Eu não queria escrever sobre isso hoje. Tinha outras coisas na fila. Material bom.
Mas há assuntos que gritam. Que não aceitam ser postos na fila.
Há veículos fazendo um trabalho excelente nessa cobertura disso aqui. Por outro lado, há vozes cujo silêncio me incomoda — talvez por medo, talvez porque constam de folhas de pagamento que criam complicações.
Eu não tenho rabo preso com ninguém, então minha ponderação é mais fácil.
Escrevi sobre Vorcaro antes com menos profundidade do que ele merecia. De lá para cá, uma enxurrada de fatos novos. Então hoje eu me redimo.
Martha Graeff. 40 anos. Quase 700 mil seguidores no Instagram. Mora em Miami.
O currículo afetivo é de personagem de telenovela cara: ex-namorada de Aécio Neves e de Rony Seikaly — que jogou na NBA antes de ela ser adulta. Com Vorcaro, namorou aproximadamente dois anos. O relacionamento terminou dias após a primeira prisão dele.
Mas o que importa é: enquanto durou tal enlace, Martha era uma janela para o que Vorcaro entendia por “intimidade”.
Ele relatava para Martha cada encontro de poder como quem exibia um troféu. Lula. Rui Costa. Gabriel Galípolo. Hugo Motta. Ciro Nogueira. Em determinada mensagem, explicou que não podia falar porque estava recebendo “Hugo”, “Ciro” e “Alexandre”. Assim mesmo, por prenome, como quem menciona vizinhos de condomínio.
Erika Schneider, ex-bailarina do Faustão e musa dos Gaviões da Fiel, recebeu a mesma mensagem de “bom dia” com emojis de coração que Martha recebeu. Ao mesmo tempo. As duas, mais uma terceira não identificada. Três bons dias simultâneos, três corações digitais, zero originalidade.
O mesmo Vorcaro reconheceu que contratou mais de 300 prostitutas para uma festa. Disse que isso era parte do business dele. Anoto aqui sem julgamento de ordem moral, mas sim apenas como dado; porque a observação que importa é outra: a folha de pagamento de Vorcaro era muito maior do que 300 pessoas, e as verdadeiras prostitutas eram de natureza muito mais variada do que a primeira leitura sugere.
Martha desativou os comentários nas redes após o vazamento. Disse que as mensagens são “privadas e trocadas em contexto estritamente pessoal.”
Ela está certíssima. O que não é privado é o restante. Todo o restante.
O dia era 17 de novembro de 2025. Daniel Vorcaro acordou sabendo que havia problema.
Às 7h19, escreveu para um contato salvo no celular: “acho que o tema de que falamos começou a dar uma vazada… a turma do BRB me disse que está tendo um movimento de sacanagem do caso. E que a mesma jornalista de antes estava fazendo perguntas lá.”
O contato respondeu. A resposta desapareceu.
Este é o detalhe que organiza tudo o que se segue: os dois não conversavam pelo WhatsApp normalmente: escreviam no bloco de notas do celular, tiravam print e enviavam pelo aplicativo em modo de visualização única. A mensagem desaparece depois de aberta. Apenas os prints de Vorcaro permaneceram no aparelho dele. As respostas do outro lado sumiram.
Dois homens que constroem um sistema artesanal para apagar rastros estão, por esse ato em si, sinalizando que há rastros a apagar. O que cada leitor infere a partir daí é problema de cada leitor. Eu jamais ousaria inferir nada.
Às 17h22, Vorcaro escreveu: “Fiz uma correria aqui para tentar salvar. Fiz o que deu, vou anunciar parte da transação.” Às 17h26: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?” Às 19h58: “Alguma novidade?” Às 20h21 e 20h23, o interlocutor respondeu duas vezes.
Às 20h48, Vorcaro enviou a última mensagem. A resposta do interlocutor foi um emoji de polegar levantado, fazendo joinha.
Pula para 22h. Vorcaro é preso em Guarulhos tentando embarcar para Dubai.
O contato identificado no celular de Vorcaro, com nome e número — segundo O Globo — confirmados por software pericial, era Alexandre de Moraes.
O STF emitiu nota dizendo que as mensagens “não conferem com os contatos do ministro nos arquivos apreendidos” e que os prints estariam vinculados a “outras pessoas de sua lista de contatos.”
A nota não diz quem são essas outras pessoas. Não diz como uma mensagem de WhatsApp aparece com o nome e número de uma pessoa específica no aparelho de quem envia, mas pertenceria tecnicamente a outra. Não diz que Vorcaro e Moraes não trocavam mensagens: apenas diz que aquelas mensagens não seriam de uma troca entre eles.
Por outro lado, sobre o que nota se restringe a dizer, foi refutada pelo O Globo: no material exibido pelo jornal, constam nome e número do ministro, “conferido e checado.”
