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Guedes vê exaustão da ordem liberal e nova disputa geopolítica

Guedes vê exaustão da ordem liberal e nova disputa geopolítica

Para Guedes, a integração econômica promovida pela globalização não foi acompanhada por uma convergência ideológica

O ex-ministro da Economia Paulo Guedes afirmou, em palestra no primeiro dia da Money Week, em Balneário Camboriú (SC), que o mundo atravessa um período de exaustão da ordem liberal construída após a Segunda Guerra Mundial, com a disputa entre Estados Unidos e China assumindo o centro da nova dinâmica geopolítica. Para Guedes, a integração econômica promovida pela globalização não foi acompanhada por uma convergência ideológica, abrindo espaço para conflitos comerciais, tecnológicos e estratégicos.

Durante palestra, Guedes afirmou que as democracias liberais e os mercados foram as principais referências das últimas oito décadas, período em que a economia mundial passou por uma profunda integração. Segundo ele, cerca de 8 bilhões de pessoas deixaram a pobreza durante o processo de globalização. A expansão do comércio internacional também transformou a China em uma potência econômica, com uma extensa frota comercial conectando o país ao restante do mundo.

Na avaliação do ex-ministro, entretanto, a integração econômica não eliminou as divergências políticas e ideológicas. Ele apontou uma pressão “por baixo”, representada pela competição asiática, e outra “por cima”, provocada pelo avanço de novas tecnologias. Nesse ambiente, Guedes considera que as democracias liberais enfrentam uma crise de confiança, ao mesmo tempo em que movimentos conservadores ganham força em diferentes países.

A questão migratória também foi apresentada como um dos sintomas dessa transformação. Guedes citou o aumento da imigração nos Estados Unidos e a chegada de venezuelanos ao Brasil pela fronteira de Pacaraima, em Roraima. Também mencionou a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, como uma das líderes que têm reagido ao aumento dos fluxos migratórios. Para o ex-ministro, a civilização ocidental atravessa uma crise que está alterando o equilíbrio político entre liberais, conservadores e socialistas.

Disputa mais ampla

Guedes afirmou que as guerras atuais devem ser entendidas dentro dessa disputa mais ampla pela reorganização da ordem mundial. Ele disse ter identificado as raízes do processo na invasão da Ucrânia pela Rússia e avaliou que a burocracia internacional também passou a ser questionada. O ex-ministro citou inclusive os debates sobre uma possível reforma da Organização das Nações Unidas (ONU) como sinal de que instituições multilaterais estão sendo pressionadas a se adaptar à nova realidade.

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Apesar das tensões, Guedes descartou a possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial. Para ele, as principais potências envolvidas continuam sendo grandes comerciantes e possuem fortes interesses econômicos em evitar um conflito direto. “Quem está brigando são os pequenos”, afirmou, ao descrever o atual cenário como uma disputa geopolítica travada em diferentes dimensões.

Na visão do ex-ministro, a ruptura das cadeias produtivas durante a pandemia de Covid-19 e a guerra na Ucrânia aprofundaram a fragmentação da economia mundial. O conflito acrescentou uma dimensão física à ruptura econômica, ao afetar energia, alimentos, logística e cadeias de suprimentos. Guedes também apontou a Rússia como um dos grandes perdedores da ordem estabelecida após a Guerra Fria, enquanto o avanço da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em direção às fronteiras russas teria ampliado as tensões.

O Oriente Médio também estaria inserido nessa transformação. Guedes classificou Irã, Hezbollah e Hamas como grandes perdedores da atual reorganização regional e citou o crescimento da bolsa de Dubai em contraste com a perda de dinamismo dos mercados europeus. Para ele, os movimentos conservadores estão reagindo a uma mudança na correlação de forças que ultrapassa a economia e envolve segurança, energia e poder político.

Outro ponto estratégico citado por Guedes foi a energia. O Brasil, segundo ele, possui uma vantagem relevante por contar com uma matriz majoritariamente renovável e com potencial para oferecer energia competitiva à indústria de alta tecnologia. O avanço dos semicondutores e da inteligência artificial, contudo, aumenta a importância de fontes de eletricidade confiáveis e abundantes. Em um cenário de conflito físico, afirmou, os países poderiam ser obrigados a escolher seus parceiros estratégicos.

