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FIIs: O ano da paciência?
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FIIs: O ano da paciência?

Juros altos mantêm fundos imobiliários descontados, mas vendas acima do laudo mostram que preço baixo, sozinho, não significa oportunidade

O IFIX chega a agosto praticamente onde começou 2026, no zero a zero, já considerando os dividendos pagos pelo caminho. Este está sendo mesmo um ano de paciência para quem carrega Fundos Imobiliários.

Acontece que o índice é uma média e a dispersão ao redor dela tem mostrado comportamentos bem diferentes, tanto entre os setores, quanto entre os FIIs de mesmo segmento.

Os FIIs de tijolo, por exemplo, estão em pontos muito distintos do ciclo imobiliário, de forma que, enquanto um entrega retornos de aluguel consistentemente acima da inflação, outro não tem medido esforços para marcar o valor do seu portfólio no mercado real, deixando clara a discrepância entre valor de Bolsa e valor de transacionado.

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O segmento mais descontado

O P/VP compara o preço (P) da cota na Bolsa com o valor patrimonial (VP) do fundo, que nos FIIs de tijolo é, essencialmente, o valor dos imóveis apurado em laudo de avaliação. Em 1,00x, Bolsa e valor contábil se igualam.

As lajes corporativas negociam, na média, a 0,66x. O investidor compra na Bolsa por menos de 70 centavos cada real de imóvel avaliado, o maior desconto entre todos os segmentos de FII.

Gráfico 1 – Relação P/VP para os principais setores de FII na Bolsa

Gráfico 1 - Relação P/VP para os principais setores de FII na Bolsa
Fonte: Economatica e EQI Research

A leitura imediata é que o mercado incorpora riscos de execução, gestão, vacância e, na ponta final, de renda superiores ao que o laudo informa. Ou seja, na prática, o imóvel pode até valer o preço informado pelo laudo mas, na avaliação do mercado, esse ativo dentro do FII precisa entregar mais.

Três vendas acima do laudo

O HGRE11, FII de escritórios, vendeu dois conjuntos no One Berrini Corporate por R$ 21,8 milhões, a R$ 23.800 o metro quadrado. O preço saiu 19,2% acima do laudo de 2025 e 31,9% acima do valor que o fundo havia investido no ativo.

O RCRB11, também de escritórios, concluiu a venda da participação no edifício Parque Cultural Paulista por R$ 77 milhões, 15% acima do laudo, com ganho de capital de R$ 2,96 por cota.

O VINO11 vendeu o ativo Cardeal, em Pinheiros, por R$ 40 milhões, cerca de 12% acima da avaliação, a um cap rate de 8,75% sobre a receita de locação vigente.

Os três negócios foram fechados acima do laudo. Na Bolsa, o mesmo tipo de ativo negocia com desconto superior a 30% sobre esse mesmo laudo. Temos dois mercados olhando para o mesmo imóvel, mas chegando a preços muito diferentes.

De onde vem essa distância?

A explicação não está no imóvel, mas no custo do dinheiro. Com a Selic no patamar de 14% ao ano, a renda fixa concorre de forma direta com os FIIs, e o investidor da Bolsa passa a exigir um yield maior para carregar risco imobiliário.

Esse yield aparece pela via do preço: a cota cede até o dividendo ficar competitivo, mesmo com o prédio locado e sem qualquer problema comercial.

O comprador do imóvel físico trabalha com outra régua. Geralmente, ele tem horizonte mais longo, taxa de desconto própria e não precisa marcar a posição todos os dias. Por isso enxerga valor onde o mercado listado, mais sensível ao fluxo de curto prazo, tem exigido mais retorno.

Mas nem todo desconto é oportunidade. E os exemplos dados não podem ser extrapolados para todos os FIIs do segmento.

Veja o caso do RBRP11, por exemplo. O FII vendeu um escritório no Rio de Janeiro com prejuízo de 34%. O prêmio sobre o laudo aparece nos ativos de boa localização e ocupação, nas não no segmento inteiro.

Comprar o setor apenas porque ele está descontado ou com um P/VP baixo é uma tese frágil e costuma ser detratora de patrimônio. O desconto isolado não configura sinal de compra, e a análise dos fundamentos continua sendo o que separa uma potencial oportunidade de uma armadilha de valor.

No outro extremo, os galpões

A logística paulista está na ponta oposta do ciclo. É hoje o segmento de tijolo com o fundamento mais consistente da Bolsa.

A vacância de galpões A+/A na Grande São Paulo caiu de 7,33% para 5,65% entre o primeiro e o segundo trimestre de 2026, com absorção líquida de 1,47 milhão de metros quadrados em 12 meses.

O valor médio de locação, em termos reais, está no ponto mais alto da série iniciada em 2015. A demanda vem do comércio digital: e-commerce e distribuição ao consumidor final ocupam 3,25 milhões de metros quadrados na região, com registro de uma expansão de 53% em três anos.

Nesse segmento, o investidor não compra desconto.

O BTLG11, maior fundo logístico listado, negocia perto do valor patrimonial e paga dividend yield de 9,4%, com vacância financeira de 2,6% e alavancagem equivalente a 2,8% do patrimônio. Encerrou em julho uma emissão de R$ 1,807 bilhão, integralizada à vista, e informa um pipeline de aproximadamente R$ 2,25 bilhões em ativos AAA com cap rates acima de 9%.

É um cenário bem diferente dos escritórios. Neste caso, descontos na ordem de 30% em relação ao VP são muito raros e deveriam acender um alerta no investidor.

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O que fazer, então?

Junte as duas pontas e, então, vai aparecer o desenho que interessa para quem está montando um portfólio para o longo prazo. O preço na Bolsa já embute juro real elevado por um período longo, e o investidor é remunerado para esperar, com dividendo em patamar historicamente alto.

Enquanto isso, o valor dos imóveis vem sendo validado fora da Bolsa, em transações fechadas acima do valor patrimonial.

O que falta para a Bolsa reconhecer esse valor, na minha visão, é macro. O gatilho é o fechamento consistente da curva longa. Enquanto o juro seguir onde está, o desconto tende a se manter. Quando virar, a reprecificação não deverá depender de nenhuma novidade operacional, porque o valor já está no ativo.

É essa combinação que me faz enxergar assimetria favorável neste momento, com espaço maior de alta do que de queda para o investidor disposto a esperar a virada do ciclo.

E é também o que explica por que a escolha do fundo pesa mais do que a escolha do índice. Um ano de IFIX zerado não é o mesmo que um ano perdido em Fundos Imobiliários. A diferença de retorno, neste ciclo, está vindo da seleção.

Neste mês, reiterei a recomendação de compra para RCRB11 entre os fundos de escritórios, e elegi o BTLG11 como minha preferência no segmento logístico.