O setor de saúde deu mais sinal de alerta aos investidores. A Fitch Ratings rebaixou o rating nacional de longo prazo da Kora Saúde de ‘BB+(bra)’ para ‘C(bra)’, diante do risco de crédito ser excepcionalmente elevado pela agência.
O corte ocorre em meio a uma deterioração da estrutura financeira da companhia e ao aumento das dúvidas sobre sua capacidade de honrar obrigações no curto prazo.
Além do rating corporativo, a Fitch também reduziu a classificação das debêntures da empresa para ‘C(bra)’, indicando que o risco de inadimplência está próximo. Ao mesmo tempo, a agência retirou a observação negativa anteriormente atribuída aos papéis.
Segundo o relatório, o rebaixamento está diretamente relacionado à convocação de uma assembleia de debenturistas para discutir um acordo de standstill, que prevê a suspensão temporária do pagamento de juros de parte das dívidas.
Na prática, isso pode marcar o início de um processo semelhante a uma inadimplência.
“Se os termos e condições originais das debêntures forem alterados, o rating poderá ser rebaixado para ‘RD(bra)’, refletindo um default restrito”, afirma a Fitch no relatório.
Liquidez curta e dívida elevada pressionam Kora
A análise da agência aponta que a liquidez da companhia é insuficiente para sustentar o atual nível de endividamento por mais do que alguns meses.
Ao final de setembro de 2025, a Kora possuía cerca de R$ 292 milhões em caixa, enquanto a dívida de curto prazo somava R$ 507 milhões. No total, o endividamento da companhia chegava a R$ 2,8 bilhões.
A alavancagem também é considerada elevada. O cenário-base da Fitch projeta:
- Dívida bruta/EBITDA próxima de 8 vezes em 2025 e 2026
- Dívida líquida/EBITDA ao redor de 7,5 vezes
Para efeito de comparação, esses níveis são significativamente superiores aos observados em companhias hospitalares mais consolidadas.
A geração de caixa também preocupa. A Fitch estima que o fluxo de caixa das operações (CFO) volte a ficar negativo em cerca de R$ 50 milhões em 2026, enquanto o fluxo de caixa livre (FCF) deve registrar déficit próximo de R$ 110 milhões no período.
Rentabilidade abaixo do setor
Outro ponto destacado no relatório é a rentabilidade ainda pressionada. A Fitch projeta EBITDA próximo de R$ 340 milhões em 2025 e R$ 360 milhões em 2026, com margens entre 14% e 15%, patamar inferior à média do setor hospitalar brasileiro, que gira em torno de 20%.
Parte dessa pressão vem da estratégia de expansão em oncologia, que aumenta o ticket médio e fortalece o posicionamento competitivo da companhia, mas também eleva custos com medicamentos e materiais.
A expectativa da agência é que esses custos só sejam compensados no médio prazo, à medida que a empresa capture ganhos de escala.
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Setor de saúde também enfrenta pressão
O rebaixamento da Kora reforça uma tendência recente de deterioração financeira em algumas empresas do setor.
Recentemente, a própria Fitch também rebaixou o rating da Oncoclínicas (ONCO3) para ‘CCC-’, apontando alta probabilidade de reestruturação da dívida diante de liquidez insuficiente e vencimentos relevantes no curto prazo.
O cenário base da agência para a companhia incorpora a necessidade de rolagem de pelo menos R$ 1 bilhão em 2026 para honrar compromissos financeiros e cobrir fluxo de caixa negativo esperado.
Para analistas, a combinação de juros elevados, expansão agressiva via aquisições e margens pressionadas tem colocado parte das empresas do setor hospitalar em uma posição financeira mais delicada.
Enquanto grupos maiores e mais capitalizados — como Rede D’Or (RDOR3) e hospitais filantrópicos de grande porte — seguem com acesso amplo ao mercado de capitais, companhias com balanços mais alavancados tem maior dificuldade para refinanciar dívidas.






