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EXCLUSIVA! O RI deve ser integrador e o silêncio dele pode custar caro para uma small cap, diz André Vasconcellos

EXCLUSIVA! O RI deve ser integrador e o silêncio dele pode custar caro para uma small cap, diz André Vasconcellos

A leitura do executivo sobre previsibilidade informacional, dupla listagem e IPO reverso — e como governança e disciplina de disclosure moldam a confiança do mercado

Durante anos, a área de Relações com Investidores (RI) foi tratada como uma extensão da comunicação corporativa, focada na divulgação de resultados e na interlocução com analistas. À medida que o mercado de capitais brasileiro amadureceu — com maior presença institucional, ciclos de IPOs e maior escrutínio regulatório — essa função deixou de ser acessória para se tornar estrutural e essencial.

Para André Vasconcellos, executivo com trajetória em companhias abertas, na Eletrobras (AXIA6) e no Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (IBRI), o RI moderno se consolidou como uma função institucional de integridade informacional, responsável por traduzir estratégia em tese de investimento com consistência, previsibilidade e governança.

“O RI não tem um papel tão somente de comunicar números, e sim de traduzir a estratégia do negócio em uma tese de investimento com consistência entre narrativa, indicadores e decisões”, afirma.

Para Vasconcellos, essa previsibilidade informacional atua como um ativo invisível e é fundamental para reduzir o prêmio de risco, além de melhorar a liquidez do papel e ampliar as opções de financiamento da companhia ao longo do tempo.

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O RI como infraestrutura de confiança no mercado de capitais

Na visão do executivo, a transformação do RI acompanha a própria evolução do mercado. Se antes bastava reportar resultados, hoje a função exige articulação institucional entre múltiplas áreas da companhia.

Isso inclui integração com gestão, conselhos, comitês, jurídico, controladoria, auditoria, comunicação e relacionamento com a imprensa, sob uma lógica única de disclosure e governança informacional.

“Comunicar o que importa, no tempo certo, com linguagem clara e sustentação técnica é parte central da previsibilidade informacional”, resume.

Essa abordagem ganha ainda mais relevância em um ambiente em que investidores — especialmente institucionais e estrangeiros — penalizam inconsistências narrativas, ambiguidades e lacunas de informação com maior prêmio de risco ou desconto no valuation.

Eletrobras: dupla listagem e a disciplina da informação

A dimensão estratégica do RI ficou evidente durante sua passagem pela Eletrobras, em um momento marcado pela privatização e pela convivência simultânea com investidores domésticos e globais, sob dupla listagem na B3 e na NYSE.

Segundo o executivo, o principal desafio foi operar em um regime de dupla materialidade: atender expectativas de públicos com ritos, sensibilidades e padrões analíticos distintos, sem abrir mão do princípio central do mercado de capitais — informação tempestiva, consistente e não seletiva.

Na prática, essa dinâmica exigiu três pilares: maturidade de governança, disciplina na linguagem e sincronização operacional.

“Aquilo que não é mensurável, para o investidor internacional, tende a ser precificado com desconto ou com maior prêmio de risco”, explica.

Enquanto o investidor global observa com rigor aspectos como consistência de guidance, qualidade do reporting e integridade do disclosure, o investidor doméstico tende a acompanhar mais de perto variáveis políticas, regulatórias e macroeconômicas. Nesse cenário, o RI atua como um integrador institucional de expectativas.

Quando a governança informacional funciona, o efeito é direto: menos ruído, melhor formação de preço e base acionária mais estável.

IPO reverso: rapidez operacional, rigor de governança

Em meio à escassez de IPOs tradicionais no Brasil, operações de IPO reverso ganharam espaço como alternativa de acesso ao mercado de capitais. A estrutura, que envolve a incorporação de uma companhia já listada, pode reduzir tempo e custos, mas exige cuidados adicionais de governança.

“Não pode ser tratado como um atalho de governança. O IPO reverso troca o risco do roadshow pelo risco de execução da governança”, afirma Vasconcellos.

Isso porque a operação costuma envolver mudanças profundas — de objeto social, controle, tese de investimento e até perfil da base acionária — exigindo comunicação clara para que o investidor compreenda a nova lógica do negócio.

No caso da Fictor Alimentos (FICT3), que passou por transformação societária a partir da Atom, o desafio foi estruturar um programa de RI centrado em governança, transparência e redução de assimetria informacional, especialmente por se tratar de uma small cap com menor cobertura do sell-side.

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Da base de traders ao investidor de longo prazo

A mudança estratégica também implicou uma transição relevante de base acionária. Enquanto a companhia anterior atraía investidores com perfil mais voltado ao curto prazo, a nova tese — inserida no agronegócio e no setor de proteína animal — demandava um racional mais alinhado a fundamentos, geração de caixa e horizonte de longo prazo.

Nesse contexto, o RI deixou de ser uma função reativa para se consolidar como infraestrutura institucional de relacionamento com investidores e previsibilidade informacional.

“Essa experiência só é bem-sucedida quando vem acompanhada de um verdadeiro ‘IPO de governança’, com disciplina regulatória, melhoria de métricas e cultura efetiva de companhia aberta”, afirma.

Segundo ele, essa disciplina contribui para tornar a tese mensurável ao mercado, refletindo em maior liquidez, consistência no volume negociado e melhor percepção institucional do ativo.

Teses complexas exigem comunicação auditável

A complexidade se eleva quando a estratégia envolve crescimento inorgânico e aquisição de ativos estressados, comuns em determinados segmentos do agronegócio e proteína animal.

Nesses casos, o papel do RI é comunicar simultaneamente prudência na alocação de capital e ambição estratégica, estruturando a narrativa como uma “tese auditável”, com premissas, indicadores e atualização contínua ao mercado.

“O mercado aceita risco, desde que seja explicitado, mensurado e monitorável”, destaca.

Isso inclui detalhamento de contingências, necessidade de capital de giro, capex, riscos operacionais e sensibilidade ao ciclo de commodities, fatores que ajudam o investidor a compreender a lógica de geração de valor ao longo do tempo.

Para o executivo, o maior erro em teses complexas não é o risco em si, mas a ausência de comunicação estruturada.

“O silêncio informacional é muito caro. Em ativos distressed, o silêncio costuma ter custo de capital maior do que a própria notícia difícil”, afirma.

Brasil além do Ibovespa: confiança como base do mercado

Na avaliação de Vasconcellos, o amadurecimento do mercado de capitais brasileiro passa também por uma leitura mais ampla do que o desempenho do Ibovespa.

Indicadores como liquidez média dos ativos, profundidade do mercado secundário, volume negociado e expansão da base de investidores são determinantes para a decisão de companhias que avaliam abrir capital ou até migrar listagem para mercados internacionais.

Nesse contexto, a previsibilidade regulatória e a proteção ao investidor minoritário surgem como pilares centrais para o fortalecimento institucional do mercado, papel diretamente associado à atuação da CVM e à modernização dos mecanismos de supervisão.

No fim, a tese que sintetiza sua leitura sobre governança, RI e mercado de capitais é direta: credibilidade informacional deixou de ser apenas uma boa prática e passou a ser uma vantagem competitiva.

“Credibilidade deve vir antes — e muito antes — da visibilidade”, conclui.

Em um ambiente mais exigente, globalizado e sensível à qualidade do disclosure, a função de Relações com Investidores se consolida menos como um canal de comunicação e mais como uma infraestrutura de confiança — elemento que sustenta liquidez, valuation e acesso a capital no longo prazo.