Home
Notícias
Investimento no Exterior
Sua carteira está concentrada no Brasil e você teme o topo nos EUA? Essa é a pergunta errada

Sua carteira está concentrada no Brasil e você teme o topo nos EUA? Essa é a pergunta errada

O home bias do brasileiro e a concentração do mercado americano são o mesmo risco em dois ângulos, e a saída não depende de acertar o topo

O investidor brasileiro que acompanha Wall Street neste primeiro semestre pode estar vivendo um impasse. Afinal de contas, o S&P 500 negocia perto de máximas históricas e o Dow Jones renovou recorde nesta semana, fechando em torno de 51,5 mil pontos, depois de uma sequência rara de anos fortes para a renda variável americana. O índice acumulou três anos seguidos de alta acima de 15%, algo que aconteceu poucas vezes em um século.

Quem ficou de fora sente que perdeu a janela. Investir nos EUA neste momento pode soar como comprar no topo.

A pergunta que domina essa conversa, “ainda dá tempo de entrar?”, é a que menos importa. É o que sugerem, por caminhos diferentes, dois especialistas ouvidos pela reportagem: Fernando Saad, analista de alocação e inteligência da Avenue, e Nickolas Lobo, especialista em investimentos da Nomad.

Os dois convergem num diagnóstico que desloca o foco do timing para algo mais incômodo. O risco real não está no calendário de entrada. Está na concentração, e ela aparece dos dois lados.

Publicidade
Publicidade

O risco que mora dentro do próprio rali

Para Saad, a alta americana é real, mas é estreita. Boa parte do movimento recente se sustentou num punhado de ações.

“Para se ter noção, 69% do rali de 16% visto nas 5/6 semanas que seguiram o fim de março esteve concentrado na performance de apenas 10 ativos. As outras 490 empresas do índice tiveram influência de apenas 31% dessa alta”, afirma Saad.

Concentração, porém, não é sinônimo automático de fragilidade, segundo o analista.

“Mas ser saudável e concentrado não necessariamente são características que se anulam em um rali”, pondera Saad.

A fragilidade desse desenho ficou visível nos últimos pregões. Nesta quinta-feira (4), enquanto o Dow Jones batia novo recorde, o Nasdaq andou na contramão, pressionado pela rotação de capital para fora da tecnologia depois de uma projeção fraca da Broadcom para o setor de inteligência artificial. Quando dez empresas explicam dois terços da alta, um espirro em qualquer uma delas reorganiza o índice inteiro.

O segundo ponto de interrogação de Saad é a conta da inteligência artificial. As Big Techs despejaram somas históricas em data centers e infraestrutura, e o retorno desse investimento ainda é uma promessa.

“A dúvida que fica é quando e de quanto será o retorno da montanha de Capex que as Big Techs tem desembolsado nos últimos anos”, diz o analista da Avenue.

Do lado da Nomad, Lobo enxerga esse mesmo Capex com mais otimismo. Para ele, a IA passou de aposta a linha de receita.

“A IA deixou de ser estritamente uma tese de investimento para se materializar em resultados financeiros tangíveis”, afirma Lobo.

Mesmo otimista com os fundamentos, Lobo reconhece que o cenário macro cobra cautela. Ele cita a inflação teimosa e o juro americano alto como fatores que limitam o fôlego do rali no curto prazo.

“A persistência inflacionária, evidenciada pela estabilização do núcleo da inflação na casa dos 3%, sugere que o Federal Reserve deverá manter as taxas de juros em patamares restritivos por mais tempo”, afirma o especialista da Nomad.

Os números oficiais dão respaldo a essa avaliação. O Federal Reserve manteve a taxa básica no intervalo de 3,50% a 3,75%, com a inflação de núcleo ainda acima da meta de 2%, e a próxima decisão de juros está marcada para 16 e 17 de junho.

O outro risco, dentro da sua carteira

Se a concentração assusta no índice americano, ela é ainda mais aguda na carteira do investidor brasileiro médio, só que na direção oposta. O patrimônio do brasileiro costuma estar quase inteiro amarrado ao risco do próprio país.

“O investidor brasileiro tradicional possui uma carteira excessivamente concentrada no risco doméstico (conhecido como home bias), o que limita sua diversificação e expõe o patrimônio às instabilidades locais”, afirma Lobo.

