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Juros altos desafiam investimentos em infraestrutura no Brasil

Juros altos desafiam investimentos em infraestrutura no Brasil

Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o país deveria investir cerca de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) por ano no setor

O Brasil precisa ampliar de forma significativa os investimentos em infraestrutura para sustentar o crescimento econômico, mas o volume aplicado ainda está abaixo do necessário. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o país deveria investir cerca de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) por ano no setor, enquanto atualmente o percentual está próximo de 2,2%. Para especialistas e executivos, destravar esse potencial depende de segurança jurídica, previsibilidade regulatória e projetos com capacidade de gerar retorno. O tema foi debatido em painel no primeiro dia da Money Week.

Leonardo Depiné, CFO da Engie (EGIE3), afirma que ainda faltam segurança regulatória, estabilidade e sinais de preços adequados para que novos investimentos sejam destravados. Na avaliação do executivo, o problema não está apenas na disponibilidade de capital, mas na criação de condições que permitam ao investidor avaliar corretamente os riscos e o retorno de cada projeto.

Leonardo Depiné, CFO da Engie

Cristina Tamaso, head de Infraestrutura da Valora Asset, destaca que a análise precisa começar pelo ambiente macroeconômico e pelas características de cada setor. Segundo ela, antes de avaliar um projeto individualmente, o investidor precisa verificar se existe um arcabouço jurídico bem definido e um marco regulatório capaz de oferecer segurança para os aportes. Depois disso, entram questões como compliance, estrutura do projeto e capacidade de execução.

Com as taxas de juros ainda elevadas, a qualidade do fluxo de caixa se tornou ainda mais importante. Raphael Barcelos, sócio e co-head de Infraestrutura da RBR Asset, afirma que cada projeto precisa ter vida própria, independentemente do grupo econômico responsável. Para ele, a operação deve ser economicamente viável e gerar fluxo de caixa suficiente para não depender constantemente de novas injeções de recursos.

Dependência de orçamento público: um problema

O executivo ressalta que projetos com forte dependência do orçamento público podem se tornar um impeditivo para os investidores. Em vez de receitas provenientes de tarifas pagas pelos usuários, essas iniciativas dependem diretamente de recursos governamentais. Para a RBR Asset, essa característica pode ser um “deal breaker”, ou seja, um fator capaz de inviabilizar a tese de investimento.

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Raphael Barcelos, sócio e co-head de Infraestrutura da RBR Asset

O custo do dinheiro também afeta diretamente a viabilidade das concessões. Depiné observa que disputar uma linha de transmissão em um cenário de CDI entre 14% e 15% ao ano encarece o projeto e, consequentemente, aumenta o custo para o país. Contudo, o empreendimento pode continuar sendo viável, desde que sua estrutura econômica consiga absorver o custo financeiro.

Nesse ambiente, as debêntures de infraestrutura continuam sendo uma importante fonte de financiamento, embora os custos estejam elevados. Cristina Tamaso afirma que, em momentos de juros altos, uma das alternativas é customizar a estrutura financeira de cada projeto para reduzir o impacto inicial do custo da dívida. A ideia é atravessar a fase mais difícil e permitir que, posteriormente, o financiamento acompanhe a geração de caixa da operação.

A demanda por crédito permanece elevada, mas o cenário exige alternativas. Barcelos afirma que é comum, em ciclos de juros elevados, que investidores e empresas tentem postergar projetos ou buscar linhas subsidiadas, como as oferecidas pelo Banco do Nordeste. Como esses recursos não estão disponíveis para todos os projetos e dependem de cronogramas específicos, empréstimos-ponte também podem ser utilizados como solução transitória.

A relação entre qualidade do projeto e qualidade da dívida também ganhou importância. Um projeto ruim pode ter uma dívida aparentemente boa, enquanto um empreendimento de qualidade pode carregar uma estrutura financeira inadequada. Para Barcelos, o problema aparece principalmente quando há alavancagem excessiva. Com baixa alavancagem e margem de segurança, uma dívida pode ser confortável para o credor, mas o mesmo projeto pode se tornar problemático para o acionista se a estrutura de capital estiver desequilibrada.

Entre as novas fronteiras do setor estão as baterias e o biometano. Cristina Tamaso avalia que o desenvolvimento desses mercados depende, inicialmente, de uma agenda regulatória clara e de estabilidade jurídica. Ela cita avanços em setores como geração distribuída e saneamento, nos quais mudanças nos marcos regulatórios ajudaram a destravar investimentos.

