O Tesouro americano anunciou um aumento no volume de recompra de títulos públicos com vencimentos entre 10 e 30 anos, a partir do próximo dia 9 de setembro. A intenção de dobrar o montante usual surpreendeu o mercado, em meio ao trimestre que já tinha um cronograma de emissões e recompras definido com antecedência.
Como resultado, as taxas de juros nos vértices mais longos da curva de juros dos Estados Unidos cederam, revertendo parte da inclinação recente. Vale ressaltar ainda alguns pontos que podem ser importantes para as perspectivas do dólar e do ouro nos próximos meses.

Yields – Dados diários (jan/2025 a ago/2026)
Primeiro, o Tesouro já havia realizado uma intervenção cambial com o Banco Central do Japão (BoJ) para evitar uma depreciação acelerada do iene, mas que acabou evitando também uma venda de títulos americanos.
Ou seja, taxas de juros mais altas nos vencimentos mais longos já pareciam incomodar o secretário do Tesouro Americano, Scott Bessent.
Segundo, o momento do anúncio, duas semanas após a definição do cronograma de emissões e recompras, indica que algo mudou nesse período. E, de novo, o aumento recente nas taxas de juros parece ter alcançado um patamar que gerou uma reação do governo americano.
O tamanho da injeção de liquidez permanece pequeno e não deve ser suficiente para alterar de maneira significativa a curva de juros.
Porém, essas indicações apontam para um desconforto do Tesouro e suscita quais outras medidas poderão ser anunciadas nas próximas semanas ou meses. Afinal, existe um nível que irá acionar mais medidas?

Spread 30Y-5Y Dados diários (jan/2025 a ago/2026)
O Tesouro poderá ser ainda mais heterodoxo, colocando limites nas taxas de juros, como foi feito pelo Japão recentemente? Ou será que o nível da taxa de juros poderia afetar o crescimento econômico e há interesse em manter a economia americana em expansão?
Independentemente da motivação, um “abafamento” de um importante preço do mercado poderá gerar uma transmissão dessa precificação para outros ativos. Se os juros estavam subindo por risco fiscal que não está sendo resolvido, ou por um risco maior de um mundo mais volátil e incerto, que não retrocederá no curto prazo, esses fatores irão afetar outros preços de mercado. E o mercado mais líquido e livre de intervenção é o do dólar, o mercado de moeda.
O cenário-base da EQI desde o início do ano já apontava para um dólar perdendo valor em 2026. Com os eventos do Oriente Médio, essa trajetória foi interrompida. Porém, acreditamos que as dúvidas do mercado sobre as intervenções na curva de juros americana irão afetar o dólar.
Duas consequências de um dólar mais fraco, através de juros artificialmente mais baixos, são uma inflação de ativos, como renda variável, e uma busca por proteção no ouro.
Publicamos recentemente um relatório reforçando a recomendação de compra de ouro, e com as notícias mais recentes, essa estratégia ficou ainda mais atrativa.
Para o Brasil, a principal contribuição viria de um real mais forte, ou menos suscetível aos ruídos eleitorais. Reforçamos o call de que nossa moeda encerre o ano em 5,2 ante o dólar. Além disso, poderemos ver apetite por risco ao redor do mundo, o que poderia favorecer nossa renda variável, que vinha sofrendo com repetidos saques de estrangeiros.
Finalmente, uma moeda mais estável e/ou uma maior apreciação poderiam ajudar o Banco Central a continuar o ciclo de cortes de juros para além da reunião de setembro, favorecendo nossas recomendações recentes de oportunidades na renda fixa local, tanto em títulos atrelados à inflação quanto nas taxas prefixadas.
Em resumo, o Tesouro Americano sinalizou mais do que efetivamente fez.
Ao ligar o pisca em um carro, o motorista não irá mudar de faixa imediatamente, mas indica a intenção de o fazer, em breve. Igualmente, a intervenção na curva de juros sinalizou desconforto com a dinâmica recente das taxas de juros e a intenção, caso necessário, de novas medidas.
Essa “mudança de faixa” que o mercado irá monitorar nas próximas semanas.
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