México e Índia protagonizaram o noticiário internacional no começo de junho. O ano de 2024 tem sido marcado como o “ano das eleições” entre os especialistas em política internacional. Ao longo deste ano, 58 países realizaram ou realizarão eleições para manter ou mudar seus governos.
No primeiro semestre, ocorreram eleições relevantes na Rússia, Irã, União Europeia, África do Sul e El Salvador, por exemplo. No segundo semestre, ainda estão previstas votações nos EUA, Reino Unido, Uruguai e Venezuela, além das eleições municipais no Brasil.
Segundo a Ciência Política, a economia é um dos fatores mais determinantes para uma mudança de governo. Muitos autores argumentam que o período eleitoral serve como um referendo sobre o desempenho do governo atual.
Para ilustrar esse argumento, as eleições no México e na Índia podem ser usadas como exemplos de como a economia afeta o desempenho eleitoral dos candidatos. O que aconteceu nesses dois países teve impacto no Brasil e ainda pode afetar nossa economia.
Com isso em mente, o portal EuQueroInvestir fez um levantamento das principais informações sobre as recentes eleições no México e na Índia.
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Eleições na Índia
No início de junho, o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, do Partido Bharatiya Janata (BJP, Partido do Povo Indiano), saiu vitorioso das eleições gerais. Apesar da expressiva vitória de Modi, o BJP perdeu a maioria parlamentar pela primeira vez em uma década.
Analistas políticos avaliam que a perda de força do primeiro-ministro pode ser negativa para os investimentos no país. No curto prazo, a repercussão negativa ocorreu devido ao choque político e ao impacto potencialmente negativo na política fiscal e na reforma econômica.
No médio prazo, os analistas preveem uma recuperação no preço dos ativos, com o mercado reconhecendo que os fundamentos econômicos da Índia permanecem sólidos. Além disso, um resultado construtivo depende do governo evitar políticas populistas improdutivas para compensar seu revés político, o que ainda é incerto.
O partido de Modi garantiu 240 assentos de um total de 543. A expectativa de Modi era alcançar algo próximo de 340.
Na esfera econômica, os analistas avaliam que Modi terá que sustentar um crescimento real médio de 6% a 7% ao longo dos próximos 5 anos. Isso elevaria a Índia à condição de terceira maior economia do mundo, ultrapassando o Japão e a Alemanha.
Em um relatório, a Gavekal Research, uma empresa de análises especializada em política internacional, aponta que esse forte crescimento “exigirá novos gastos em infraestrutura para tornar os transportes e a logística mais competitivos, uma expansão do setor industrial para gerar empregos e mais investimento direto estrangeiro para manter a vantagem competitiva da Índia no setor de serviços e ajudar a compensar o atual déficit em conta corrente”.
Como a eleição na Índia influencia a geopolítica no Brasil
Embora a Índia possa parecer um país irrelevante para o Brasil, os dois países compartilham algumas agendas comuns no xadrez político global, começando pelo equilíbrio de forças no Brics, que dobrou seu número de membros em janeiro.
Como membro original do grupo de potências emergentes (junto com Brasil, Rússia e China, e mais tarde a África do Sul), o papel da Índia nos Brics hoje é muito semelhante ao do Brasil em sua busca por protagonismo no chamado Sul Global. Durante a cúpula de líderes em Johannesburgo no ano passado, os dois eram contra a expansão do número de membros, temendo a diluição de seu poder e o aumento da influência chinesa.
Apesar de ter perdido a votação, o Brasil conseguiu articular a entrada da Argentina para ter um parceiro ao seu lado. No entanto, a eleição de Javier Milei derrubou os planos, e o vizinho retirou sua adesão um mês antes de ser oficializada. No final, entraram Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Egito e Irã – todos com laços com Pequim, alguns com a Rússia e a África do Sul, mas nenhum muito relevante para o Brasil ou a Índia.
