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Selic alta pode mascarar risco Brasil, aponta estudo da FGV sobre proteção patrimonial

Selic alta pode mascarar risco Brasil, aponta estudo da FGV sobre proteção patrimonial

Em palestra no Avenue Connection 2026, William Eid Junior, professor e diretor da FGV, e Daniel Haddad, da Avenue, discutiram por que juros elevados não eliminam os riscos de manter o patrimônio concentrado no Brasil e defenderam a diversificação internacional como instrumento de proteção de longo prazo

A remuneração elevada oferecida pela renda fixa brasileira pode criar uma sensação de segurança que não necessariamente corresponde à proteção patrimonial de longo prazo. Essa foi uma das principais mensagens da palestra “Estudo da FGV: Selic Alta Protege o Patrimônio ou Apenas Mascara o Risco Brasil?”, apresentada durante o Avenue Connection 2026.

O debate reuniu William Eid Junior, professor e diretor da Fundação Getulio Vargas (FGV), e Daniel Haddad, da Avenue, e teve como ponto de partida um estudo sobre a concentração do patrimônio dos brasileiros no mercado doméstico.

A tese apresentada é que bons retornos nominais em reais não eliminam riscos associados à moeda, à economia, ao cenário fiscal e à própria jurisdição brasileira. Em outras palavras, diferentes investimentos dentro do país podem carregar fatores de risco semelhantes.

“Você não está diversificado no Brasil”, afirmou Eid durante a apresentação.

O estudo parte da ideia de que a diversificação não deve ser observada somente pelo número de produtos existentes em uma carteira. O mais importante é entender quais variáveis de risco cada ativo realmente adiciona ou reduz.

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Ativos diferentes podem carregar o mesmo risco

Um dos gráficos apresentados comparou as correlações entre diferentes classes de ativos brasileiros em cenários de juros altos e baixos. Bolsa, renda fixa prefixada, títulos indexados ao IPCA, multimercados e fundos imobiliários apresentaram diferentes graus de relacionamento entre si, mas continuaram ligados ao mesmo ambiente econômico.

O dólar, por outro lado, apareceu com correlação negativa em relação aos demais ativos analisados nos dois regimes de juros apresentados.

Para Eid, esse comportamento ajuda a explicar a importância da exposição cambial na construção de uma proteção patrimonial. “Você tem que ter o dólar para proteger o seu poder de compra”, afirmou.

O professor também questionou uma ideia bastante difundida no mercado brasileiro: a de que simplesmente combinar renda fixa e renda variável dentro do país seria suficiente para criar proteção.

Segundo ele, embora a correlação negativa entre diferentes classes de ativos funcione bem como conceito teórico, o comportamento observado na prática pode ser diferente, especialmente em momentos de estresse.

Isso acontece porque, diante de uma deterioração do cenário brasileiro, diversos ativos locais podem sofrer simultaneamente.

IPCA+ protege da inflação, mas não elimina o risco cambial

Outro ponto levantado durante a palestra foi a interpretação de que títulos indexados à inflação, como os papéis IPCA+, seriam suficientes para preservar o patrimônio.

A análise apresentada diferencia, porém, proteção do poder de compra em reais de proteção patrimonial em um contexto global.

Um título indexado ao IPCA pode proteger o investidor contra a inflação medida no Brasil, mas continua denominado em reais e exposto ao risco soberano brasileiro. Se parte do consumo futuro de uma família estiver relacionada a produtos, serviços ou ativos precificados internacionalmente, a variação cambial passa a ter importância adicional.

O estudo apresentado pela FGV trabalha, nesse sentido, com um piso de exposição internacional de 16%, tendo como referência a necessidade de proteger o consumo do brasileiro contra fatores que não podem ser neutralizados apenas com ativos domésticos.

Investir fora significa abrir mão de rendimento?

A apresentação também procurou enfrentar outro argumento frequente: o de que a renda fixa internacional ofereceria retornos pouco atrativos em comparação com os juros brasileiros.

“Há rendimentos, sim. Em renda fixa você tem rendimentos”, afirmou Eid.

Um dos gráficos exibidos mostrou a evolução dos rendimentos anuais, em dólar, de diferentes ativos no exterior, incluindo títulos do Tesouro americano, crédito de grau de investimento e crédito de menor classificação, além dos dividendos da bolsa americana.

Os dados apresentados indicam que oportunidades de retorno no exterior mudam conforme o momento econômico, o nível dos juros e o risco de crédito assumido.

Para Eid, um dos problemas das comparações entre Brasil e Estados Unidos está justamente em confrontar ativos com características diferentes.

“A Selic não rende tanto assim. Você tem que comparar as coisas corretamente”, disse.

Na análise apresentada, comparar títulos soberanos brasileiros diretamente com Treasuries americanos pode produzir uma leitura distorcida, já que o ativo brasileiro incorpora um prêmio de risco que o título soberano dos Estados Unidos não carrega nas mesmas condições. Por isso, a palestra propôs observar também o crédito corporativo americano de classificação semelhante.

