O Banco do Brasil manteve a recomendação de compra para as ações de Allos (ALOS3) e Multiplan (MULT3) e elevou os preços-alvo das duas companhias para o fim de 2027. Para a Allos, o alvo passou de R$ 32 para R$ 38, enquanto o da Multiplan subiu de R$ 35 para R$ 41.
Em relatório, Felipe Mesquita avalia que o setor brasileiro de shopping centers atravessa um momento de transição, marcado pela recuperação das vendas e pelo desempenho operacional superior ao mercado apresentado pelas principais empresas listadas.
Segundo levantamento anual da Abrasce, as vendas do setor cresceram apenas 1,3% entre 2024 e 2025. No mesmo período, Allos e Multiplan registraram crescimento de vendas mesmas lojas (SSR) de 6,2% e 7,5%, respectivamente.
“Apesar de o mercado de shoppings como um todo apresentar um crescimento mais moderado, as principais companhias listadas vêm demonstrando capacidade de crescer acima da média do setor, com portfólios maduros, elevada ocupação e geração de caixa resiliente”, destaca Mesquita.
As duas empresas também mantiveram crescimento operacional acima da inflação no primeiro semestre de 2026, algo que, segundo o estudo, não ocorre no mercado consolidado nacional desde 2022.
Inflação protege receitas, mas IGP-DI traz mais volatilidade
Um dos fatores que sustentam a resiliência das administradoras é a estrutura dos contratos de aluguel dos shoppings. Em geral, os contratos têm duração de cinco anos e são reajustados anualmente por índices de inflação, principalmente o IGP-DI, embora também exista uma parcela vinculada ao IPCA.
O BB chama atenção, porém, para a maior volatilidade do IGP-DI no curto prazo. Nos últimos dez anos, o índice registrou 28 janelas de 12 meses com variação negativa, enquanto o IPCA não apresentou nenhuma janela anual abaixo de zero.
Apesar disso, no acumulado entre agosto de 2016 e agosto de 2026, o IGP-DI superou o IPCA em 14,3%, equivalente a uma diferença de aproximadamente 1,3 ponto percentual ao ano.
“Existe uma proteção relevante das receitas das administradoras contra a inflação. O IGP-DI pode apresentar oscilações importantes no curto prazo, mas, olhando para um horizonte mais longo, sua evolução acumulada tem sido favorável para os reajustes dos contratos”, pondera o analista.
Allos amplia participação de mídia e incorporação
Na Allos, o tamanho e a diversificação do portfólio são apontados como alguns dos principais diferenciais. Ao final do segundo trimestre de 2026, a companhia tinha participação em 46 shoppings, com 1,9 milhão de metros quadrados de área bruta locável (ABL), sendo 1,26 milhão de metros quadrados de ABL própria.
A empresa também presta serviços de administração para seis shoppings de terceiros.
Nos últimos 12 meses, o portfólio gerou R$ 2,1 bilhões em receitas de aluguel, crescimento de 2,6% na comparação anual em bases pro forma. Outras linhas, porém, avançam em ritmo mais acelerado.
A receita de estacionamentos cresceu 4,5%, para R$ 530 milhões, enquanto a linha de serviços avançou 21%, para R$ 404 milhões.
Parte importante desse crescimento vem da Helloo, subsidiária da companhia voltada ao mercado de mídia out-of-home. A empresa também participa de um consórcio que venceu, em 2025, uma concorrência para exploração de mídia em 17 aeroportos brasileiros.
“A Allos vem deixando de ser apenas uma companhia de aluguel de espaços em shopping centers. Mídia, estacionamentos e desenvolvimento imobiliário estão ganhando relevância e ajudam a diversificar as fontes de receita”, resume Felipe Mesquita.
A companhia ainda possui um banco de terrenos que pode ser utilizado em expansões dos shoppings e em projetos imobiliários de uso misto. Nos últimos 12 meses, os projetos em desenvolvimento geraram R$ 42,4 milhões em receitas, o triplo do registrado no mesmo período anterior.
O pipeline imobiliário inclui 72 torres, sendo nove já entregues e 63 previstas para os próximos anos.
Alavancagem e dividendos no radar
Outro ponto de destaque é o processo de desalavancagem da Allos. A relação entre dívida líquida e Ebitda caiu de 2,5 vezes no primeiro trimestre de 2023 para 1,7 vez no segundo trimestre de 2026.
A companhia, entretanto, indicou que pretende levar esse indicador para próximo de duas vezes, equilibrando a estrutura de capital com a distribuição de recursos aos acionistas.
