Com o dólar em queda diante do real, o investimento no exterior ficou mais acessível para o brasileiro em 2026. A PTAX de venda encerrou a quinta-feira (16) em R$ 5,0975, ante R$ 5,5024 no fim de 2025. A diferença representa um recuo um pouco acima de 7,4% no período, segundo dados do Banco Central.
A desvalorização diante do real, porém, não significa que a moeda americana esteja perdendo força de maneira uniforme. O índice DXY, que compara o dólar a uma cesta de moedas fortes, operava próximo de 100,73 pontos nesta sexta-feira (17). A cotação refletia o equilíbrio entre a inflação mais fraca nos Estados Unidos, que reduziu as apostas em novas altas de juros, e a procura por proteção diante do agravamento do conflito com o Irã.
Para o brasileiro, o cenário traz uma pergunta inevitável. Será que a moeda americana mais barata é uma oportunidade para acelerar os investimentos internacionais?
Quatro especialistas ouvidos pelo EuQueroInvestir avaliam que a cotação atual pode ser aproveitada, mas rejeitam a tentativa de adivinhar o piso do dólar. A recomendação é usar a janela para fazer aportes graduais e reduzir a concentração do patrimônio no Brasil.
Dólar em queda diante do real não conta toda a história
Fernando Saad, analista de alocação e inteligência da Avenue, destaca que o desempenho da moeda americana precisa ser analisado por duas perspectivas. De um lado está o dólar diante das principais moedas internacionais. Do outro, a cotação específica em relação ao real.
Segundo Saad, enquanto o DXY acumula valorização superior a 2% em 2026, a moeda americana recua mais de 5% diante do real.
“Essa diferença é justificada principalmente por dois fatores. O conflito com o Irã acaba beneficiando a nossa moeda, porque o Brasil é um país exportador de petróleo, e há também o diferencial de juros entre o Brasil e os Estados Unidos. Não sabemos até quando esses dois fatores estarão presentes para ajudar o real”, afirma.
Os juros brasileiros ainda elevados aumentam a atratividade dos ativos locais e favorecem a entrada de capital estrangeiro. Ao mesmo tempo, a posição do Brasil como exportador de petróleo pode beneficiar a balança comercial quando a commodity se valoriza.
O conflito no Oriente Médio, entretanto, também exerce pressão na direção contrária. A alta do petróleo pode alimentar a inflação americana, manter os juros dos Estados Unidos elevados por mais tempo e reforçar a procura pelo dólar como ativo de proteção.
Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, acrescenta que a política econômica do governo Donald Trump e os questionamentos sobre os Estados Unidos como porto seguro contribuíram para a perda de força da moeda em parte do ano. Esses fatores convivem agora com riscos capazes de sustentar uma recuperação do dólar.
“O questionamento dos Estados Unidos como porto seguro global, a deterioração institucional e a política econômica errática de Donald Trump alimentaram a queda do dólar recentemente. A guerra no Irã e a consequente expectativa de juros altos por mais tempo são uma força contrária, já que os Treasuries remunerando bem diminuem a atratividade dos ativos de risco e geram recursos para os Estados Unidos”, explica.
No cenário doméstico, o calendário eleitoral também tende a ampliar as oscilações. Discussões sobre a trajetória da dívida pública, as prioridades fiscais do próximo governo e o resultado das eleições podem alterar rapidamente as expectativas para o real.
Câmbio mais baixo é oportunidade, não garantia de piso
A queda do dólar reduz o custo das remessas, mas não permite concluir que a moeda chegou ao menor valor do ano. Para Zogbi, períodos de recuo podem ser utilizados para iniciar ou ampliar a exposição internacional, desde que a decisão faça parte de uma estratégia de longo prazo.
A especialista afirma que a internacionalização não deveria depender apenas da cotação, pois o retorno do investidor também será determinado pelo desempenho dos ativos escolhidos.
“Investir globalmente não é apenas aproveitar as oscilações do dólar, mas também buscar os ganhos compostos dos próprios ativos. O investidor que fica esperando o câmbio certo pode perder anos de crescimento enquanto aguarda um ponto de entrada que talvez nunca chegue”, diz.
