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Queda do IBC-Br fortalece tese do mercado para início do ciclo de cortes de juros

Queda do IBC-Br fortalece tese do mercado para início do ciclo de cortes de juros

Recuo da atividade em dezembro reforça a leitura de desaceleração dos setores cíclicos e amplia a margem para um ciclo seguro de queda da Selic

Na avaliação do mercado, a queda do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), a prévia do Produto Interno Bruto (PIB), em dezembro reforçou a leitura de que a economia brasileira oferece sinais mais claros de desaceleração. Este fenômeno é mais acentuado ao observar os setores mais sensíveis ao ciclo. 

O arrefecimento da economia tende a ser interpretado de forma positiva pelo Comitê de Política Monetária (Copom) para início do ciclo de corte de juros.

Na série com ajuste sazonal, o IBC-Br recuou 0,2% em dezembro na comparação com novembro, segundo dados do Banco Central, com desempenho puxado pela retração do setor de serviços (-0,3%), enquanto a indústria avançou 0,3% e a agropecuária subiu 2,3% no período. 

Excluindo a agropecuária, o indicador também mostrou queda de 0,3% no mês, sinalizando perda de tração mais disseminada na atividade.

Na avaliação de economistas, a composição do dado reforça a narrativa de desaceleração gradual da economia, sobretudo nos componentes cíclicos, o que abre espaço técnico para um início mais seguro do ciclo de flexibilização monetária.

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“Os dados podem ser interpretados positivamente sob o prisma da política monetária, haja vista que reforçam a perspectiva de desaceleração do nível de atividade econômica com foco em seus componentes cíclicos, movimento que deve se concentrar especialmente na primeira metade do ano, abrindo espaço para um início seguro e consistente do ciclo de corte de juros por parte do Banco Central”, afirmou Matheus Pizzani, economista do PicPay (PICS).

IBC-Br: Desaceleração concentrada nos setores cíclicos

A leitura setorial do IBC-Br indica que a atividade econômica segue sustentada por segmentos menos sensíveis ao ciclo, enquanto áreas mais ligadas ao consumo e ao crédito mostram perda de fôlego. 

O recuo dos serviços no último mês do ano — principal componente do indicador — reforça essa interpretação, já que o setor costuma responder de forma mais direta às condições financeiras e ao nível de renda das famílias.

Ainda que a agropecuária tenha apresentado forte avanço no período, o comportamento do IBC-Br ex-agropecuária revela uma desaceleração mais clara da dinâmica econômica subjacente, sugerindo que o arrefecimento da atividade não se limita a um ruído pontual.

Ao longo de 2025, o indicador acumulou alta de 2,5% em 12 meses, com destaque para o desempenho do setor agropecuário, enquanto serviços e indústria mantiveram trajetórias mais moderadas de crescimento, com sinais de perda de força ao longo do segundo semestre.

Resiliência da atividade impõe cautela ao Copom

Apesar do recuo mensal, a atividade econômica ainda mostra resiliência na comparação anual, o que tende a manter o BC em postura cautelosa na calibragem do ritmo de cortes de juros.

Segundo Antonio Ricciardi, economista do Daycoval, a queda de 0,2% em dezembro veio menos intensa do que o esperado pela casa, enquanto o crescimento de 3,1% na comparação anual superou as projeções, indicando um dinamismo maior da economia no quarto trimestre.

“A gente esperava uma desaceleração mais acentuada da economia no quarto trimestre, sobretudo nos itens mais sensíveis ao ciclo econômico, principalmente de serviços”, afirmou.

O economista destaca que a atividade tem sido sustentada principalmente por setores não cíclicos, como a indústria extrativa e o agronegócio, enquanto os segmentos mais ligados ao ciclo econômico já apresentam desaceleração mais evidente.

Ponto de partida mais alto para 2026

Outro fator que entra no radar da política monetária é o patamar de atividade herdado para o início de 2026. De acordo com Ricciardi, a resiliência da economia no fim de 2025 eleva o ponto de partida para o primeiro trimestre, especialmente diante de estímulos como a isenção do IRPF e a valorização real do salário mínimo, que tendem a impulsionar o consumo das famílias.

“A gente espera um impulso de atividade econômica no primeiro trimestre de 2026, o que faz com que partamos de um patamar mais alto e naturalmente reforça o cenário de cautela por parte do Banco Central na condução da política monetária”, disse.

Nesse contexto, a leitura do economista é de que o ciclo de cortes deve ocorrer de forma gradual. 

“Faz mais sentido cortar 0,25 ponto percentual na próxima reunião, diante de um cenário com uma desaceleração menos intensa da atividade econômica”, avaliou.

Implicações para juros e crescimento

Do ponto de vista macroeconômico, o resultado do IBC-Br gera um viés misto: por um lado, a perda de força dos setores cíclicos reforça a narrativa de desaceleração necessária para a convergência da inflação; por outro, a resiliência do nível geral de atividade reduz o espaço para cortes mais agressivos da Selic.

Para o PicPay, o carrego estatístico para o primeiro trimestre de 2026 permanece limitado, concentrado principalmente na agropecuária, enquanto serviços mostram estagnação e a indústria apresenta crescimento marginal na margem. Esse quadro sugere uma desaceleração gradual, e não abrupta, da economia brasileira.

A instituição mantém a expectativa de crescimento do PIB em torno de 1,7% em 2026, com atenção especial ao comportamento do consumo das famílias, que deve ser influenciado por fatores de renda e mercado de trabalho.

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IBC-Br como termômetro do ciclo econômico

Divulgado mensalmente pelo Banco Central, o IBC-Br funciona como uma espécie de prévia do PIB, reunindo informações de indústria, serviços, comércio, agropecuária e impostos para acompanhar, de forma mais frequente, o ritmo da atividade econômica no país.

Embora não substitua o PIB oficial do IBGE, o indicador é amplamente utilizado por economistas e pelo próprio mercado financeiro como um termômetro do ciclo econômico e, principalmente, como um insumo relevante para as decisões de política monetária.

Diante desse contexto, a combinação entre desaceleração gradual da atividade, enfraquecimento dos componentes cíclicos e manutenção de alguma resiliência do nível geral de crescimento tende a reforçar a estratégia de flexibilização monetária cautelosa por parte do Banco Central, abrindo espaço para o início do ciclo de cortes de juros sem comprometer o processo de desinflação.