Para 2026, a empresa estabeleceu uma expectativa de distribuição mensal de dividendos entre R$ 0,28 e R$ 0,30 por ação. Considerando a cotação de R$ 29,73 utilizada no relatório, isso representa um dividend yield anual próximo de 12%.
Na avaliação do BB, o nível de endividamento ainda é confortável, mas a combinação entre juros elevados e uma dívida maior continua pressionando o resultado financeiro. Nos últimos 12 meses, a despesa financeira líquida da companhia foi de R$ 571 milhões, enquanto o lucro líquido alcançou R$ 930 milhões.
“O nível de endividamento da Allos continua confortável, mas a combinação entre juros elevados e uma dívida maior ainda pesa sobre o resultado financeiro. Por outro lado, a geração de caixa operacional é suficientemente forte para sustentar investimentos e uma política relevante de distribuição aos acionistas”, ressalta Mesquita.
O BB manteve a recomendação de compra para ALOS3 e elevou o preço-alvo para R$ 38, com horizonte para o fim de 2027.
Multiplan se beneficia de expansões e revitalizações
Na Multiplan, as expansões realizadas em ativos relevantes, como MorumbiShopping, em São Paulo, e BH Shopping, em Minas Gerais, aparecem como importantes vetores de crescimento.
A companhia possui 20 shoppings e dois complexos de torres corporativas, com participações próprias que variam de 30% a 100%.
Nos últimos 12 meses, as receitas de aluguel somaram R$ 1,7 bilhão, alta de 5,2% em relação ao ano anterior. A receita de estacionamentos cresceu 9,7%, para R$ 370 milhões.
Outra fonte importante de crescimento foi a venda de imóveis, que gerou R$ 713 milhões nos últimos 12 meses, avanço de 17%.
O resultado foi impulsionado por vendas de terrenos e pelo projeto residencial Golden Lake, em Porto Alegre, próximo ao BarraShoppingSul. O empreendimento tem potencial para atingir R$ 5,2 bilhões em valor geral de vendas (VGV).
“A estratégia da Multiplan de continuar investindo em expansão e revitalização dos seus ativos tem se mostrado eficiente para gerar crescimento de vendas. Ao mesmo tempo, o banco de terrenos abre espaço para novas fontes de receita e para projetos que podem aumentar o fluxo de consumidores nos shoppings”, observa o analista.
Multiplan reduz dívida após recompra de ações
A Multiplan também vem reduzindo sua alavancagem após utilizar aproximadamente R$ 2 bilhões de caixa, no fim de 2024, para recomprar um lote de ações que pertencia a um investidor institucional.
O movimento levou a relação dívida líquida/Ebitda para 2,3 vezes. Com a geração de caixa e a venda de participações minoritárias em empreendimentos como JundiaíShopping, ParkShoppingSãoCaetano e BH Shopping, o indicador recuou para 1,9 vez no segundo trimestre de 2026.
A geração de caixa operacional consolidada chegou a R$ 1,65 bilhão nos últimos 12 meses, alta de 9,7%.
Mesmo com a desalavancagem, a despesa financeira ainda representa um peso relevante. Nos últimos 12 meses, o resultado financeiro foi negativo em R$ 586 milhões.
Ainda assim, o lucro líquido da Multiplan chegou a R$ 1,39 bilhão no período, crescimento de 7,4%.
Para o BB, a combinação entre um portfólio de alta qualidade, ocupação elevada, expansão dos ativos e geração de caixa robusta sustenta uma perspectiva positiva para a companhia. A redução gradual da alavancagem também é considerada favorável, embora o custo da dívida continue limitando parte do potencial de crescimento do lucro.
Juros continuam como principal risco
Apesar da visão positiva, o cenário de juros permanece como o principal ponto de atenção para as duas empresas. Taxas elevadas aumentam as despesas financeiras e reduzem a atratividade de novos projetos e operações de reciclagem de portfólio.
“Seguimos construtivos com o setor. O principal risco no curto prazo é a permanência dos juros em níveis elevados por mais tempo, mas os fundamentos operacionais das companhias permanecem sólidos e suas fontes de geração de caixa estão cada vez mais diversificadas”, diz Mesquita.
Além dos juros, o BB aponta como riscos uma eventual desaceleração da economia brasileira, aumento do desemprego, queda nas vendas dos shoppings, inadimplência dos lojistas e dificuldades para manter os níveis de ocupação.
Com a revisão das estimativas, o banco manteve a recomendação de compra para as duas ações, com preço-alvo de R$ 38 para ALOS3 e R$ 41 para MULT3, ambos para o fim de 2027.
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