O custo de vida, a criminalidade e a percepção de corrupção deverão ocupar o centro da disputa pela Presidência da República em 2026, especialmente entre os eleitores que não mantêm uma identidade ideológica ou partidária definida. A leitura foi apresentada durante o painel “Eleições 2026: o que precisamos fazer diferente desta vez?”, realizado na Money Week 2026.
Participaram da discussão o comentarista político Caio Coppolla, o estrategista eleitoral Roberto Reis e Silvio Cascione, chefe da Eurasia Group no Brasil. Apesar das diferentes abordagens, os três convergiram em um ponto: a percepção cotidiana da economia deverá ter mais peso sobre o voto do que os indicadores considerados isoladamente.
Para Coppolla, a pressão no orçamento das famílias pode se tornar o principal problema eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição. A insatisfação econômica, somada às preocupações com segurança pública e corrupção, abre espaço para a busca por uma alternativa.
“O custo de vida pode custar a eleição do Lula”, afirmou Coppolla.
O comentarista ressaltou que a disputa não depende apenas do desempenho formal da economia, mas de como a população percebe sua renda, o preço dos alimentos, o acesso ao crédito e a capacidade de manter o padrão de consumo.
Economia pode decidir voto dos eleitores sem ideologia
Cascione também apontou a economia como o tema de maior influência sobre o eleitor que não enxerga a política como uma disputa entre times. Esse grupo pode ter votado em Jair Bolsonaro em 2018 e em Lula quatro anos depois, mudando de posição conforme a avaliação do momento.
“A economia importa ainda mais nesta eleição para o eleitor que não tem time para torcer, para o eleitor que não tem ideologia”, afirmou Cascione.
Esse comportamento transforma a percepção econômica em uma variável decisiva. Para conquistar o eleitor menos identificado com os polos políticos, governo e oposição precisarão relacionar seus discursos a problemas concretos, como custo de vida, endividamento e dificuldade de acesso ao crédito.
Roberto Reis avaliou que os assuntos predominantes no debate público criam um ambiente potencialmente favorável à oposição. Além da inflação percebida pelas famílias, citou criminalidade, endividamento, corrupção e discussões sobre liberdade de expressão. A existência desse ambiente, contudo, não garante que os adversários do governo consigam convertê-lo em votos.
O principal desafio da oposição será construir uma narrativa capaz de organizar essas insatisfações e encontrar um candidato que ocupe esse espaço. Reis citou a pesquisa Genial/Quaest de agosto, segundo a qual 55% dos entrevistados disseram que Lula não merece mais quatro anos de mandato, enquanto 41% defenderam sua continuidade.
“Já existe uma maioria. Basta encontrar alguém para ocupar esse espaço”, avaliou Reis.
O estrategista também mencionou um cenário com 45% das intenções de voto para Lula e 44% para Flávio Bolsonaro. O placar corresponde à pesquisa PoderData/Aya divulgada nesta quinta-feira (27), na qual os dois aparecem tecnicamente empatados em uma simulação de segundo turno. A margem de erro é de dois pontos percentuais.
Próximo presidente terá de enfrentar risco fiscal
Se a economia tende a decidir a eleição, a situação fiscal deverá limitar a atuação de quem assumir a Presidência em 2027. Cascione alertou que o aumento do endividamento público, combinado com juros elevados, cria uma dinâmica difícil de sustentar.
Na avaliação do analista, o próximo governo precisará tratar o equilíbrio das contas públicas como uma condição para avançar nas demais áreas. Sem uma solução para o problema fiscal, políticas econômicas e sociais poderão perder espaço diante do aumento das despesas financeiras e da necessidade de administrar a dívida.
“O próximo presidente precisa resolver esse problema. O Brasil precisa melhorar a questão fiscal, pois todo o resto ficará inviável”, afirmou Cascione.
O chefe da Eurasia Group no Brasil chamou atenção ainda para dois riscos que ultrapassam a agenda econômica. O primeiro é o avanço do crime organizado sobre a política e sobre diferentes setores da sociedade. O segundo é a erosão institucional provocada por conflitos entre Executivo, Legislativo e Judiciário.
Segundo Cascione, a sobreposição das atribuições dos Poderes enfraquece as regras institucionais e aumenta a imprevisibilidade. Esses problemas precisarão ser remediados pelo próximo governo para impedir que a crise de confiança comprometa a capacidade de formular e executar políticas públicas.
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Redes sociais mudam a disputa eleitoral
Outro ponto central do painel foi a transformação das fontes de informação utilizadas pelos eleitores. Coppolla perguntou à plateia se o público acompanhava notícias principalmente pela televisão ou pelo celular. A manifestação dos presentes indicou predominância dos meios digitais, embora a consulta informal não possa ser extrapolada para o conjunto do eleitorado.
“Os eleitores estão se informando mais pelas redes sociais do que pela televisão”, afirmou Coppolla.
Na avaliação do comentarista, existe uma divisão entre os campos políticos: eleitores de esquerda ainda recorreriam mais à televisão, enquanto os de direita utilizariam com maior frequência redes sociais e outras plataformas digitais.
Coppolla argumentou que a circulação de informações nas redes abre espaço para contestação imediata e confronto entre diferentes interpretações. Na televisão, segundo ele, as ideias são apresentadas com menos oportunidades de resposta e contraditório.
“As ideias mais fortes se fortalecem nas redes sociais porque existe debate e troca. Na televisão, não há o mesmo espaço para o contraditório”, avaliou Coppolla.
O comentarista também sustentou que parte da juventude, tradicionalmente associada à esquerda por sua identificação com mudanças sociais, tem se aproximado da direita. Para ele, integrantes da geração Z valorizam ambientes de debate e troca de ideias encontrados nas plataformas digitais.
Reis concordou que as campanhas precisam compreender melhor esse novo ecossistema. O jovem eleitor não acompanha apenas os canais tradicionais ou as redes mais conhecidas, mas também comunidades no Discord, transmissões ao vivo e influenciadores que falam para públicos específicos.
O estrategista avaliou que a esquerda desenvolveu historicamente uma estrutura de comunicação a partir de universidades e movimentos organizados. A direita, por sua vez, cresceu nas redes, mas ainda precisaria coordenar melhor suas mensagens e transformar mobilização digital em estratégia eleitoral.
“A esquerda sabe se comunicar desde os centros universitários. A direita precisa se organizar melhor”, afirmou Reis.
Eleição será decidida além das bases ideológicas
O diagnóstico apresentado no painel indica que repetir as estratégias das eleições anteriores poderá ser insuficiente em 2026. A polarização continua organizando parte relevante do eleitorado, mas a disputa deverá ser decidida também por pessoas que mudaram de candidato entre 2018 e 2022 e podem voltar a fazê-lo.
Para alcançar esse grupo, as campanhas precisarão traduzir indicadores econômicos em experiências cotidianas, apresentar respostas para segurança pública e corrupção e adaptar a comunicação a um ambiente fragmentado entre televisão, redes sociais, influenciadores e comunidades digitais.
Ao mesmo tempo, o vencedor encontrará desafios que não se encerram na campanha. O ajuste das contas públicas, o enfrentamento da influência do crime organizado e a recomposição das relações entre os Poderes estarão entre os principais testes do governo iniciado em 2027.