Uma das alternativas citadas pelos entrevistados é dividir as remessas ao longo do tempo. Em vez de transferir uma parcela elevada do patrimônio em um único dia, o investidor estabelece aportes recorrentes e forma um preço médio para o dólar.
Saad considera essa disciplina mais relevante do que tentar antecipar a cotação mínima.
“Embora quedas pontuais possam justificar aportes táticos, a disciplina do investimento gradual continua sendo a melhor defesa contra a volatilidade. O equilíbrio está em aproveitar janelas favoráveis para reforçar posições sem abandonar a constância que protege o capital no longo prazo”, afirma.
A estratégia também reduz o peso de decisões emocionais. Paula aponta que o interesse pelo dólar costuma aumentar durante crises, justamente quando a cotação está mais elevada. Quando a moeda cai, o receio de novas perdas pode levar o investidor a adiar indefinidamente a entrada.
Segundo a estrategista da Nomad, o preço pago inicialmente também pode se transformar em uma referência emocional inadequada.
“O preço de compra se torna uma referência. Qualquer valor abaixo dele parece um erro, mesmo que o ativo esteja mais atrativo do que antes. Comprar recorrentemente, independentemente da cotação, é uma forma de evitar esses vieses”, afirma.
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Juros altos no Brasil não tornam a carteira internacional dispensável
A renda fixa brasileira permanece atrativa diante do nível elevado da Selic, mas os especialistas avaliam que isso não elimina a função dos investimentos internacionais.
Gustavo Assis, CEO da Asset Bank, explica que as duas parcelas cumprem papéis distintos. Os ativos brasileiros podem atender às necessidades de liquidez, preservação de capital e geração de renda em reais. A parcela internacional permite acessar outras moedas, setores econômicos e fontes de retorno.
“Não se trata de escolher entre renda fixa brasileira e investimentos no exterior. São alocações que cumprem funções diferentes dentro do patrimônio. Uma remuneração atrativa no curto prazo não elimina os riscos de manter todo o patrimônio concentrado em um único país, uma única moeda e um único ambiente econômico”, afirma Assis.
Para o executivo, o objetivo não é abandonar uma oportunidade doméstica em busca de outra no exterior, mas combinar ativos com comportamentos diferentes ao longo dos ciclos econômicos.
Fábio Murad, sócio e fundador da Ipê Avaliações, também rejeita a escolha binária entre Brasil e exterior. Um dólar mais fraco pode favorecer os mercados emergentes, fortalecer moedas locais e beneficiar tanto a Bolsa quanto segmentos da renda fixa brasileira. Isso não elimina, contudo, as fragilidades fiscais e políticas do país.
“Internacionalizar não significa abandonar o Brasil. Significa reduzir a dependência de um único país, de uma única moeda e de um único ambiente tributário e político. O investidor pode aproveitar oportunidades domésticas e, ao mesmo tempo, usar o câmbio mais baixo para construir gradualmente uma parcela internacional”, diz Murad.
Nem todo investidor deve acelerar a internacionalização
Apesar da cotação mais favorável, a internacionalização não deve ser tratada como prioridade para todos os investidores. Assis afirma que pessoas sem reserva de emergência, com dívidas de custo elevado, renda instável ou despesas próximas em reais deveriam evitar uma transferência acelerada de recursos.
“A queda do dólar pode tornar o ponto de entrada mais favorável, mas não deve ser o único fundamento da decisão. Não deveria acelerar esse processo o investidor que ainda não possui reserva de emergência, tem dívidas de custo elevado, enfrenta instabilidade de renda ou precisará utilizar os recursos no curto prazo para despesas em reais”, alerta.
Também é necessário considerar a tolerância às oscilações dos ativos internacionais. Mesmo que o dólar permaneça barato, ações, títulos e fundos negociados no exterior podem perder valor. Uma remessa concentrada baseada apenas na expectativa de valorização cambial transforma a diversificação em uma aposta sobre a cotação.
Diversificação internacional não termina nos Estados Unidos
Os Estados Unidos continuam sendo a principal porta de entrada para muitos brasileiros por causa da profundidade do mercado, da liquidez e da variedade de empresas, títulos e ETFs disponíveis. Murad pondera, entretanto, que dolarizar não deveria significar concentrar toda a parcela internacional nos ativos americanos.
