O crescimento de 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil em 2025 ficou dentro do esperado, mas a composição do dado reforçou a percepção de que a economia brasileira perdeu tração ao longo do segundo semestre.
Para os economistas ouvidos pelo EuQueroInvestir, o resultado do 4T25 consolidou a desaceleração da demanda doméstica e fortaleceu o cenário de início do ciclo de cortes da Selic nas próximas reuniões do Banco Central (BC).
Na margem, o PIB avançou apenas 0,1% no quarto trimestre frente ao terceiro, com retração da indústria (-0,7%), estagnação do consumo das famílias (0,0%) e queda da Formação Bruta de Capital Fixo (-3,5%). A leitura predominante é que os setores mais sensíveis ao ciclo de juros já começam a refletir os efeitos da política monetária restritiva.
Consenso: economia doméstica perdeu fôlego
Para Pablo Spyer, economista e conselheiro da ANCORD, o resultado confirma o cenário de desaceleração. Após um primeiro trimestre forte, impulsionado pelo agro, a economia registrou três trimestres com crescimento próximo de zero, abaixo do potencial.
Yihao Lin, economista da Genial Investimentos, avalia que o dado veio em linha com as projeções, mas chamou atenção pela composição mais fraca. A surpresa negativa ficou concentrada na indústria e na estagnação do consumo das famílias, que não reagiu mesmo com o mercado de trabalho aquecido.
Na mesma linha, Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, destacou que o PIB do quarto trimestre veio dentro do esperado, porém com abertura qualitativa um pouco pior, especialmente pela fraqueza da demanda doméstica privada.
Crescimento sustentado por agro e setor externo
Se o headline de 2,3% indica expansão, a qualidade desse crescimento foi tema central das análises.
Antonio Ricciardi, economista do Daycoval, observa que o resultado do ano ainda foi fortemente influenciado por componentes menos sensíveis ao ciclo econômico, como agropecuária e indústria extrativa — ambos com variações expressivas no comparativo anual — enquanto os segmentos mais cíclicos continuam desacelerando.
“O PIB segue sendo sustentado por itens não cíclicos, enquanto consumo das famílias, indústria de transformação e construção mostram arrefecimento mais intenso”, avalia.
Matheus Pizzani, economista do PicPay, também destacou o papel do setor externo no trimestre. O avanço das exportações e a queda das importações contribuíram positivamente para o resultado agregado. Ele pondera, porém, que a retração das importações, embora favoreça o PIB do ponto de vista contábil, também sinaliza menor dinamismo da demanda interna.
Para parte do mercado, o desempenho mais robusto do agro e das exportações funcionou como amortecedor da desaceleração doméstica, especialmente em um ambiente de juros elevados e maior endividamento de famílias e empresas.
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Espaço para corte da Selic ganha força
Na visão dos economistas, o dado contribui para o fechamento do hiato do produto e ajuda na ancoragem das expectativas inflacionárias — fatores centrais para a calibração da política monetária.
Para Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, o resultado abaixo das expectativas do mercado é importante nesse processo, pois reduz pressões de demanda e amplia o espaço para flexibilização dos juros.
Victal também avalia que, para o BC, o PIB veio dentro das projeções, ainda que qualitativamente mais fraco, com a demanda externa compensando a doméstica. O cenário corrobora a expectativa de corte de 50 pontos-base na próxima reunião do Copom.
A fraqueza da Formação Bruta de Capital Fixo e a estagnação do consumo das famílias são vistas como sinais claros de que o canal de transmissão da política monetária já está operando na economia real.
2026 deve registrar novo arrefecimento
As projeções para o próximo ano indicam crescimento mais moderado.
A BGC Liquidez projeta expansão de 1,5% em 2026. Outras casas trabalham com estimativas entre 1,7% e 2,1%, em geral com viés baixista. O consenso é que a economia deve continuar sentindo os efeitos das condições financeiras restritivas nos primeiros meses do ano.
Parte dos economistas, no entanto, destaca que o ritmo pode depender da velocidade e intensidade do ciclo de cortes da Selic, além do comportamento do setor externo e do investimento privado.
De forma geral, a leitura do mercado é que 2025 marcou um processo de normalização do crescimento. O PIB avançou, mas encerrou o ano com sinais claros de perda de dinamismo da economia doméstica, sustentado principalmente pelo agro e pelo comércio exterior.
Para investidores, o foco agora se desloca para a trajetória da política monetária e para a recuperação do investimento — variáveis que devem definir o ritmo da atividade em 2026.