A nova formação dos Brics, com países sob sanção dos Estados Unidos e a participação de ditaduras do Golfo Pérsico, levou muitos analistas a considerarem o grupo um contraponto do Sul Global ao G7 (grupo das maiores economias do mundo, formado por EUA, Alemanha, Canadá, França, Itália, Japão e Reino Unido).
Do ponto de vista geopolítico, tanto o Brasil quanto a Índia têm interesse em uma reforma da governança global que dê mais poder aos emergentes – ambos pleiteiam uma vaga no Conselho de Segurança da ONU, por exemplo.
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Eleições no México
Também no início de junho, Claudia Sheinbaum, do partido Morena (Movimentação Regeneração Nacional), foi eleita a primeira presidente mulher da história do México. Ela é aliada e foi apoiada pelo atual presidente, Andrés Manuel López Obrador.
A legenda lidera a coligação Sigamos Haciendo Historia, também formada pelo PT (Partido del Trabajo) e pelo PVEM (Partido Verde Ecologista do México).
O México não permite reeleição, mas oferece um mandato mais longo em relação a outros países presidencialistas, como o Brasil e os EUA. Lá, o mandato é de seis anos para o presidente.
Sheinbaum, de 61 anos, pertence a uma família de cientistas judeus. Ela construiu uma carreira acadêmica de destaque antes de ingressar na política.
Formou-se em física e obteve mestrado e doutorado em engenharia energética pela Unam (Universidade Nacional Autônoma do México). Seu trabalho acadêmico, voltado para questões ambientais, lhe rendeu reconhecimento e a oportunidade de participar de projetos de sustentabilidade e mudança climática.
Com uma linha mais à esquerda, Sheinbaum destacou que o país vai gastar com responsabilidade e controlar o déficit fiscal no próximo ano sem aumentar impostos.
“Estamos preparando um orçamento muito responsável”, afirmou Sheinbaum a empresários em um evento na Cidade do México na última quinta-feira (20).
“Nosso objetivo é que o déficit em 2025 seja de no máximo 3,5% do PIB. Este ano fechará acima de 5%”, complementou a futuro presidente.
A nova meta superaria a do governo de López Obrador, que já havia estabelecido um objetivo de déficit de cerca de 3% do PIB para o ano que vem, conforme medido pelos requisitos de empréstimos do setor público (PSBR), segundo um pré-critério orçamentário publicado em março.
Sheinbaum também defende uma reforma judicial que tem assustado os mercados desde que seu partido conseguiu uma vitória esmagadora nas eleições gerais.
Após o anúncio da vitória de Sheinbaum, o mercado reagiu negativamente. Na BMV, a bolsa de valores mexicana sofreu uma queda de 6,01%, a mais intensa desde 9 de março de 2020, no início da pandemia de covid.
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Como as eleições mexicanas podem influenciar na economia brasileira
Com a preocupação do mercado após as eleições presidenciais mexicanas, os analistas indicam que o Brasil pode se beneficiar disso.
O México é um dos principais parceiros comerciais dos EUA e um dos maiores beneficiários da tese do nearshoring (deslocamento da produção para um local mais próximo de onde a mercadoria é vendida, para reduzir custos e dificuldades logísticas). Sempre aparecia como uma alternativa para quem quisesse investir em emergentes, embora seus ativos fossem vistos como já bastante “esticados” (ou seja, com preço alto).
No entanto, a eleição de Sheinbaum, com uma vitória tranquila no Congresso, pode abrir caminho para aprovar leis que aumentam os poderes presidenciais e elevam os gastos.
Com isso, o Brasil pode ganhar força para se tornar o foco dos investimentos nos emergentes e na América Latina por falta de “concorrentes”.
O Morgan Stanley não está mais otimista com as ações mexicanas após a eleição. Além disso, o banco americano passou a ter uma visão relativa mais positiva para o Brasil na região.
“O México encontra-se numa situação sem precedentes e estamos em modo de ‘esperar para ver’ as principais medidas”, escreveram os analistas do Morgan Stanley, rebaixando as ações do país de overweight (exposição acima da média) para equalweight (exposição em linha com a média).
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