No caso das baterias, a expectativa é que a tecnologia ajude a resolver um dos principais desafios do sistema elétrico brasileiro: a maior intermitência provocada pelo crescimento das fontes renováveis. O biometano também começa a ganhar espaço, com projetos entrando no pipeline depois de um período em que investidores precisaram compreender melhor o arcabouço jurídico do setor. Entretanto, questões como licenciamento ambiental ainda podem atrasar projetos por longos períodos.

A geração distribuída, por sua vez, passa por um período de teste de resiliência. Segundo Barcelos, o segmento começa a enfrentar eventos de crédito que devem colocar à prova as estruturas financeiras desenvolvidas durante seu rápido crescimento. O executivo afirma que parte do mercado cresceu inspirada na geração centralizada, que possui contratos e estruturas testados ao longo de décadas, mas a geração distribuída avançou rapidamente sobre uma base regulatória mais recente.

O crescimento acelerado acabou atraindo empresas que não estavam necessariamente preparadas para a expansão. Com o desequilíbrio entre oferta e demanda e o encarecimento das dívidas, alguns participantes passaram a buscar alternativas para reorganizar suas estruturas de capital. Barcelos cita operações inicialmente estruturadas como CRIs e posteriormente migradas para debêntures como exemplo das adaptações feitas pelo mercado.

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Outro vetor de oportunidade está na expansão dos data centers e da inteligência artificial. O Brasil possui disponibilidade abundante de energia, mas precisa ampliar sua capacidade de oferecer eletricidade com flexibilidade e segurança para atender novos padrões de consumo. Depiné afirma que, há cinco ou dez anos, a intermitência era menos relevante, mas o avanço da geração solar mudou o funcionamento do sistema.

Nesse cenário, as baterias devem ganhar importância. A expansão da energia solar cria uma necessidade crescente de armazenar eletricidade produzida durante o dia para utilização em períodos de maior demanda, inclusive à noite. Segundo Depiné, essa necessidade de flexibilidade tende a abrir um mercado significativo para sistemas de armazenamento e representa uma transformação estrutural no setor elétrico.

A possibilidade de o Brasil se tornar fornecedor de energia para grandes projetos de inteligência artificial, contudo, ainda depende de viabilidade econômica. O país possui uma fonte energética abundante, mas os custos das tarifas podem limitar a competitividade. Para Depiné, a inteligência artificial continuará avançando, mas ainda não é possível afirmar em que medida os projetos serão economicamente viáveis no Brasil.

No saneamento, os especialistas enxergam um mercado ainda longe da saturação. Cristina Tamaso afirma que o país continua distante da universalização dos serviços e que o setor apresenta demanda relativamente inelástica. Uma vez instalada a infraestrutura, existe uma base de consumidores que tende a gerar receitas recorrentes, embora ainda seja necessário um volume elevado de investimentos.

Cristina Tamaso, da Valora Asset

A oportunidade também está nos blocos que ainda precisam ser concessionados ou privatizados. Para o investidor, contudo, é importante acompanhar a transformação do investimento em infraestrutura em receita. Em municípios menores, o desafio é ainda maior, segundo Barcelos, já que muitas prefeituras não possuem equipes técnicas suficientes para estruturar concessões e organizar processos competitivos com segurança jurídica.

Nesse contexto, o BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social pode exercer um papel relevante não apenas como financiador, mas também como estruturador de projetos. Cristina Tamaso afirma que a atuação do banco ajuda a aproximar os poderes concedentes do mercado privado e pode contribuir para transformar demandas de infraestrutura em projetos efetivamente financiáveis.

Calendário eleitoral

O calendário eleitoral também aparece como fator de atenção. Depiné avalia que o período de eleições pode alterar o ambiente de discussão de projetos, embora os impactos sejam diferentes em cada setor. Ele cita como exemplo o leilão de baterias, que possui consulta pública em andamento. Para o executivo, o país precisa avançar para uma mentalidade mais “pró-preços” e “pró-mercado”, reduzindo a dependência de subsídios e criando condições para que diferentes segmentos se desenvolvam com maior autonomia.

Na avaliação dos especialistas, portanto, não existe necessariamente um único setor de infraestrutura com maior potencial. O principal critério é verificar se o projeto apresenta uma matriz de riscos clara, um arcabouço regulatório funcional e premissas econômicas capazes de sustentar o investimento. Cristina Tamaso destaca que investidores privados já respondem por cerca de 70% dos investimentos em infraestrutura no país.

Para Barcelos, as maiores oportunidades ainda estão em segmentos tradicionais. Logística, saneamento e energia elétrica continuam apresentando um enorme déficit de infraestrutura e, portanto, não é necessário depender apenas de tecnologias ou mercados emergentes para encontrar bons investimentos. A combinação entre demanda elevada, segurança jurídica e projetos financeiramente sustentáveis deve continuar sendo o principal caminho para ampliar os investimentos no setor.