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BC corta e Fed sobe os juros: O que isso faz com a Bolsa?

BC corta e Fed sobe os juros: O que isso faz com a Bolsa?

Mesmo depois de cinco cortes seguidos, o diferencial de juros entre os dois países segue perto de 10 pontos percentuais

Os dois maiores bancos centrais das Américas estão fazendo coisas opostas. O Federal Reserve sobe juros para conter uma inflação de 3,4% ao ano, empurrada por um choque de energia. O Banco Central corta, porque a inflação brasileira está mais comportada, em 4,22% em agosto, e a atividade perde ritmo.

A contradição é só aparente. Cada país está resolvendo um problema diferente, e é justamente nesse descompasso que o Bradesco BBI enxerga uma janela para quem investe em ações por aqui.

Durante anos, deixar dinheiro parado no Brasil funcionou como poupança premiada. Com a Selic perto de 14% ao ano, o capital rendia bem sem sair do lugar, o que é ótimo para quem busca segurança e péssimo para a bolsa.

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O prêmio da renda fixa começou a encolher

Quando o prêmio de não correr risco é altíssimo, pouca gente compra ações. Esse prêmio começou a diminuir, e a cada corte de juros a renda fixa fica um pouco menos irresistível.

“A cada corte de juros, e já são cinco seguidos, a renda fixa fica um pouco menos irresistível, e o dinheiro começa, aos poucos, a procurar lugares onde possa render mais”, apontam os analistas do Bradesco BBI.

O efeito vai além da realocação de carteira. Juro é o preço do aluguel do dinheiro, e quando ele cai, tudo que depende de crédito respira: a loja financia estoque mais barato, a construtora vende mais, a família troca de carro. Varejo, construção e consumo são os primeiros a sentir.

Por que o dólar não drenou o Brasil

O roteiro conhecido diz que juro americano em alta fortalece o dólar e puxa dinheiro do mundo todo de volta para lá, prejudicando os emergentes. Neste ciclo, não foi o que aconteceu.

“Mesmo cortando, o Brasil ainda paga muito mais juros que os Estados Unidos, quase 10% de diferença”, observam os analistas.

A comparação é direta: um investimento que rende 14% continua incomparavelmente mais atrativo do que outro a 4%, mesmo caindo para 13,75%.

Os números confirmam. Enquanto o noticiário falava em aperto nos Estados Unidos, o real se valorizou cerca de 3% no ano e o Ibovespa acumulou alta de quase 30% em doze meses, batendo máximas históricas.

Há precedente recente. Entre 2016 e 2018 ocorreu combinação parecida, com o Brasil cortando juros e os Estados Unidos subindo, e a bolsa viveu um de seus melhores momentos, puxada pela economia doméstica e pela expectativa de reformas.

Ibovespa e o diferencial de juros

Fonte: Bloomberg e Ágora Investimentos

O seguro embutido na carteira

“Cerca de um terço do Ibovespa são gigantes que vendem para o mundo inteiro, como Petrobras e Vale. Essas empresas ganham em dólar e gastam em real, então, se o dólar sobe, elas até lucram mais”, dizem os analistas do Bradesco BBI.

Na prática, é uma proteção embutida: se o cenário externo piorar, essas companhias amortecem o baque.

“A estratégia que faz sentido não é apostar tudo numa única carta, e sim montar uma carteira equilibrada que aproveite o vento a favor sem ficar exposta a uma única tempestade”, projetam os analistas.

De um lado, as domésticas que ganham com a queda dos juros; do outro, as exportadoras como defesa cambial. As nuvens no horizonte são a eleição de outubro, o risco fiscal e a possibilidade de um dólar forte demais drenando recursos dos emergentes, fatores que devem manter a volatilidade elevada.