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PIB decepciona, mas PCE persiste: o dilema do Fed após os novos dados dos EUA

PIB decepciona, mas PCE persiste: o dilema do Fed após os novos dados dos EUA

A desaceleração do PIB americano, combinada à inflação resiliente do PCE, reforça a leitura do mercado de que o Fed deve manter os juros elevados por mais tempo

Os novos dados da economia dos Estados Unidos, divulgados nesta sexta-feira (20), trouxeram uma combinação que costuma gerar fricção nos mercados: crescimento mais fraco do PIB e inflação ainda resistente, medida pelo PCE dos EUA

O Produto Interno Bruto (PIB) do país avançou 2,2% em 2025, desacelerando em relação aos 2,8% registrados no ano anterior, enquanto o índice de preços de gastos com consumo (PCE), a medida de inflação preferida do Federal Reserve (Fed), seguiu acima da meta de 2%.

Na leitura de mercado, porém, o número cheio do PIB perde parte do protagonismo quando analisado de forma isolada. Isso porque a desaceleração da atividade veio acompanhada de fatores específicos, ao mesmo tempo em que os dados de inflação — especialmente o núcleo do PCE — indicam uma persistência inflacionária que mantém o banco central americano em posição cautelosa.

O resultado, na avaliação dos analistas ouvidos pelo EuQueroInvestir, é um cenário mais complexo para a política monetária global: ao mesmo tempo em que o crescimento dá sinais de moderação, a inflação não cede na velocidade desejada pelo Fed, limitando o espaço para cortes de juros no curto prazo e influenciando diretamente ativos como Treasuries, dólar e mercados emergentes.

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PIB mais fraco tem explicação técnica, dizem analistas

A desaceleração do crescimento americano ao longo de 2025 e, especialmente, o avanço mais fraco do PIB no quarto trimestre, têm sido interpretados pelo mercado como um movimento influenciado por fatores pontuais, e não necessariamente como um sinal de deterioração estrutural da economia.

Para Adam Hetts, head global de multiativos da Janus Henderson, a paralisação do governo influenciou o resultado mais fraco da atividade. Segundo ele, a taxa de crescimento do quarto trimestre foi “decepcionante e confusa”, contribuindo para o avanço anual de 2,2% em 2025, com o shutdown atuando como um dos principais freios ao crescimento.

A desaceleração da atividade também é atribuída a fatores extraordinários, especialmente à paralisação do governo ao longo do período analisado.

“A paralisação do governo foi um grande fator que deprimiu o crescimento para um nível mais de 1 ponto percentual abaixo das expectativas para o quarto trimestre, embora a reabertura sirva como um mecanismo de recuperação do PIB no primeiro trimestre”, afirmou Hetts.

Na mesma linha, Nickolas Lobo, especialista em investimentos da Nomad, afirma que o crescimento de apenas 1,4% no quarto trimestre ficou significativamente abaixo das projeções do mercado, que esperava uma expansão próxima de 3%, em parte porque as estimativas não incorporavam o impacto recente do aumento do déficit comercial e da paralisação governamental.

Segundo ele, estimativas do Escritório de Orçamento do Congresso (CBO) indicam que o shutdown reduziu o PIB do período em cerca de 1,5 ponto percentual, refletindo a contenção de gastos públicos e a redução na prestação de serviços federais. Ainda assim, parte dessa perda de atividade tende a ser recuperada nos períodos subsequentes.

Já William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, também aponta que a queda nos gastos do governo foi um dos principais fatores por trás do desempenho mais fraco do PIB. 

“Você teve praticamente o colapso dos gastos federais, que explica grande parte desse PIB mais fraco”, afirmou, ao comentar que a retração nas despesas públicas representou uma inflexão relevante frente ao trimestre anterior.

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Inflação medida pelo PCE segue acima da meta e preocupa o Fed

Se o crescimento mais moderado encontra explicações técnicas, a dinâmica da inflação continua sendo o principal ponto de atenção para a política monetária americana. 

O PCE subiu 0,4% em dezembro na comparação mensal e acumulou alta anual próxima de 2,9%, enquanto o núcleo do indicador avançou 3,0%, mantendo-se acima da meta de 2% do Fed.

Na avaliação de Lobo, a persistência inflacionária limita a capacidade do banco central de iniciar um ciclo de afrouxamento monetário no curto prazo, especialmente diante de um núcleo do PCE que segue distante do nível considerado confortável pela autoridade monetária.

A dinâmica inflacionária, segundo o especialista da Nomad, também começa a afetar a demanda doméstica.

“A persistência inflacionária, acima da meta de 2%, limita a capacidade do Fed de reduzir as taxas de juros de forma imediata. Além disso, o consumo das famílias apresenta sinais de retração, indicando que o custo elevado do crédito começou a impactar o orçamento doméstico e cria um impasse entre manter uma política restritiva e o risco de uma desaceleração econômica mais severa”, afirmou Lobo.

Castro Alves destaca que a aceleração do núcleo do PCE para 3% em dezembro reverteu uma tendência de relativa estabilidade observada nos meses anteriores. 

“A aceleração disso preocupa. Você estava falando de uma estabilidade acima da meta do Fed, mas ancorada. Quando volta a subir, isso incomoda”, disse.

O estrategista acrescenta que a abertura dos dados mostra pressão concentrada em bens, especialmente duráveis, em um movimento consistente com repasses de custos e efeitos de tarifas sobre preços ao consumidor.

Dilema do Federal Reserve: crescimento desacelera, mas juros seguem pressionados

A combinação entre atividade mais fraca e inflação persistente reforça o dilema do Federal Reserve para os próximos meses. Embora o mercado consiga absorver um PIB abaixo do esperado quando há fatores extraordinários envolvidos, a trajetória do PCE tende a ter maior peso nas decisões de política monetária.

Para Castro Alves, o dado de inflação é o elemento que pode gerar maior fricção nos mercados. 

“O mercado tende a absorver o PIB, mas o PCE é que vai gerar fricção por conta da política monetária”, disse, ao destacar que o indicador é a principal referência do Fed para definir os juros.

Nesse contexto, a manutenção de uma inflação acima da meta reduz a probabilidade de cortes rápidos na taxa básica americana. Segundo o estrategista, o cenário reforça a percepção de que os cortes podem ser postergados, com apostas migrando para a metade do ano ou até mais adiante.

Lobo avalia que o ambiente atual exige uma condução monetária mais cautelosa, já que a inflação persistente, combinada a sinais de moderação do consumo, cria um equilíbrio delicado entre controle de preços e sustentação da atividade econômica.