O ano de 2025 ficou para trás como um dos mais desafiadores da história recente do Banco do Brasil (BBAS3).
Em reunião com investidores realizada no Rio de Janeiro, executivos da instituição reconheceram que o desempenho ficou muito aquém do esperado, com o lucro final cerca de 50% abaixo das projeções feitas apenas doze meses antes. No centro dessa frustração esteve a carteira de agronegócio, que entrou em forte estresse e contaminou o resultado do banco ao longo do ano.
“Ele disse que ficou aliviado com o encerramento do ano, já que 2025 foi muito desafiador, com o Banco do Brasil entregando um resultado final cerca de 50% abaixo do que era esperado apenas doze meses antes”, afirmaram os analistas do BTG Pactual, ao relatarem a fala do CFO Geovanne Tobias durante o encontro com investidores.
Mesmo com alguma melhora marginal esperada para o quarto trimestre de 2025, a leitura predominante é de que os efeitos da crise no agro ainda não ficaram para trás. A avaliação do banco é de que 2026 tende a ser um ano melhor do que o anterior, mas com um início ainda marcado por baixa visibilidade e pressão relevante sobre os resultados.
Baixa visibilidade no curto prazo e provisões ainda elevadas
A expectativa do BTG Pactual é que o primeiro semestre de 2026 continue fortemente impactado pelo aumento das provisões, reflexo direto da deterioração da carteira agro. Apesar de o desempenho do quarto trimestre de 2025 dever mostrar alguma melhora sequencial em relação ao terceiro trimestre, o cenário ainda inspira cautela.
Segundo o relatório, a alíquota efetiva de imposto de renda deve permanecer próxima de zero — ou até positiva — um sinal de que a rentabilidade segue comprimida. Ainda assim, como esse patamar já havia sido observado no terceiro trimestre, a administração do banco avalia que o pior momento pode ter ficado para trás.
“A administração acredita que, como a alíquota efetiva já estava nesses níveis no 3T25, isso sugere que o pior já passou, embora o ambiente siga longe do ideal”, apontaram os analistas do BTG.
A inadimplência também segue como um ponto de atenção. A expectativa é de que os atrasos acima de 90 dias continuem em trajetória de alta, o que torna os indicadores de inadimplência em estágio inicial as métricas mais relevantes a serem acompanhadas ao longo dos próximos trimestres.
O ponto de inflexão: por que o segundo trimestre de 2026 é chave
Dentro desse cenário ainda turvo, o segundo trimestre de 2026 surge como um possível ponto de inflexão para o Banco do Brasil. É nesse período que vencem os primeiros empréstimos originados a partir da última safra, já sob uma nova política de crédito adotada pelo banco após os problemas enfrentados em 2025.
Abril foi citado como um mês-chave, dado o volume relevante de pagamentos concentrados no segundo trimestre. Caso o desempenho das amortizações seja melhor do que o observado anteriormente, o banco poderá começar a enxergar uma recuperação mais consistente na segunda metade do ano.
Ainda assim, o BTG ressalta que a expectativa segue sendo de um primeiro semestre pressionado, com a normalização ganhando tração apenas no segundo semestre — e mesmo assim de forma gradual.
Crédito mais rígido, crescimento menor e perda de participação
Parte do ajuste em curso passa por mudanças estruturais na concessão de crédito. De acordo com o CFO, o Banco do Brasil vem fazendo um esforço significativo para migrar os novos contratos para estruturas de alienação fiduciária, consideradas mais robustas do ponto de vista de garantias.
Essa transição, no entanto, tem um custo. O processo de concessão se tornou mais burocrático e lento, o que pesa sobre o crescimento da carteira. O guidance revisado para 2025 já reflete uma desaceleração relevante no agronegócio, movimento que deve se estender ao longo de 2026.
“A carteira agro deve permanecer praticamente estável em 2026, e o banco admitiu que provavelmente continuará perdendo participação de mercado antes de se ajustar completamente a esse novo ambiente”, destacaram os analistas.
Outro fator que limita a expansão é a menor demanda por CPRs, instrumentos majoritariamente indexados à Selic. Com os juros em patamar elevado, a procura por esse tipo de crédito ficou significativamente mais restrita.
A resposta do banco: foco em linhas mais rentáveis e preservação de capital
Diante da dificuldade no agro, o Banco do Brasil tem buscado compensar o menor crescimento com a expansão de linhas de crédito mais rentáveis, especialmente no segmento de pessoas físicas. O destaque é o crédito consignado, cujo saldo já supera R$ 12 bilhões, posicionando o banco como o segundo maior player do mercado, atrás apenas do Itaú.
Ao mesmo tempo, a preservação de capital se tornou prioridade. O banco reiterou que o payout em 2026 deve ficar em torno de 30%, ainda a ser definido, em meio à expectativa de novas exigências regulatórias que podem pressionar os índices de capital.
A medida provisória criada para apoiar o setor agropecuário ajudou a destravar liquidez, com desembolsos que devem alcançar cerca de R$ 25 bilhões. Apesar disso, o BTG avalia que o instrumento não resolve de forma definitiva os problemas estruturais da carteira.
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O pano de fundo estratégico: Cielo, custos e ambiente regulatório
Além do agro, outros temas estratégicos foram abordados no encontro com investidores. O CFO afirmou esperar que a Cielo acelere sua estratégia em 2026, com foco em soluções de gestão de caixa para pequenas e médias empresas, após um ano de integração mais profunda com seus controladores.
No campo de custos, o Banco do Brasil iniciou a migração de parte dos funcionários de jornadas de seis para oito horas diárias, além de congelar novas contratações. Embora o fechamento de agências siga sendo um desafio para uma instituição estatal, o banco tem avançado na consolidação de unidades, reunindo operações de agro, PMEs e varejo em um único local.
O ambiente regulatório também foi alvo de críticas. Segundo o CFO, iniciativas para estimular a concorrência — muitas vezes favorecendo fintechs — acabaram enfraquecendo a supervisão em alguns segmentos do sistema financeiro, o que pode elevar riscos ao Fundo Garantidor de Créditos.
Uma recuperação que exige tempo
Na avaliação do BTG Pactual, a normalização da carteira agro do Banco do Brasil deve ser um processo longo, com visibilidade ainda limitada tanto em relação ao ritmo quanto ao nível de equilíbrio final. O banco também corre o risco de sofrer efeitos colaterais em outras frentes de atuação, dado o enfraquecimento relativo do seu ecossistema agro.
“Melhorar o ROE enquanto recompõe provisões e capital raramente é um processo rápido”, afirmaram os analistas, ao reiterar a recomendação neutra para o papel.
Apesar de uma avaliação considerada pouco exigente em termos de preço sobre patrimônio, a expectativa de um ROE ao redor de 13% em 2026 e um dividend yield inferior ao de pares privados reforçam a visão de que a recuperação do Banco do Brasil será gradual — e exigirá paciência dos investidores.