Retorno do CDI em dólar muda a percepção

Outro recorte do estudo analisou 21.146 janelas móveis entre janeiro de 2005 e julho de 2026, considerando os retornos em dólar de diferentes investimentos.

Segundo os números exibidos durante a palestra, o CDI apresentou retorno médio anualizado em dólar de 1,75%, com mediana de -0,08% e resultados positivos em aproximadamente 49,4% das janelas analisadas.

No mesmo levantamento, o S&P 500 teve retorno médio anualizado de 8,82% em dólar, com resultado positivo em cerca de 90,1% das janelas.

Os pesquisadores ressaltaram que a comparação não elimina diferenças de volatilidade e risco entre as classes de ativos. A intenção é mostrar que olhar apenas para a elevada taxa nominal do CDI em reais pode esconder o efeito da variação cambial sobre o patrimônio quando a referência passa a ser uma moeda internacional.

Esse é o ponto que sustenta uma das mensagens centrais da apresentação: estabilidade nominal em reais não é sinônimo de preservação global do patrimônio.

Em momentos de crise, aparece o “flight to quality”

A palestra também abordou o chamado “flight to quality”, expressão usada no mercado para descrever o movimento de investidores em direção a ativos considerados mais seguros durante períodos de incerteza.

“Se o mundo está tumultuado, a gente perde recursos”, resumiu Eid ao explicar como economias consideradas mais arriscadas podem sofrer saída de capital em momentos de aversão global ao risco.

Nesse contexto, o risco brasileiro foi analisado a partir de diferentes indicadores apresentados no evento, como classificação soberana, risco-país e mercado de credit default swap, o CDS.

A intenção, segundo a exposição, era observar o Brasil não apenas a partir da perspectiva de quem vive e investe no país, mas também pelos critérios utilizados por investidores internacionais para avaliar risco.

BDR amplia a exposição, mas não muda necessariamente a jurisdição

A discussão também diferenciou diversificação de ativos de diversificação de jurisdição.

Eid lembrou que um investidor pode adquirir um BDR e obter exposição econômica a uma companhia estrangeira sem, necessariamente, retirar todo o patrimônio da estrutura institucional brasileira.

“Você pode comprar um BDR, pode diversificar, mas você ainda está em uma jurisdição do Brasil”, disse.

A observação reforça a proposta do estudo de olhar para diversificação em várias dimensões: moeda, economia, classe de ativo e jurisdição.

Esperar o dólar cair pode custar mais do que parece

A tentativa de escolher o melhor momento para enviar recursos ao exterior também foi questionada.

Uma das simulações apresentadas comparou diferentes estratégias de aportes na bolsa americana. Foram considerados aportes mensais, trimestrais e estratégias nas quais o investidor mantinha o dinheiro aplicado no CDI enquanto aguardava quedas do dólar de 5%, 10% ou 15% antes de realizar a conversão.

O resultado favoreceu a regularidade.

“O sujeito que aporta todo mês, independentemente do câmbio, vai ter um patrimônio maior do que nos outros casos que esperam o dólar cair”, afirmou Eid ao comentar a simulação.

Na tabela apresentada, a estratégia de aporte mensal terminou o período com patrimônio equivalente a 4,97 vezes o capital inicialmente considerado, enquanto a estratégia de permanecer no CDI sem realizar a conversão ficou em 1,97 vez. Quanto maior era a queda do dólar exigida pelo investidor antes de fazer o aporte, maior também se tornava o período de espera.

A conclusão apresentada não é que o câmbio deixe de importar, mas que a tentativa de acertar repetidamente o momento ideal de entrada pode comprometer uma estratégia de longo prazo.

Diversificação como proteção, não como aposta contra o Brasil

Ao final, a apresentação procurou afastar a ideia de que investir internacionalmente representa uma posição contrária ao mercado brasileiro.

A mensagem foi outra: manter parte do patrimônio em diferentes economias significa reconhecer que nenhuma carteira deveria depender integralmente do desempenho de uma única moeda, de uma única jurisdição ou de uma única economia.

Da mesma forma, a palestra não apresentou o CDI como um investimento inadequado. Para obrigações futuras denominadas em reais, ele pode cumprir funções importantes dentro de uma carteira.

“O erro não está em investir em CDI”, destacava um dos materiais exibidos. O problema surge quando essa referência é tratada como uma medida universal de segurança patrimonial.

Para Eid, o ponto de partida de qualquer carteira continua sendo a finalidade do dinheiro. “A gente faz investimentos por objetivos”, afirmou.

Nesse raciocínio, a Selic elevada pode representar uma oportunidade de remuneração no mercado doméstico, mas não substitui a discussão sobre concentração de risco. A principal conclusão apresentada no Avenue Connection 2026 é que proteção patrimonial depende menos de escolher entre Brasil ou exterior e mais de construir uma carteira capaz de atravessar diferentes cenários econômicos, cambiais e fiscais.