É a imagem espelhada do problema que Saad descreve em Wall Street. De um lado, dez ações carregam o índice americano. Do outro, um único país carrega a poupança do brasileiro.

Os dois especialistas tratam a concentração como uma vulnerabilidade do patrimônio, e não como uma decisão consciente da maioria.

Leia também:

Por que tentar acertar o topo é a pergunta errada

A convergência entre Nomad e Avenue não está em recomendar os Estados Unidos. Está em mudar a unidade de medida. Os dois pedem que o investidor pare de pensar em quando entrar e passe a pensar em como estruturar.

“Nossa visão sempre preza pela alocação estrutural, não mirando tanto em uma alocação tática curto-prazista”, afirma Saad.

Lobo usa quase as mesmas palavras.

“A alocação no mercado internacional deve ser tratada como uma posição estrutural do portfólio”, diz Lobo.

A diferença é prática. Quem aloca de forma tática precisa acertar o momento de comprar e o de vender, e erra com frequência. Quem aloca de forma estrutural define um percentual da carteira para o exterior e o mantém ao longo dos ciclos, comprando em momentos diferentes.

Saad resume a ideia com uma imagem.

“O investidor deve enxergar o investimento global como uma porta. Por meio dos Estados Unidos, ele consegue se expor às mais diversas classes de ativos, empresas e geografias”, afirma o analista da Avenue.

Ainda assim, Saad faz a ressalva de que essa exposição funciona como complemento da estratégia local, alinhada ao perfil e aos objetivos de cada investidor.

O “fantasma de incerteza” que ronda o segundo semestre

Estruturar a carteira não elimina o risco de curto prazo, apenas tira dele o poder de definir a decisão. E risco de curto prazo é o que não falta. Saad tem uma forma própria de descrever isso.

“Sempre temos um fantasma de incerteza nos atormentando”, afirma o analista da Avenue.

O medo da vez muda de nome a cada poucos meses. Há pouco mais de um ano, o tema era o tarifaço. No início de janeiro, a captura de Maduro. Agora, o conflito no Oriente Médio, os valuations esticados e o duplo mandato do Federal Reserve dividem a atenção do mercado.

Apesar dos fantasmas, Saad mantém a convicção de prazo longo. Ele lembra que nem o estouro da bolha das pontocom interrompeu de forma permanente a trajetória da bolsa americana.

“Mesmo após quedas mais intensas (incluindo o drawdown das pontocom nos anos 2000), seguimos vendo as ações americanas renovando seus recordes por diversas vezes”, afirma Saad.

Por onde o brasileiro começa a estruturar a exposição

Definida a lógica estrutural, fica a pergunta de execução. Para quem está começando, Lobo defende os fundos de índice como porta de entrada.

“Os ETFs constituem o instrumento mais eficiente e assertivo para iniciar a exposição internacional”, afirma o especialista da Nomad.

Segundo ele, esses fundos entregam diversificação imediata, custo baixo e liquidez, diluindo o risco de apostar em uma única empresa.

Resta a escolha entre um índice diversificado como o S&P 500 e um mais carregado em tecnologia como o Nasdaq. Para Saad, a distinção importa menos do que parece.

“Como as Big Techs listadas no Nasdaq tomaram valores de mercado desproporcionais a outra porção do mercado, elas acabam inundando a alocação do S&P 500 também, inclusive deixando ambos os índices muito correlacionados”, explica o analista da Avenue.

Há ainda a camada cambial. O dólar, lembra Lobo, costuma funcionar como proteção quando os mercados entram em estresse.

“O dólar historicamente atua como ativo de proteção (hedge) em momentos de estresse financeiro”, afirma Lobo.

No fim das contas, os analistas devolvem ao leitor uma troca de perguntas. Sai a dúvida sobre o topo, que ninguém acerta de forma consistente, e entra a pergunta sobre concentração, que cada investidor pode medir na própria carteira hoje.

O rali americano vai oscilar, o fantasma da vez vai trocar de nome, e nada disso muda o fato de que uma carteira amarrada a um só país, ou a um só punhado de ações, carrega um risco que independe da manchete do dia.