O intervalo médio entre as mensagens de Vorcaro e as respostas que desapareceram: entre um e seis minutos. Rápido. O processo mais longo da história do Judiciário brasileiro levou 125 anos para encontrar conclusão — foi movido por Princesa Isabel e Conde d’Eu, em 1895. Sobre ele, o STF decidiu em 2020.
Apresento os fatos. Explico mais adiante por que não escrevo o que penso com a franqueza que merece.
Em abril de 2024, o Grupo Voto organizou em Londres o “I Fórum Jurídico Brasil de Ideias”. Patrocinador principal: Banco Master. Os ministros do STF e do STJ presentes foram convidados pessoalmente por Alexandre de Moraes.
Supostamente, a lista de convidados era submetida a Moraes para aprovação prévia. Um nome foi vetado: Joesley Batista, da J&F.
O motivo, segundo o próprio Vorcaro ao ConJur: Michel Temer seria homenageado no evento. Temer foi quem indicou Moraes ao STF. Temer havia sido delatado por Joesley na Lava Jato. E Temer atuava, àquela altura, como advogado da Paper Excellence na disputa de R$ 15 bilhões contra a J&F pela Eldorado Celulose.
A geometria desse veto não precisa de comentário. Mas vou fazer um assim mesmo: um banqueiro privado decidia quem podia e quem não podia sentar no mesmo salão que ministros do Supremo. E os ministros foram ao encontro mesmo assim.
O escritório Barci de Moraes Advogados, formado por Viviane Barci, esposa do ministro, e dois filhos do casal, assinou contrato com o Banco Master em 2024. Valor: R$ 3,6 milhões por mês por 36 meses. Total: R$ 129 milhões. Escopo: representar o banco “onde for necessário” — Banco Central, Receita, CADE, Congresso, PGF…
A única atuação documentada de Viviane Barci em favor do Master: uma queixa-crime contra Vladimir Timerman (sobre quem escrevi aqui). Naquele caso, o Master perdeu em primeira e segunda instâncias.
No vazamento integral do celular de Vorcaro, com conversas com Lula, ministros, parlamentares, concorrentes e namoradas, Viviane Barci não aparece em nenhuma mensagem. Zero. A advogada cujo escritório recebia R$ 3,6 milhões por mês é uma ausência absoluta no celular do seu maior cliente.
A hipótese de que o contrato era, na verdade, um mecanismo de pagamento de outra coisa consta da investigação da PF. Não sou eu quem está levantando qualquer suspeita. Registro como investigação em andamento.
Cada um que tire suas próprias conclusões sobre o que se compra R$ 129 milhões.
Paulo Sérgio Neves de Souza ingressou no Banco Central em 1998.
Economista formado pela PUC-SP, MBA em risco pela Fipecafi. Em 2017, chegou à diretoria de fiscalização, uma das cadeiras da diretoria colegiada. Votava nas reuniões do Copom.
Em 2019, assinou a autorização da compra do Banco Máxima por Daniel Vorcaro. A operação que deu origem ao Banco Master.
Ele criou o monstro. E passou a trabalhar para ele às escondidas, ainda no BC.
Segundo investigação da PF, Paulo Sérgio revisava documentos do Master antes de serem protocolados no BC, orientava como responder a questionamentos regulatórios e alertava Vorcaro sobre movimentações suspeitas identificadas pelos próprios sistemas que ele era pago pelo Estado para operar.
Em 2021, ainda na diretoria de fiscalização, vendeu uma fazenda de café por R$ 3 milhões a um fundo ligado ao cunhado de Vorcaro. Quando o mesmo Vorcaro soube que Paulo Sérgio iria a Orlando, providenciou guias particulares para a família.
Belline Santana chefiava o Departamento de Supervisão Bancária do BC, o Desup.
Respondia pela supervisão de todas as instituições financeiras, incluindo o Master. Era visto internamente como candidato natural à diretoria de fiscalização.
Participava de reuniões privadas com Vorcaro fora do BC. Solicitava contato por telefone para assuntos sensíveis, evitando registro escrito. Revisava ofícios que o Banco Master enviaria ao próprio departamento que ele chefiava.
A frase que circulou na imprensa resume o que havia entre os dois: “Belline cobrando, paga? Claro.”
O ato mais grave, constante da decisão de André Mendonça: em novembro de 2025, quando a PF solicitou documentos para embasar o pedido de prisão de Vorcaro, Belline atrasou deliberadamente o envio. Só entregou depois de ser alertado de que poderia responder judicialmente pela inércia.
A propina chegava via contrato fictício com a Varajo Consultoria Empresarial, empresa montada especificamente para isso. Souza e Santana tinham salários acima de R$ 40 mil por mês no Banco Central.
George Stigler ganhou o Nobel de Economia formalizando o óbvio: o regulado tende a capturar o regulador. No Brasil, Vorcaro não capturou o regulador. Ele o assalariou. Com guias de Disney incluídos.
A fiscalização não falhou. A fiscalização foi comprada.
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