A Vale (VALE3) está relativamente protegida da disparada dos custos de frete, mas enfrenta um cenário desafiador para o minério de ferro e tem poucos catalisadores no curto prazo, segundo relatório do BTG Pactual (BPAC11) após reunião com o CEO da companhia, Gustavo Pimenta.
O banco manteve a recomendação de compra para as ações da Vale, mas destacou a deterioração do ritmo de resultados e a ausência de gatilhos claros capazes de provocar uma reavaliação relevante dos papéis no curto prazo.
A avaliação ocorre em um momento de pressão sobre a economia do minério de ferro. Segundo o BTG, a Vale estima que mais de 120 milhões de toneladas por ano (Mtpa) de oferta global estejam atualmente operando com prejuízo diante dos preços da commodity e das tarifas de frete.
Para a companhia, essa situação não é sustentável e deve levar a uma racionalização da oferta, o que poderia contribuir para uma recuperação dos preços do minério de ferro. A Vale, no entanto, não prevê neste momento o fechamento de capacidade própria.
Vale pode reduzir compras de terceiros
O principal ajuste, caso o ambiente atual persista, pode ocorrer nas compras de minério de terceiros. A Vale adquire atualmente cerca de 30 milhões de toneladas por ano de fornecedores externos, volume que pode se tornar economicamente inviável em parte.
A companhia também avalia cerca de 5 milhões de toneladas anuais de produção própria que apresentam custos mais elevados. Segundo o BTG, a Vale está revisando essas operações e sinaliza que cada embarque realizado a partir do Brasil precisa gerar margem positiva.
Uma eventual redução das compras de terceiros poderia, além de ajustar volumes, melhorar o mix de produtos e as margens da companhia.
Estratégia de frete reduz impacto dos custos
Um dos principais pontos positivos destacados pelo BTG é a estratégia de transporte da Vale. Cerca de 70% a 75% do frete da companhia está protegido por contratos de longo prazo ou embarcações dedicadas.
Nessa parcela, as tarifas subjacentes ficam em torno de US$ 18 a US$ 20 por tonelada, considerando uma referência de bunker de US$ 500 por tonelada. O combustível marítimo, porém, está atualmente próximo de US$ 750 por tonelada.
Para 2027, a Vale já teria protegido aproximadamente 70% de sua necessidade de bunker, a um preço equivalente a cerca de US$ 78 por barril de petróleo.
Mesmo se as condições atuais persistirem, a administração estima que o frete da parcela contratada ficaria em torno de US$ 23 por tonelada no próximo ano, ainda abaixo do frete spot atual, estimado pelo BTG em aproximadamente US$ 42 por tonelada.
O banco avalia que a entrada de novos navios no mercado no próximo ano pode ajudar a aliviar a restrição de capacidade e contribuir para a normalização dos preços de transporte.
Minério de ferro enfrenta cenário difícil
O BTG destaca que os preços do minério de ferro estão na faixa de US$ 95 a US$ 98 por tonelada, enquanto custos e fretes permanecem elevados.
A China continua sendo a principal fonte de incerteza para o mercado. Segundo o relatório, seguem as discussões sobre estímulos econômicos e redução da capacidade de produção de aço no país, mas a Vale ainda não observa evidências relevantes de avanços nessas frentes.
Ao mesmo tempo, as exportações continuam sendo uma importante alternativa para a produção chinesa de aço.
Em sentido contrário, a demanda do Sudeste Asiático segue crescendo, especialmente no Vietnã, mercado no qual a Vale já comercializa seus produtos.
O BTG também aponta fatores favoráveis à companhia relacionados à qualidade do minério. A degradação dos teores e o aumento dos níveis de alumina em diferentes fornecedores podem elevar o valor relativo dos produtos de maior qualidade da Vale e de sua capacidade de mistura de minérios.
Cobre é principal potencial de reavaliação
Para o BTG, o cobre aparece como um dos principais potenciais catalisadores de longo prazo para a Vale. A administração da companhia argumenta que possui maior capacidade de crescimento no metal do que seus pares e espera, com a execução de seus projetos, aproximadamente dobrar a produção de cobre.
O banco avalia que o mercado ainda atribui pouco valor ao potencial de crescimento orgânico da Vale Base Metals (VBM), especialmente em projetos de cobre no Brasil.
Apesar disso, uma eventual abertura de capital da VBM não está entre as prioridades de curto prazo. A Vale considera um IPO apenas uma das alternativas possíveis para financiar o crescimento da unidade.
A companhia deve apresentar mais detalhes sobre seu plano de expansão e novos estudos técnicos durante o Vale Day, previsto para dezembro.
Dividendos e recompra ficam em segundo plano
Em relação à remuneração aos acionistas, não houve uma atualização relevante. Segundo o BTG, a administração indicou que eventuais decisões sobre dividendos adicionais ou programas de recompra de ações dependerão do desempenho da companhia no fim do ano.
O banco ressalta que a situação financeira da Vale continua sólida, mas reconhece que o ambiente atual recomenda uma postura mais cautelosa.
Na avaliação do BTG, as ações são negociadas a cerca de 4,4 vezes o valor da empresa sobre o Ebitda (EV/Ebitda), com dividend yield de aproximadamente 8%, ainda com desconto em relação aos pares.
Mesmo diante do cenário macroeconômico adverso e da falta de catalisadores imediatos, o BTG manteve a recomendação de compra para a Vale, citando a qualidade dos ativos, o mix de produtos, a estratégia de fretes e o potencial de crescimento em cobre como fatores de sustentação para a tese de investimento.
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