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A IA começa a sentir a tensão em Wall Street

A IA começa a sentir a tensão em Wall Street

A alta dos juros globais, a disputa por capital e a mudança na liderança dos mercados indicam que a Inteligência Artificial entra em uma nova fase

Quem cresceu soltando pipa sabe que vento é indispensável. Mas também sabe que existe um momento em que a ventania pode deixar de ser uma aliada. 

Quando o vento aperta demais, a linha estanca. Ela deixa de correr livremente entre os dedos, a tensão aumenta rapidamente e, dali em diante, qualquer rajada adicional pode significar a perda da pipa. 

Tenho pensado nisso ao observar o comportamento recente das curvas de juros globais. O gráfico abaixo, por exemplo, mostra a evolução da taxa de juros dos títulos do Tesouro americano com vencimento em 30 anos, entre 2008 e 2026. 

O movimento de alta das taxas não parece ser explicado apenas por preocupações com a inflação.  

Afinal, há pouco tempo, durante o período de distensão associado ao memorando de entendimento entre Trump e o Irã, o petróleo caiu, os dados de inflação ao consumidor nos Estados Unidos vieram relativamente comportados e, ainda assim, as taxas de juros globais não cederam de maneira consistente.

Talvez exista algo mais acontecendo. 

Talvez estejamos diante de uma crescente disputa global por capital. 

Governos precisam financiar déficits cada vez maiores. Empresas investem em inteligência artificial, data centers e infraestrutura energética. Países ampliam gastos com defesa. Economias buscam reconstruir cadeias produtivas e aumentar estoques estratégicos de energia, fertilizantes e matérias-primas. 

Estamos, aparentemente, migrando do mundo do just in time para o mundo do just in case. 

E tudo isso exige capital. 

A tensão da IA

Curiosamente, esse movimento ocorre ao mesmo tempo em que começam a aparecer sinais de exaustão em alguns dos ativos que lideraram a narrativa de Inteligência Artificial. 

O Nasdaq 100 ainda se mantém acima de importantes níveis de suporte, mas o movimento de alta perdeu força nas últimas semanas. Essa aparente resiliência do índice contrasta com uma deterioração mais evidente em sua composição, como mostra o gráfico a seguir. 

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O setor de semicondutores fechou no positivo em apenas três dos últimos 13 pregões. A volatilidade aumentou consideravelmente, enquanto a correlação entre os diferentes setores permanece surpreendentemente baixa. 

Essa combinação é interessante. 

Estamos vivendo um momento em que a volatilidade das partes aumentou, mas a volatilidade do todo permanece relativamente contida. 

É justamente aí que reside um dos riscos que tenho observado. 

Se as correlações entre os ativos voltarem a subir rapidamente, poderemos assistir a um salto de volatilidade no índice. A proteção que muitos investidores deixaram de comprar poderá voltar a ser demandada de maneira simultânea. 

Se o Nasdaq 100 perder suportes importantes, a corrida por proteção poderá amplificar o movimento. 

Não estou dizendo que um mini crash está contratado. 

Mas a assimetria merece atenção. 

As marcas da especulação

Talvez o melhor exemplo seja a própria Coreia do Sul. O gráfico seguinte, por exemplo, compara o desempenho do índice de semicondutores (SOX), na linha branca, com a Carteira MSCI da Coreia do Sul (EWY), em azul escuro. 

Se o dinheiro começa a procurar novos caminhos, como você pôde ver na newsletter de hoje de Marink Martins, a pergunta passa a ser: como posicionar o patrimônio? No guia especial Onde Investir no 2º Semestre, você encontra as alocações sugeridas pelo time de analistas da EQI Research em renda fixa, ações, fundos imobiliários e, claro, investimentos internacionais , para navegar por essa nova fase dos mercados com muito mais segurança. [Baixe aqui]

Em momentos de mania, alavancagem, liquidez e posicionamento podem importar muito mais do que valuation. 

A Goldman Sachs tem chamado atenção justamente para esse ponto: movimentos extremos de mercado não precisam significar que a tese estrutural chegou ao fim. Muitas vezes, estamos apenas diante de um processo de desalavancagem e de reposicionamento provocado por liquidez.

É possível que seja exatamente isso que esteja começando a acontecer na infraestrutura da IA.

De crescimento a valor

E aqui chegamos a uma das transformações mais interessantes do momento. 

A tese de Inteligência Artificial não acabou. Mas parece estar entrando em uma nova fase. 

Os ganhos fáceis de momentum talvez tenham ficado para trás. A liderança começa a ficar mais seletiva. 

Enquanto isso, o capital parece procurar alternativas. 

Bancos europeus, China, Sudeste Asiático, Brasil, Colômbia. 

São mercados que, por diferentes razões, combinam valuations mais baixos com exposição a temas que podem se beneficiar dessa nova configuração global. 

A recuperação recente de ativos chineses, como Alibaba, é um exemplo dessa rotação. O mesmo pode ser observado na performance relativa de bancos europeus e de alguns mercados emergentes. 

A narrativa começa a mudar. 

O investidor já não pergunta apenas: 

“Onde está o maior crescimento?” 

Começa a perguntar: 

“Onde está o melhor valor?” 

E a energia? 

Há ainda uma dimensão que considero particularmente importante. 

Em um mundo marcado por maior competição por capital, reindustrialização, aumento dos gastos militares e reconstrução de estoques estratégicos, a energia passa a desempenhar um papel que vai muito além de uma simples commodity. 

Ela pode funcionar como hedge de portfólio. 

Não apenas contra inflação, mas contra um mundo em que governos e empresas passam a disputar recursos físicos e financeiros simultaneamente. 

Nesse contexto, Brasil e Colômbia merecem atenção. 

Ambos oferecem exposição a commodities e energia, mas, ao mesmo tempo, possuem mercados acionários negociados a múltiplos relativamente baixos em comparação com os ativos que dominaram a narrativa global nos últimos anos. 

Talvez não seja coincidência que justamente esses mercados estejam começando a atrair compradores.

Alimento para Reflexão

A pergunta que me faço agora é simples. 

Estamos diante do início de um mini crash do Nasdaq 100 ou apenas de uma nova etapa da rotação global de ativos? 

Até aqui, a segunda hipótese parece estar prevalecendo. 

O que estamos observando pode ser menos o fim da Inteligência Artificial e mais o fim de uma determinada forma de investir em Inteligência Artificial. 

A história estrutural continua. 

Mas o dinheiro está começando a procurar novos caminhos. 

E talvez seja exatamente isso que as curvas de juros estejam tentando nos dizer. 

O vento mudou. 

Agora precisamos descobrir se a linha continuará correndo livremente entre nossos dedos… 

Ou se, em algum momento, ela irá estancar.