A JBS (JBSS32) vendeu mais no segundo trimestre de 2026, mas ganhou menos com cada boi abatido. É esse descompasso que aparece na atualização de crédito do BB Investimentos (BB-BI), publicada em 23 de setembro.
A receita líquida somou R$ 113,6 bilhões, alta de 1,4% sobre o mesmo período de 2025, puxada por volumes e preços maiores. A JBS Brasil e a JBS Beef North America bateram recordes de faturamento, e Seara e a operação australiana também avançaram.
O problema estava do lado do custo. Com menos animais disponíveis nos Estados Unidos, o gado encareceu e comprimiu as margens em quase todas as unidades, inclusive na Pilgrim’s Pride, braço de frango do grupo.
A margem Ebitda ajustada caiu para 6,0%, recuo de 2,4 pontos percentuais em um ano. Somado a um resultado financeiro mais fraco, o movimento levou a um prejuízo líquido de R$ 516 milhões, contra lucro de R$ 3,0 bilhões no segundo trimestre de 2025.
Dívida acima da meta
No fim de junho, a dívida bruta da companhia estava em R$ 117 bilhões, 10,2% acima de um ano antes. Descontado o caixa, a dívida líquida chegou a R$ 98,2 bilhões, avanço de 9%.
Com Ebitda menor e dívida maior, a alavancagem subiu rápido. A relação entre dívida líquida e Ebitda ajustado dos últimos 12 meses atingiu 3,1x em dólares, ante 2,7x no primeiro trimestre e 2,3x no segundo trimestre de 2025. Em reais, o indicador ficou em 3,0x.
O número passa, portanto, da meta de longo prazo da própria JBS, de 3,0x. Contudo, o calendário de vencimentos ajuda a relativizar a pressão: apenas cerca de 6% da dívida vence no curto prazo, e o prazo médio é de 15,3 anos, a um custo de 5,7% ao ano.
O cronograma de amortização mostra por quê. Contra um caixa de R$ 18,8 bilhões, os vencimentos de 2027 somam só R$ 273 milhões. A maior parte, R$ 92,9 bilhões, fica para depois de 2031.
Folga menor para pagar juros
Os indicadores de cobertura, no entanto, pioraram. O Ebitda ajustado passou a cobrir 2,4 vezes as despesas financeiras, contra 3,2 vezes em 2025. Quando se desconta o capex, a cobertura cai de 2,2 para 1,4 vezes.
A liquidez também encolheu. O caixa equivale a 2,7 vezes a dívida de curto prazo, metade das 5,7 vezes registradas no fechamento do ano passado, embora ainda acima de 2,3 vezes a necessidade imediata de pagamento.
Mesmo assim, a geração de caixa ficou positiva no trimestre, graças à melhora no capital de giro. Esse ganho foi parcialmente consumido pela queda do Ebitda, pelas despesas financeiras mais altas e por um desembolso maior com investimentos.
Grau de investimento preservado
As três grandes agências mantêm a JBS no primeiro degrau do grau de investimento em escala global, todas com perspectiva estável: BBB- pela S&P e pela Fitch e Baa3 pela Moody’s. Na escala nacional, as notas são as máximas: brAAA, AAA(bra) e AAA.br.
Para as analistas de renda fixa do BB-BI, o semestre mais fraco tem causas identificáveis: a operação de bovinos nos Estados Unidos e a volta das margens de frango a níveis normais, depois de um período de oferta global mais apertada.
A equipe formada por Viviane Silva, Melina Constantino, Fernando Cunha Filho e Mary Silva vê espaço de manobra caso o endividamento continue subindo. Segundo o relatório, a companhia mantém flexibilidade para administrar a estrutura de capital, “inclusive por meio do adiamento de investimentos”.
A aposta do banco para os próximos meses está no calendário. A sazonalidade do capital de giro costuma favorecer o segundo semestre, o que deve ajudar a manter a alavancagem perto de 3,0x, patamar que os analistas classificam como relativamente elevado.
Mudança para quem compra dívida
Além dos números, o relatório registra uma alteração que mexe diretamente com o investidor de renda fixa. Em setembro, a JBS S.A. pediu à CVM o cancelamento de seu registro de companhia aberta.
Com isso, as futuras emissões de dívida da empresa ficarão restritas a investidores profissionais. Os CRAs que tinham a JBS S.A. como devedora foram transferidos para a Seara, subsidiária integral do grupo, e a JBS S.A. e a JBS N.V. seguem como garantidoras.
A medida encerra o processo de simplificação societária iniciado em 2025, quando a JBS N.V. assumiu o controle do grupo, passou a negociar ações na Bolsa de Nova York e trocou as ações da JBS S.A. na B3 por BDRs. A J&F Investimentos detém 46,2% da holding, e a BNDESPar, 17,1%.
Entre os riscos listados pelo BB-BI estão a falta de gado ou o encarecimento de outras matérias-primas, embargos sanitários às exportações, a inflação global corroendo a renda das famílias e eventos ligados à governança corporativa, tema que acompanha a história do grupo.






