produtor
Além dos juros, Moacir apontou problemas na administração financeira de parte dos produtores de médio porte. Segundo ele, quando há geração de caixa, é comum que os recursos sejam empregados na compra ou no arrendamento de novas áreas, com pagamentos parcelados e atrelados à produção futura.
“O produtor médio brasileiro tem um problema de gestão. Quando ganha algum dinheiro, compra ou arrenda terra. Dá a entrada e parcela a diferença por alguns anos, em sacas de soja. Isso significa que está sempre alavancado. Qualquer fator contrário, como clima ou preço, terá impacto sobre esse indivíduo”, explicou.
A combinação entre dívidas, custos financeiros elevados, preços menores e riscos climáticos reduz a capacidade de absorver perdas. Guilherme Nastari ressaltou que o atual nível das taxas compromete uma atividade que exige capital intensivo e possui ciclos longos.
“Um dos principais motivos da crise temporária que o agro está vivendo é a taxa de juros. Essa indústria não comporta ‘CDI mais alguma coisa’. Ela sofre nesse nível de alavancagem”, afirmou Nastari.
Agro pode iniciar novo ciclo de alta
Apesar das dificuldades, Nastari apresentou uma perspectiva mais favorável para os próximos anos. Segundo ele, após dois anos de baixa, o setor pode entrar em uma nova fase de valorização, apoiado por sua produtividade e pelo desenvolvimento tecnológico.
“O agro está vivendo um momento de baixa nos últimos dois anos, mas, nos próximos dois, provavelmente estará subindo. Não há setor mais moderno e eficiente do que o agronegócio brasileiro”, disse.
O diretor da Datagro destacou ainda que o Brasil ocupa uma posição privilegiada na produção global de alimentos e energia. Embora algumas atividades enfrentem preços desfavoráveis e desafios associados às dimensões continentais do país, o setor permanece essencial para a balança comercial e para a inovação.
Para os participantes, a esperada virada depende da redução dos juros, da recuperação dos preços e de uma gestão financeira mais disciplinada. Mesmo sob pressão, o agronegócio preserva vantagens competitivas que podem sustentar sua retomada no próximo ciclo.