No plano doméstico, Guedes voltou a criticar o crescimento da dívida pública brasileira, que, segundo ele, se aproxima de 100% do Produto Interno Bruto (PIB). O ex-ministro afirmou que o aumento dos gastos públicos pressiona a emissão de moeda, a inflação e a necessidade de financiamento do governo. Com juros elevados, a dívida cresce de forma acelerada, criando, em sua avaliação, uma dinâmica de “bola de neve”.

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Guedes classificou o atual cenário como um caso de dominância fiscal e afirmou que o Brasil corre o risco de voltar à armadilha do baixo crescimento. Segundo ele, o pagamento de juros consome recursos que poderiam ser direcionados para serviços públicos e investimentos. O ex-ministro estimou que cerca de R$ 1 trilhão seja destinado ao serviço da dívida e afirmou que o país corre o risco de se tornar “o paraíso dos rentistas e o inferno dos empreendedores”.

Ele também comparou a situação atual com o cenário encontrado no início do governo Jair Bolsonaro, quando assumiu o Ministério da Economia. Segundo Guedes, a relação entre dívida pública e PIB estava em aproximadamente 74% e chegou a cerca de 71% no último ano de sua gestão. Para ele, medidas de redução da alavancagem e de melhoria dos balanços públicos foram fundamentais para conter a deterioração fiscal.

Durante a palestra, Guedes também citou a digitalização do governo durante a pandemia como exemplo de ganho de produtividade. Segundo ele, o governo conseguiu ampliar a oferta de serviços sem aumentar proporcionalmente o número de funcionários públicos. O ex-ministro afirmou que o Brasil chegou a ocupar posições de destaque em rankings internacionais de governo digital, resultado que, em sua avaliação, demonstraria a possibilidade de produzir mais com uma estrutura administrativa menor.

A deterioração fiscal, na avaliação de Guedes, também ajuda a explicar dificuldades enfrentadas pelo varejo e pelo agronegócio. Para ele, os problemas desses setores fazem parte de uma mesma armadilha de baixo crescimento provocada pela combinação de gastos públicos elevados, juros altos e falta de previsibilidade. O ambiente de negócios, segundo o ex-ministro, precisa oferecer estabilidade, segurança jurídica e horizonte suficiente para que empresas possam tomar decisões de longo prazo.

Guedes afirmou ainda que a segurança deverá ser um dos principais temas das próximas eleições, podendo ter peso até maior do que a economia. Para ele, a combinação entre insegurança, instabilidade institucional e deterioração fiscal pode afetar diretamente as decisões de investimento e o crescimento.

Apesar das críticas, o ex-ministro afirmou manter uma visão otimista sobre o potencial brasileiro. O país, segundo ele, reúne recursos naturais, uma matriz energética com cerca de 80% de fontes renováveis e condições para ampliar sua participação em setores estratégicos. Guedes defendeu maior confiança no mercado e na capacidade de trabalhadores e empreendedores, além de um ambiente regulatório mais favorável aos investimentos.

O ex-ministro também criticou o aumento da carga tributária brasileira. Segundo Guedes, a carga cresceu cerca de quatro pontos percentuais nos últimos quatro anos e atingiu um dos maiores níveis da história. Ele defendeu uma política de contenção dos gastos públicos e descentralização dos recursos para estados e municípios, argumentando que o caminho deveria ser reduzir a pressão sobre empresas e famílias em vez de ampliar impostos.

Ao encerrar sua avaliação, Guedes resumiu sua visão sobre o momento brasileiro com uma frase: o país tem condições de emergir, desde que não cometa erros. Para ele, o Brasil possui recursos e vantagens suficientes para se beneficiar da reorganização da economia mundial, mas precisará combinar responsabilidade fiscal, segurança jurídica, abertura aos investimentos e maior eficiência do Estado para transformar essas vantagens em crescimento.