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O que “regular o ritmo” da IA pode significar para seus investimentos

O que “regular o ritmo” da IA pode significar para seus investimentos

Dario Amodei, CEO da Anthropic, pediu a regulação do ritmo de evolução dos modelos de IA. Mas qual a razão?

Dario Amodei, fundador e CEO da Anthropic, dona do Claude, o maior modelo de Inteligência Artificial em atividade, publicou na rede social X (ex-Twitter) a seguinte declaração: “Devemos regular o ritmo dos modelos da Fronteira”, em uma chamada para um artigo em seu blog.

Essa declaração, por si só, já tinha potencial para causar uma enorme repercussão na mídia em geral. Entretanto, ela ganhou um combustível adicional: foi compartilhada por outros dois gigantes do setor: Sam Altman (OpenAI) e Elon Musk (Grok). Ambos endossaram a afirmação de Amodei.

Como era de se esperar, não se falou mais de outro assunto até que, na reabertura dos mercados, o impacto da declaração pôde ser medido: empresas de fabricação de chips, consideradas uma das formas mais puras de se expor à tese de IA, registraram quedas grandes.

A Nvidia, maior delas, por exemplo, caiu pouco mais de 4% logo na abertura, ainda que tenha diminuído um pouco as perdas ao longo do dia (fechou o pregão com recuo de 3,3%). Ainda no setor, a Micron caiu 5,2%, seguida pela Broadcom (-4,7%), a SK Hynix (-7,6%) e outras.

A interpretação do mercado com a discussão é de que essa suposta regulação do ritmo de evolução dos modelos de IA representaria uma desaceleração na adoção da tecnologia, assim como no crescimento do setor. Daí a forte correção dessas empresas que têm suas precificações dependentes desse avanço.

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Amodei, assim como os outros empresários têm reforçado em diversas declarações, falou da regulação do ritmo principalmente por fatores de segurança. Chegaram a citar, inclusive, uma cooperação entre os principais laboratórios para uma espécie de revisão dos pares antes da liberação do uso dos modelos pelo público.

Essa alternativa foi até bem recebida por essas referências do setor, mas ainda depende da cooperação dos laboratórios de pesquisa orientais também, principalmente os chineses, que, assim como os ocidentais, estão muito próximos dessa fronteira tecnológica do setor.

A ideia é que, sem a cooperação de todos, tanto ocidentais quanto orientais, qualquer tipo de autorregulação se inviabilizaria, pois atrasaria o desenvolvimento de uma em relação à outra, colocando-as em desvantagem nesta corrida de grande importância global.

Nos últimos dias, especialistas também tentaram vincular a proposta de Dario a um tom alarmista demais, que teria como objetivo “colar” essa característica a essas empresas como um todo e, por consequência, valorizar suas próprias ações (estão prestes a vir a mercado em uma rodada de IPO trilionária, potencialmente maior que a da SpaceX, a maior da história).

A Anthropic de Amodei parece que será listada ainda este ano, com uma precificação estimada de 2 trilhões de dólares. Já a OpenAI, de Sam Altman, potencialmente no ano que vem, com uma precificação ainda desconhecida.

Acredito que essa tese seja, no geral, bem fraca. Essa afirmação enfraquece a tese na margem e tira valor dessas listagens, pois indica, assim como o mercado percebeu, que o setor não deve crescer de forma mais lenta.

Outra tese vigente é de que essa afirmação, na verdade, foi uma antecipação para uma eventual desaceleração da adoção da inteligência artificial que já está acontecendo, e que teoricamente poderia ter como justificativa essa camada de segurança.

Ainda que seja uma conjectura, vejo essa tese como possível, mesmo que improvável. Hoje, com os números de fontes alternativas, não há indicativos de que essas empresas estejam desacelerando tão drasticamente sua atividade, a ponto de necessitarem de uma justificativa “forjada”.

Sim, o crescimento a partir do ano que vem tende a ser menor, mas isso porque essas empresas já se tornaram gigantes, o que se reflete nos números atualmente.

A própria Anthropic registrou um dos crescimentos mais rápidos da história, multiplicando por 10 sua receita em múltiplos anos. A combinação das receitas mensais anualizadas dos dois laboratórios já ultrapassou os 100 bilhões de dólares. Ou seja, é natural que o crescimento daqui para a frente desacelere.

Uma última tese sobre a qual tenho me debruçado, e que talvez seja mais plausível para esse “alinhamento” entre os laboratórios, envolve o medo ou receio de uma regulamentação do setor, pois isso sim poderia representar um risco de desaceleração e até um impacto na precificação de suas ofertas de ações.

Setores regulados tendem a ser morosos, processuais, ter um perfil que não combina com uma nova tecnologia que ainda precisa se adaptar.

Entretanto, o uso de IA por diversas vezes já tem potencial vinculação a ataques cibernéticos de grande impacto e, mais recentemente, até ao uso por parte dos Houthis, grupo rebelde originário do norte do Iêmen, que reivindicou a invasão e o ataque a dutos de transporte de petróleo na Arábia Saudita, em um movimento que acabou impulsionando a última disparada no preço da commodity para acima dos 100 dólares por barril.

A autorregulação poderia representar uma forma de mostrar para os governos e para a sociedade que esses laboratórios estão, sim, preocupados com o mau uso da tecnologia e, quem sabe, ajudar a postergar esse risco de uma regulamentação mais pesada.

Isso faz mais sentido. E conversa com os interesses de todos os envolvidos no caso.

Mas, claro, tudo com base em uma visão pessoal minha do caso e da conjectura. Não estou afirmando que qualquer uma dessas opções é a correta, a ser seguida, pois esse é um assunto extremamente profundo e complexo. Minha intenção na newsletter de hoje é tentar jogar luz a essa história que parece ser, no mínimo, cinzenta.

Se confirmada, essa autorregulação pode ser o evento que venha a assegurar a continuidade do crescimento do setor, em vez de prejudicá-lo.