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Do CDI ao ouro: os ativos que podem proteger a carteira em tempos de crise

Do CDI ao ouro: os ativos que podem proteger a carteira em tempos de crise

Em meio a guerras, tensões comerciais e incertezas sobre juros e inflação, especialistas da EQI Research explicam como diferentes classes de ativos podem ajudar a reduzir a vulnerabilidade do patrimônio

Guerras, disputas comerciais, mudanças nos juros e oscilações do dólar criaram um ambiente em que proteger o patrimônio voltou a ocupar espaço importante nas decisões dos investidores. Mas existe, de fato, uma carteira capaz de atravessar diferentes crises?

Para os especialistas da EQI Research, a resposta não está em apostar todas as fichas em um único ativo considerado seguro. O caminho passa pela diversificação e, principalmente, pela escolha de investimentos que cumpram funções diferentes dentro do portfólio.

Essa é a lógica por trás da Carteira Safe Haven, apresentada por João Neves, estrategista de ações da EQI Research, e pelos analistas CNPI Nícolas Merola e João Abdouni, na Money Week 2026. A estratégia reúne renda fixa, fundos imobiliários, ações e ativos de proteção, como investimentos atrelados a moedas fortes e ouro.

“Eu comecei a trabalhar esse relatório em janeiro, mas nessa época e desde o ano passado estamos passando por uma crise geopolítica no mundo todo”, afirmou Merola durante a palestra.

Segundo o analista, o enfraquecimento do processo de globalização, as disputas tarifárias e os conflitos geopolíticos aumentaram a percepção de risco nos mercados. Com mais instabilidade e volatilidade, surgiu uma questão prática: como construir uma carteira para um investidor que teme os efeitos desses acontecimentos sobre seu patrimônio?

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Renda fixa é a base de previsibilidade

Se a incerteza é um dos principais problemas em momentos de crise, a previsibilidade passa a ter valor especial dentro do portfólio.

É nesse ponto que entra a renda fixa. Na Carteira Safe Haven, títulos públicos e investimentos ligados ao CDI e à inflação ajudam a equilibrar a exposição a classes mais voláteis.

“Essa previsibilidade é muito valiosa no contexto do Safe Haven. Essa previsibilidade é o que você quer ter em momentos de instabilidade”, explicou Merola.

João Abdouni destacou que os títulos pós-fixados acompanham as indicações da política monetária e podem continuar relevantes mesmo diante de mudanças na taxa de juros.

Já os pré-fixados ficaram com espaço menor na estratégia. Apesar das taxas disponíveis, Abdouni explicou que esses papéis não apresentavam todas as características procuradas pelos analistas para a proposta específica do portfólio. Parte da exposição foi direcionada, então, para ativos de renda variável.

FIIs cumprem duas funções na carteira

Os fundos imobiliários entram na estratégia por outro caminho: geração de renda e potencial de valorização patrimonial.

Nos fundos de papel, o foco está principalmente nos rendimentos periódicos. Abdouni argumentou que esse fluxo pode ajudar o investidor a lidar com despesas ou criar novas oportunidades de reinvestimento.

Nos fundos de tijolo, além da renda, há a exposição aos próprios imóveis e à possibilidade de valorização desses ativos.

“Quando a gente pensa em imóveis, é uma máxima de que imóvel preserva valor”, afirmou João Neves.

A escolha entre as subclasses, portanto, não precisa ser excludente. Na estratégia apresentada, elas cumprem papéis complementares: enquanto uma prioriza o fluxo de renda, a outra acrescenta uma perspectiva de crescimento patrimonial.

Quais ações cabem em uma carteira defensiva?

A presença de ações pode parecer contraditória em uma estratégia que pretende aumentar a proteção do investidor. Afinal, a bolsa está diretamente sujeita à volatilidade provocada justamente pelos períodos de maior incerteza.

A diferença, segundo Neves, está na seleção das empresas.

“Quando pensamos em proteção de patrimônio, entendemos que deve ter um tipo especial de ações nessa carteira”, afirmou.

A busca é por companhias com ativos difíceis de substituir, barreiras relevantes à entrada de concorrentes e capacidade consistente de alocação de capital. A integração vertical e a qualidade do negócio também entram nessa análise.

Em outras palavras, não se trata de eliminar o risco das ações, algo impossível, mas de selecionar negócios que, na visão dos analistas, tenham características para atravessar diferentes ciclos econômicos.

Por que ter parte do patrimônio em moeda forte?

Renda fixa, fundos imobiliários e ações ainda deixam o investidor exposto, em diferentes graus, aos riscos do mercado brasileiro. Por isso, a Carteira Safe Haven acrescenta uma camada internacional à estratégia.

“Recomendo que tenham ativos fora do Brasil”, disse Merola.

O analista citou um estudo considerado na elaboração da carteira segundo o qual cerca de 18% do custo de vida analisado está relacionado ao dólar. Dessa forma, uma valorização significativa da moeda americana pode atingir o poder de compra mesmo de quem não mantém investimentos no exterior.

A exposição a moedas fortes, como dólar e euro, funciona então como uma maneira de diversificar não apenas os investimentos, mas também os riscos aos quais o patrimônio está submetido.

Ouro completa a camada de proteção

O ouro é outro componente escolhido para a estratégia. Merola relacionou o metal tanto ao movimento de valorização de ativos reais quanto às discussões sobre desdolarização.

“O ouro é uma forma muito fácil de enxergarmos isso”, afirmou.

A lógica está ligada à escassez. Diferentemente de uma moeda que pode ser emitida por uma autoridade monetária, a oferta do metal é naturalmente limitada.

“Estamos protegendo o ativo no Brasil com uma moeda forte e protegendo com ativo de escassez”, resumiu Merola.

O conceito, no entanto, não se restringe ao ouro. O analista lembrou que acontecimentos geopolíticos podem transformar rapidamente a percepção sobre a disponibilidade de determinados recursos. “O que não era ativo de escassez ontem pode se tornar no futuro”, afirmou, citando o petróleo como exemplo.

Afinal, existe uma carteira à prova de crises?

Nenhuma combinação de investimentos consegue eliminar todos os riscos. E é justamente aí que está um dos principais pontos da estratégia apresentada pelos especialistas.

Em vez de tentar prever qual será a próxima crise, a proposta da Carteira Safe Haven é distribuir o patrimônio entre ativos que podem reagir de maneiras diferentes aos mesmos acontecimentos.

A renda fixa acrescenta previsibilidade; os fundos imobiliários, renda e exposição ao mercado de imóveis; as ações, participação em negócios considerados resilientes; os investimentos internacionais, exposição a moedas fortes; e o ouro, uma parcela ligada a um ativo escasso.

Mais do que encontrar o investimento perfeito para momentos de turbulência, a estratégia coloca a diversificação no centro da proteção patrimonial. Em um cenário no qual crises podem surgir de diferentes frentes, entender a função de cada ativo pode ser tão importante quanto decidir em qual deles investir.