Durante muito tempo, investir fora do Brasil era uma tarefa burocrática destinada apenas para uma parcela reduzida da população. Um movimento quase exótico, distante da realidade da maioria dos investidores, até mesmo aqueles com um poder de compra elevadíssimo.
Para Roberto Lee, CEO da Avenue, essa percepção começou a cair quando ficou claro que o desafio brasileiro não era apenas buscar retorno, mas preservar o seu patrimônio em um mundo cada vez mais instável, tanto dentro do Brasil quanto no exterior.
“Todo investidor tem uma missão principal, que é preservar o patrimônio. Todo o resto vem depois. Primeiro, você preserva o poder de compra e, depois, começa a buscar rentabilidades adicionais”, resume.
A descoberta de que proteger patrimônio não cabia só em reais
Como Lee destacou, a virada do investidor brasileiro aconteceu quando ele percebeu que essa proteção não cabia apenas em reais. Afinal de contas, o custo de vida no Brasil, cada vez mais atrelado ao dólar, revela uma fragilidade estrutural da economia brasileira. Mesmo quem consome somente no mercado doméstico, sem nunca ter cruzado uma fronteira na vida, carrega uma parcela relevante do seu orçamento em gastos vinculados a moeda americana.
“Para essa primeira parcela da poupança, o objetivo é justamente preservar valor. Isso faz parte de uma jornada de descoberta do investidor brasileiro, que vem percebendo que não consegue fazer isso apenas em reais. É preciso diversificar em moeda forte — uma descoberta para o brasileiro nos últimos anos”, afirma o CEO da Avenue, ao descrever o que chama de uma jornada de descoberta do investidor brasileiro rumo ao exterior.
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Eleições, incerteza e a busca por proteção fora do Brasil
Essa estratégia de investir no exterior ganha protagonismo justamente em momentos de maior incerteza. Nos últimos ciclos eleitorais, em que a cada quatro anos a polarização se acirra cada vez mais, a busca por investimentos internacionais se intensificou como resposta à perda de previsibilidade.
Apesar disso, Lee argumenta que não se trata apenas de receio político, mas de uma reação racional a cenários em que o risco aumento.
“Às vezes, essa manifestação vem em forma de receio. Mas, na prática estrutural, o que a gente vê é a descoberta do investidor brasileiro de que o real, sozinho, não sustenta uma carteira moderna de investimentos quando o objetivo é proteção”, afirma Lee.
Segundo o CEO da Avenue, esse receio está diretamente ligado à falta de visibilidade sobre o futuro. Sempre que o investidor perde clareza sobre o cenário adiante, o risco percebido aumenta — e a reação natural passa a ser a busca por proteção fora do mercado doméstico.
“Toda vez que há perda de visibilidade do futuro próximo, o risco aumenta. Naturalmente, as pessoas buscam proteção — e hoje encontram essa proteção no mercado internacional. Antigamente, onde se buscava essa proteção? No CDI. Hoje, essa busca também passa pela diversificação em moeda forte”, diz.
Esse movimento, segundo Lee, ficou evidente nos últimos ciclos eleitorais atravessados pela Avenue desde a sua fundação. Tanto na eleição de Jair Bolsonaro quanto na de Luiz Inácio Lula da Silva, a empresa observou um aumento expressivo na procura por investimentos internacionais, impulsionado justamente pela incerteza em relação ao futuro político e econômico do país.
“A eleição de 2026 tende a ser parecida com as anteriores: uma disputa apertada, decidida ali na linha de chegada. Isso reduz a visibilidade e faz com que, naturalmente, as pessoas busquem mais proteção diante das incertezas”, afirma.
A diferença, no entanto, está no contexto atual. Para Lee, o investidor chega a 2026 inserido em um ecossistema muito mais informado e conectado ao exterior, com mais acesso a informação, produtos e operações que facilitam a diversificação internacional.
“Embora seja uma eleição parecida com as outras em termos de baixa visibilidade do resultado, ela acontece em um contexto diferente. A expectativa é que 2026 seja um ano de volumes ainda maiores de investimentos brasileiros no exterior — e é para isso que a gente tem se preparado”, conclui.
Do investidor pessoa física ao ecossistema financeiro
Com mais informação, acesso e infraestrutura, investir fora deixou de ser exceção. O que antes era uma decisão restrita a grandes fortunas passou a fazer parte da estratégia de investidores que amadureceram junto com o mercado. Para Lee, essa evolução criou um novo ponto de inflexão: o desafio deixou de ser apenas atender a pessoa física.
“Grande parte da nossa missão é expandir o sistema financeiro brasileiro para o exterior. Isso começa no cliente final, que expande a sua vida para fora por meio dos investimentos, mas também passa pelo ecossistema”, afirma.
Segundo ele, gestores brasileiros ainda são majoritariamente focados na gestão doméstica e encontram barreiras quando tentam operar fora do país.
“Quando começam a experimentar a gestão internacional, surgem dificuldades de infraestrutura, de execução, de custódia. É nesse movimento ‘sul-norte’, do gestor brasileiro descobrindo o mercado internacional, que o ecossistema precisa evoluir”, destaca.
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Diversificação global como nova regra para as carteiras
No fim, a tese que guia essa trajetória é a mesma que abriu o caminho anos atrás. Em um mundo mais complexo, volátil e com menos previsibilidade, diversificar deixou de ser sinônimo de espalhar ativos dentro de uma única fronteira.
“Uma carteira moderna de investimentos não cabe mais só no Brasil”, afirma Lee.
Para ele, proteger o patrimônio e buscar retorno em um cenário global exige olhar para fora, especialmente diante de ciclos eleitorais recorrentes e de um ambiente econômico cada vez mais instável.
“A única forma de se proteger contra a complexidade, contra a falta de previsão e contra mercados muito voláteis é a diversificação — e a diversificação internacional.”
Nesse processo, os Estados Unidos surgem como ponto de partida natural: o maior mercado do mundo, não como destino final, mas como porta de entrada para uma alocação verdadeiramente global, que tende a se tornar regra nas carteiras daqui para frente.





