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Kevin Warsh, mas pode me chamar de Pedro

Kevin Warsh, mas pode me chamar de Pedro

O mercado começa a se questionar sobre até onde vai a intenção do novo presidente da autoridade monetária americana com a inflação

O novo presidente do Federal Reserve (Fed), Kevin Warsh, trouxe diversas novidades e potenciais mudanças para a estrutura da autoridade monetária americana.

Uma das primeiras medidas anunciadas, por exemplo, foi a criação de cinco grupos de estudo que debaterão e oferecerão sugestões sobre temas relevantes de política monetária, como objetivos, mensuração de dados e comunicação, entre outros.

Dado o papel relevante do Fed na arena global, essas definições podem influenciar outros bancos centrais pelo mundo, com consequências sobre o uso e os efeitos desejados das políticas monetárias.

Após a consolidação do sistema de metas na década de 1990, houve poucas novidades estruturais na condução da política monetária. O modelo segue baseado na definição da taxa básica de juros como instrumento para levar a inflação à meta, tendo em conta que seus efeitos ocorrem de forma gradual e com defasagem conhecida.

As expectativas de inflação passaram a ser um importante canal de transmissão das decisões de política monetária, assim como a comunicação das autoridades passou a ter um papel relevante e a complementar a coordenação dos mercados.

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Diversos choques econômicos foram administrados sob esse arcabouço. Porém, uma atualização nessa estrutura, dadas as mudanças na economia global, é bem-vinda e pode trazer melhorias no combate e na manutenção da inflação em patamar mais baixo do que nos últimos anos, quando até o Fed não foi capaz de alcançar a meta de inflação.

O mundo hoje está mais incerto e mais volátil do que nas últimas décadas. Uma postura mais competitiva e menos colaborativa, especialmente dos Estados Unidos, aumenta a chance de novas disputas e conflitos. Na história recente, estamos vivendo o momento de maior quantidade de novas regras contra o livre comércio, segundo o FMI.

Além das tarifas, há regulamentos, restrições, cotas e outras ferramentas que buscam refrear o comércio internacional, proteger indústrias locais ou atrair investimentos. Isso tende a fracassar no longo prazo, trazendo apenas benefícios pontuais e temporários.

E os custos serão maiores. Uma realocação das cadeias de distribuição globais, maiores custos de transporte e uma menor mobilidade de capital e de mão de obra irão gerar menores ganhos de produtividade e riscos de inflação mais alta e persistente.

Além disso, os conflitos geopolíticos se tornaram mais frequentes e não vão retroceder enquanto não for estabelecida uma “Nova Ordem Mundial”. Com isso, choques de oferta, que poderiam ser temporários, se sucederão. E a resposta das políticas monetárias definirá quão persistentes serão as altas de inflação.

A política monetária, por definição, influencia as definições de consumo e investimento, que afetam a demanda. Quando a inflação é causada por choques de oferta, é natural que ocorra alguma “acomodação”, ou seja, a autoridade monetária não reage com a mesma intensidade, aceitando uma inflação mais alta, mas que deverá ser transitória.

Porém, aqui temos 2 pontos importantes:

A inflação será mais transitória quanto mais ancorada estiverem as expectativas, refletindo uma política monetária crível. Além disso, choques de oferta consecutivos podem manter a inflação mais alta por um longo tempo, gerando confusão de diagnóstico sobre os reais motivos da alta de inflação e desancorando as expectativas.

É nesse ambiente que entra a fábula de “Pedro e o Lobo”, que explica o título da newsletter de hoje. Na história, Pedro alerta repetidamente a população para a chegada do lobo, até que, depois de tantos falsos alarmes, ninguém mais acredita quando o perigo finalmente se materializa.

Warsh fez algumas sinalizações importantes desde que assumiu o Fed. Primeiro, reforçou o comprometimento em alcançar a meta de inflação de 2%, e que missão cumprida somente ocorre quando a inflação corrente estiver nesse patamar. Depois, ele indicou que não há indicadores alternativos que permitam uma inflação mais alta.

No entanto, ele também mencionou que há outras ferramentas, além da taxa de juros, para ancorar as expectativas de inflação. Warsh afirmou que explicitar o objetivo com a meta já seria suficiente para que as expectativas voltassem para perto da meta.

Mas ficar mencionando esse compromisso sem ação leva a uma perda de credibilidade. Assim como aconteceu com Pedro, que acabou desacreditado na fábula.

Desde a última decisão do Fed, e o discurso de Warsh, o mercado começou a se questionar sobre até onde vai a intenção do novo presidente da autoridade monetária americana em realmente entregar a inflação em 2%. A curva de juros inclinou, com os vértices mais curtos ficando abaixo dos vencimentos mais longos. O dólar depreciou.

As palavras funcionam uma vez, talvez duas, mas, sem ações concretas, vão perdendo força. Daqui em diante, ou o cenário econômico mostra indicadores mais benignos, que reforcem a postura atual de manter a taxa de juros estáveis, ou o compromisso do Fed será novamente testado na próxima reunião de política monetária.

Warsh terá possibilidade de confirmar que é Kevin, e não Pedro.