“A solução não é trocar uma concentração no Brasil por uma concentração nos Estados Unidos. É montar uma carteira verdadeiramente global, com exposições complementares e compatíveis com o prazo, o perfil de risco e os objetivos do investidor”, afirma.
Nesse desenho, podem entrar outras economias desenvolvidas, mercados emergentes, moedas, commodities e ativos de renda fixa global. Saad afirma que, na leitura atual da Avenue, há uma avaliação mais positiva para os setores financeiro e de tecnologia dos Estados Unidos, enquanto o setor de serviços de utilidade pública inspira maior cautela.
Fora do mercado americano, a casa acompanha oportunidades nas bolsas da Índia, da China e da Coreia do Sul, mantendo exposição reduzida à Europa. Na renda fixa americana, a Avenue adota cautela com os títulos de vencimentos próximos de sete e dez anos.
Para quem utiliza ETFs como porta de entrada, Murad recomenda observar qual índice o fundo acompanha, a concentração por empresa, setor, país e moeda, além de liquidez, custos, diferença de desempenho em relação ao índice e política de distribuição de rendimentos.
O dólar mais barato, segundo ele, não transforma automaticamente qualquer ETF em uma boa escolha. Fundos com nomes diferentes podem carregar empresas semelhantes, enquanto produtos temáticos que já se valorizaram fortemente podem levar o investidor a perseguir o desempenho passado.
Quanto da carteira deve ficar no exterior?
Não existe um percentual único de internacionalização adequado a todos os investidores. As referências variam conforme o objetivo da alocação, o perfil de risco, as despesas da família e o prazo disponível.
Um estudo do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas aponta que as variações cambiais afetam entre 16% e 18% da cesta de consumo dos brasileiros, dependendo da faixa de renda. O percentual representa apenas a exposição necessária para neutralizar parte do efeito do dólar sobre o consumo, não uma recomendação universal de carteira.
Saad destaca que produtos importados, componentes industriais, combustíveis, eletrônicos, roupas e serviços digitais fazem com que parte relevante das despesas em reais seja influenciada pelo dólar.
“No mínimo, entre 16% e 18% do consumo do brasileiro, das classes mais baixas às mais altas, é cotado em dólar. Só para neutralizar essa parcela do consumo, já temos uma primeira referência do que poderia ser a exposição internacional”, afirma.
Zogbi cita estudos que trabalham com cerca de 20% da carteira total no exterior, justamente pela influência do dólar sobre o consumo. O percentual pode aumentar ou diminuir conforme o estilo de vida e os gastos de cada família. Metodologias voltadas à relação entre risco e retorno podem indicar uma parcela maior dentro dos ativos de crescimento da carteira.
As referências não são equivalentes. Uma exposição de 16% a 20% busca principalmente reduzir o descasamento entre patrimônio e consumo dolarizado. Uma alocação internacional maior pretende também ampliar a diversificação e acessar fontes globais de retorno.
Eleições e cenário fiscal podem mudar a direção do dólar
As eleições brasileiras colocam uma camada de incerteza à cotação. Assis afirma que a valorização recente do real não elimina a exposição do patrimônio aos riscos econômico, fiscal, regulatório e institucional do Brasil.
“Em períodos eleitorais, é natural que aumentem as discussões sobre política econômica, trajetória da dívida pública e prioridades fiscais. O papel da gestão patrimonial não é tentar antecipar o resultado da eleição ou montar a carteira com base em preferências políticas. É reconhecer que esses eventos podem gerar volatilidade e estruturar o patrimônio para atravessar diferentes cenários”, diz.
Zogbi avalia que a combinação entre incerteza eleitoral, tensão geopolítica e juros americanos ainda elevados deixa aberta a possibilidade de valorização do dólar até o fim do ano. Nesse caso, quem espera uma queda adicional pode perder a janela atual.
O consenso entre os entrevistados é que o recuo da moeda deve ser interpretado como um custo de entrada mais favorável, e não como garantia de novas quedas.
Murad resume essa diferença.
“O câmbio mais baixo deve ser visto como uma boa janela de execução e rebalanceamento, não como uma aposta de que o dólar continuará caindo.”






