As empresas de software, expostas à inteligência artificial (IA), agentes de IA, orquestração de plataformas, modelos de monetização e infraestrutura de dados, enfrentam um momento de transição no mercado. Após uma forte reprecificação das ações, a pergunta central deixou de ser se a IA vai transformar o setor e passou a ser: “quem realmente vai se beneficiar dessa mudança?”.
Segundo análise da Goldman Sachs Research, a correção recente pode ter sido ampla demais e abriu espaço para análises mais seletivas.
As preocupações dos investidores giram em torno do impacto dos agentes de IA na dinâmica tradicional de software corporativo. A hipótese é que, se esses agentes se tornarem a principal interface de trabalho, parte das plataformas atuais poderia perder relevância. Ainda assim, o banco afirma que o mercado pode estar exagerando no diagnóstico.
Queda reflete sentimento, não deterioração
Para o analista Matthew Martino, da Goldman Sachs Research, o movimento recente das ações tem mais relação com o humor do mercado do que com fundamentos enfraquecidos. “A recente queda nas ações de software reflete uma rápida mudança no sentimento dos investidores, e não uma deterioração repentina dos fundamentos”, escreve o analista no relatório.
Ele acrescenta que existem “caminhos viáveis para que a IA reforce, em vez de prejudicar, o crescimento a longo prazo”. A leitura dialoga com discussões recentes no Brasil sobre empresas como a Totvs, que defendem a IA como uma nova camada de monetização e não como uma ameaça estrutural.
No pico recente, as avaliações das empresas de software embutiam expectativa de crescimento de receita entre 15% e 20% no médio prazo. Com a correção, os múltiplos agora indicam crescimento esperado de apenas 5% a 10%. Para o Goldman, a revisão pode ter sido aplicada de forma indiscriminada.
Disrupção ou reforço das plataformas?
“A preocupação é que, se os agentes de IA se tornarem a principal interface para a execução de tarefas, as plataformas tradicionais poderão ser relegadas a meros repositórios passivos de dados”, escreve Martino. Esse cenário explicaria a perda de poder de precificação e a queda das ações.
Ainda assim, o próprio banco pondera: “Reconhecemos que a rápida inovação em IA cria incertezas legítimas e justifica um prêmio de risco mais elevado”. Mas faz um contraponto claro: “Mesmo assim, acreditamos que a reprecificação foi aplicada de forma ampla, e não seletiva.”
Na prática, isso significa que nem todas as companhias de software estão igualmente expostas ao risco de desintermediação. Algumas podem, inclusive, ganhar relevância com o avanço da IA.
A estrutura para identificar vencedoras
Para diferenciar riscos e oportunidades, a Goldman Sachs Research criou uma “estrutura de impacto da IA”. O modelo avalia seis dimensões centrais: risco de orquestração, modelo de monetização, propriedade do sistema de registro, vantagem competitiva em dados e integração, execução real de IA e alinhamento orçamentário.
Empresas com forte controle sobre dados estruturados, governança, compliance e execução operacional tendem a ser mais resilientes. Plataformas que funcionam como sistemas de registro, onde aprovações e processos críticos são formalizados, são mais difíceis de substituir.
Além disso, na camada de infraestrutura, os agentes de IA podem aumentar a necessidade de gestão de dados, segurança e orquestração de cargas de trabalho. Ou seja, a IA pode elevar a demanda por soluções que operam abaixo da interface do usuário.
“A questão central do investimento não é se os agentes vão mudar o software (eles vão)”, escreve Martino. O ponto decisivo é analisar cuidadosamente a pilha tecnológica de cada empresa para entender onde a IA causa disrupção e onde reforça a proposta de valor.
Para investidores, o desafio agora é sair da visão generalista e adotar uma análise mais técnica. Em vez de tratar o setor como um bloco único, o foco passa a ser identificar quais modelos de negócio conseguem transformar a IA em crescimento sustentável.
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