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LVMH x Hermès: o pacto secreto com um herdeiro que voltou a assombrar o luxo

LVMH x Hermès: o pacto secreto com um herdeiro que voltou a assombrar o luxo

Documentos revelados pela Reuters lançam nova luz sobre a histórica ofensiva da LVMH sobre a Hermès e sobre o mistério em torno da participação bilionária de Nicolas Puech

Uma das disputas corporativas mais famosas do mercado de luxo ganhou um novo capítulo digno de roteiro. Documentos judiciais analisados pela Reuters revelam que a LVMH (LVMH) assinou, em 2002, um acordo para comprar ações da Hermès (EPA: RMS ) pertencentes a Nicolas Puech, herdeiro da família fundadora da maison francesa e então dono de uma das maiores participações individuais no negócio.

Mais de duas décadas depois, as ações estão no centro de uma batalha judicial. Puech afirma que sua participação, de aproximadamente 6% da Hermès e atualmente avaliada em cerca de US$ 10 bilhões, desapareceu de seu patrimônio em operações relacionadas ao seu antigo gestor de fortunas, Eric Freymond.

A LVMH, por sua vez, nega envolvimento no desaparecimento dos ativos e afirma que o acordo firmado em 2002 nunca chegou a ser executado, segundo informações da Reuters.

Um acordo que permaneceu longe dos holofotes

Segundo os documentos obtidos pela Reuters, representantes da LVMH elaboraram o acordo com Freymond, que durante anos administrou o patrimônio de Puech. O pacto previa a compra de milhões de ações da Hermès pertencentes ao herdeiro e a outros integrantes da família.

Os registros também mostram que, entre 2001 e 2009, a LVMH e a holding familiar de Bernard Arnault pagaram pelo menos US$ 20 milhões em taxas e comissões à empresa de gestão de Freymond, enquanto o grupo construía discretamente sua participação na Hermès.

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Em um processo judicial suíço, a LVMH afirmou posteriormente que o acordo de 2002 não havia sido colocado em prática e que não conseguiu confirmar se Puech havia autorizado seu gestor a vender as ações.

A empresa sustenta ainda que nunca teve a intenção de adquirir a participação do herdeiro contra sua vontade. Em documento apresentado à Justiça francesa, declarou: “O grupo jamais cogitou adquirir a participação de Nicolas Puech, muito menos contra a sua vontade”.

A histórica batalha entre dois gigantes franceses

O episódio acrescenta uma nova camada à rivalidade que movimentou o mundo do luxo durante anos.

A LVMH, comandada por Bernard Arnault e dona de marcas como Louis Vuitton, Dior, Fendi e Bulgari, começou a montar silenciosamente uma posição na Hermès no início dos anos 2000. Em outubro de 2010, o grupo surpreendeu o mercado ao revelar que já controlava cerca de 17% da concorrente.

A movimentação provocou forte reação da família Hermès, que tratou o avanço como uma tentativa hostil de aproximação. A participação da LVMH chegou posteriormente a cerca de 23%, antes de um acordo firmado em 2014 encerrar a disputa e levar o conglomerado a distribuir grande parte das ações a seus próprios acionistas.

A Hermès seguiu independente e controlada principalmente por descendentes da família fundadora, enquanto se consolidava como uma das empresas mais valiosas da França, impulsionada especialmente pelo desejo em torno de bolsas como Birkin e Kelly.

O mistério dos US$ 10 bilhões

É justamente neste ponto que a história corporativa se transforma também em um quebra-cabeça financeiro.

Puech afirma ter descoberto apenas em 2022 que já não detinha as ações da Hermès que acreditava possuir. No ano passado, o herdeiro entrou com uma ação pedindo € 14 bilhões em indenização de quem vier a ser responsabilizado pelo suposto desaparecimento de sua fortuna.

O processo cita a LVMH, Bernard Arnault e empresas relacionadas a Freymond entre os réus. Paralelamente, promotores franceses investigam o destino das ações e a atuação de pessoas envolvidas nas operações realizadas durante o período em que a LVMH acumulava sua participação na Hermès.

A Reuters afirma que não conseguiu determinar se as ações de Puech terminaram, de fato, dentro da participação construída pela LVMH. Essa é justamente uma das questões centrais que permanecem sem resposta.

Um novo capítulo na guerra mais famosa do luxo

O que torna o caso especialmente relevante para a indústria é a combinação incomum de dinastias familiares, bilhões de dólares, controle acionário e algumas das marcas mais cobiçadas do planeta.

De um lado está a LVMH, império construído por Bernard Arnault em grande parte por meio de aquisições. Do outro, a Hermès, uma maison fundada em 1837 que fez da independência familiar parte de sua identidade empresarial e de seu posicionamento no ultraluxo.

Agora, documentos produzidos mais de 20 anos atrás recolocam as duas histórias na mesma mesa.

Para Puech, permanece a pergunta sobre o destino de uma participação que hoje valeria aproximadamente US$ 10 bilhões. Para a LVMH, o desafio é responder judicialmente a alegações envolvendo um acordo que a companhia afirma nunca ter sido executado.

E para o mercado de luxo, o caso reabre uma história que parecia encerrada desde 2014. A diferença é que, agora, a disputa não acontece apenas nos bastidores das grandes maisons francesas. Ela está nos tribunais.

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