A guerra dos e-commerces no Brasil ganhou um novo capítulo com a decisão da Shopee de reformular seu modelo de monetização a partir de março de 2026. A plataforma abandona um sistema predominantemente fixo de take rates e passa a adotar um modelo híbrido, no qual comissões variam conforme o preço do produto, o perfil do vendedor e o meio de pagamento utilizado.
No novo desenho, a Shopee introduz descontos de 5% a 8% sobre a comissão para compras pagas via Pix, 5% para itens entre R$ 80 e R$ 499 e 8% para produtos acima de R$ 500. Embora apresentados como subsídios, esses descontos funcionam como um mecanismo de controle dinâmico das take rates, permitindo elevar a monetização bruta sem comprometer a percepção de preço no checkout.
Para analistas do mercado, o movimento indica uma tentativa clara de trazer mais racionalidade a um setor historicamente marcado por subsídios agressivos, margens comprimidas e competição baseada quase exclusivamente em preço.
Mais take rates, mais incentivos para vendedores CNPJ
Para vendedores formalizados, com CNPJ, o novo modelo eleva estruturalmente as take rates, mas combina esse aumento com incentivos à escala e à conversão — uma escolha que ajuda a entender a nova fase da guerra dos e-commerces no Brasil. Todos passam a integrar automaticamente o programa de frete grátis, com cupons de até R$ 40 por pedido. A principal mudança está na divisão dos custos: apenas 25% do valor do cupom ficam com o vendedor, enquanto a Shopee absorve os 75% restantes.
Na avaliação de analistas do Ágora, do Bradesco BBI, essa mudança representa uma troca estratégica dentro da guerra dos e-commerces.ʙ Em vez de concentrar recursos em aquisição de tráfego, a Shopee passa a reinvestir a maior monetização em logística, marketing e eficiência operacional, buscando melhorar a taxa de conversão e o tíquete médio no marketplace.
Ainda assim, o impacto não é homogêneo. As categorias mais afetadas pelo aumento das take rates são produtos entre R$ 80 e R$ 100, com altas nominais que podem chegar a 42%, além de itens acima de R$ 600, que deixam de ter o antigo teto de comissão. Justamente nessas faixas, a sensibilidade a preço é maior e a disputa competitiva tende a se intensificar.
CPF sob pressão e formalização acelerada
Se para CNPJ o discurso é de incentivo ao crescimento, para vendedores pessoa física o tom muda. O novo modelo é claramente mais duro. Aqueles que ultrapassarem 450 pedidos em um período de 90 dias passam a pagar uma taxa fixa adicional de R$ 3 por item, elevando o custo total para R$ 7 por produto nos itens com preço acima de R$ 12.
Na prática, a regra torna a operação menos atraente em escala para CPF e funciona como um empurrão direto à formalização. Para vendedores abaixo do limite de 450 pedidos, a Shopee preserva condições mais favoráveis, mantendo a porta de entrada aberta. Ainda assim, o modelo reforça a transição para uma base mais profissional, alinhada às exigências fiscais e com maior geração de receita por vendedor.
Segundo os analistas Pedro Pinto e Flávia Meireles, do Ágora, esse reposicionamento tem efeitos diretos na guerra dos e-commerces. Eles avaliam que o anúncio é positivo para o setor e especialmente para o Mercado Livre (MELI; MELI34), que ganha competitividade relativa em categorias sensíveis a preço, sobretudo em itens acima de R$ 80 e, de forma ainda mais relevante, nos produtos de maior tíquete.
Na visão dos analistas, o movimento da Shopee sinaliza uma rara “descompressão competitiva” no e-commerce brasileiro. Somado ao reajuste recente de tarifas logísticas do próprio Mercado Livre e à ampliação dos subsídios do FBA pela Amazon, o cenário aponta para uma dinâmica setorial em rápida evolução, menos dependente de subsídios extremos e mais focada na sustentabilidade dos modelos de negócio.
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