A reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de amanhã (27) ocorre em um ambiente de consenso no mercado financeiro: a taxa Selic deve ser mantida em 15% ao ano. Analistas e investidores avaliam que a decisão já está precificada e que um desfecho diferente seria improvável neste momento.
Diante disso, o foco da Super Quarta se desloca mais para o conteúdo do comunicado e para eventuais ajustes na avaliação do balanço de riscos da autoridade monetária.
A expectativa predominante é de que o Banco Central reforce a estratégia de dependência dos dados econômicos, reconhecendo avanços pontuais no processo desinflacionário, mas evitando sinalizações explícitas sobre o início de um ciclo de flexibilização monetária. A cautela reflete tanto o estágio ainda incompleto da convergência da inflação quanto o ambiente externo mais restritivo.
Consenso aponta Selic em 15%, mas decisão já está precificada
A avaliação de que a Selic permanecerá em 15% é compartilhada por instituições financeiras e associações do setor. Em nota, a Associação Brasileira de Bancos (ABBC) afirma que o comportamento estável das variáveis que compõem o cenário de referência indica não haver espaço, neste momento, para mudanças relevantes na taxa básica de juros.
Segundo a entidade, apesar de algum avanço no ambiente inflacionário, a estratégia do Copom segue sendo a manutenção dos juros em nível restritivo, como forma de assegurar a convergência da inflação para a meta.
“Embora entendamos que as condições para o início do processo de flexibilização monetária estejam presentes, acreditamos que o Copom deverá agir com elevada prudência, mantendo a taxa básica de juros no atual patamar”, afirma Everton Gonçalves, diretor de Economia, Regulação e Produtos da ABBC.
Esse diagnóstico é reforçado pelas projeções do Boletim Focus, que indicam inflação em torno de 4% ao final de 2026, ainda acima do centro da meta. Núcleos de inflação e preços de serviços seguem mostrando desaceleração apenas gradual, o que limita uma mudança mais assertiva no discurso do Banco Central neste momento.
Erich Zillner, banker da Guardian Capital, avalia que, com a decisão desta semana amplamente precificada, a atenção do mercado se desloca para o comunicado do Copom e para o balanço de riscos apresentado pela autoridade monetária.
“Embora haja melhora marginal nas expectativas de inflação, a convergência para a meta ainda ocorre de forma gradual”, afirma.
Segundo o banker, a desaceleração da atividade não elimina completamente os riscos inflacionários, especialmente no setor de serviços, enquanto o ambiente externo segue restritivo, reduzindo o espaço para sinalizações antecipadas sobre o início do ciclo de cortes.
Mercado se divide sobre quando começar o ciclo de cortes
Apesar do consenso sobre a decisão desta semana, o mercado segue dividido quanto ao momento de início e ao ritmo do ciclo de cortes de juros. Parte das casas de análise avalia que já existe espaço para um ajuste inicial, ainda que marginal, enquanto outra parcela defende que o Banco Central deve aguardar sinais mais consistentes da inflação.
Bancos apostam em corte já nesta reunião
Entre as visões mais agressivas, o BTG Pactual passou a considerar janeiro como uma opção adequada para o início do ciclo de afrouxamento monetário, com um corte de 0,25 ponto percentual, levando a Selic a 14,75%. Para o banco, a política monetária segue em território claramente contracionista, mesmo com a resiliência observada em alguns componentes da inflação.
Já o Bank of America avalia que o Copom poderia iniciar o ciclo de cortes em ritmo mais acelerado, com uma redução de 0,50 ponto percentual. Em comum, essas leituras destacam que a comunicação do Banco Central deve reforçar a dependência dos dados nas próximas reuniões, ainda que o corte não ocorra de forma imediata.
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Prudência ganha força diante do cenário fiscal e de crédito
Na direção oposta, analistas que defendem uma postura mais conservadora apontam que o contexto doméstico ainda recomenda cautela. Para Felipe Sant’Anna, analista da Axia Investing, a combinação de ano eleitoral, incertezas fiscais e expansão do crédito limita o espaço para cortes de juros no curto prazo.
Segundo ele, a maior oferta de crédito tende a estimular o consumo, especialmente entre as classes de renda mais baixa, o que pode pressionar a inflação. Além disso, o aumento do endividamento e da inadimplência das famílias permanece no radar do Banco Central, reforçando a necessidade de uma política monetária responsável.
“Não vejo corte de juros neste momento. Mesmo que o ciclo comece, acredito que será com muita parcimônia”, avalia.
Comunicação do Copom é vista como chave para março
Com a decisão praticamente definida, a atenção do mercado se concentra na sinalização do Copom sobre os próximos passos. Para Stephan Kautz, economista-chefe da EQI Investimentos, a comunicação desta reunião será determinante para calibrar as expectativas em relação a março.
De acordo com Kautz, os dados recentes de atividade econômica foram positivos, enquanto a inflação segue em trajetória de melhora, ainda que gradual. Esse equilíbrio exige uma ponderação cuidadosa por parte do Banco Central.
“Se não vier nenhuma mudança na comunicação, o mercado pode interpretar como um risco para o início do ciclo de cortes em março”, afirma.
No cenário externo, o economista destaca que o Federal Reserve não deve trazer novidades relevantes nesta semana, diante de ruídos nos dados e da ausência de sinalização clara sobre cortes nos Estados Unidos. Esse ambiente reforça a postura cautelosa dos bancos centrais e aumenta a importância da comunicação no Brasil.
Cautela externa e preservação de flexibilidade
Além dos fatores domésticos, as condições financeiras globais seguem restritivas, com juros elevados nas principais economias e alta sensibilidade dos fluxos de capital ao diferencial de taxas. Esse cenário reduz o espaço para movimentos antecipados de flexibilização monetária em economias emergentes, como o Brasil, especialmente em um contexto de incertezas fiscais.
Nesse ambiente, a expectativa predominante é de que o Banco Central busque calibrar seu discurso para preservar flexibilidade. O Copom deve reconhecer avanços recentes nos dados, mas evitar compromissos claros com datas ou magnitudes de cortes, mantendo o discurso alinhado à necessidade de consolidação da trajetória desinflacionária e de reancoragem das expectativas.






