Um Federal Reserve mais duro não deve impedir a queda da Selic no Brasil, avalia o economista-chefe do BTG Pactual, Mansueto Almeida. Segundo ele, o que realmente vai definir o ritmo dos juros por aqui é a trajetória fiscal do país. A avaliação foi feita nesta sexta-feira (28) durante o evento Money Week 2026, da EQI Investimentos, em Balneário Camboriú.
“Se tiver uma taxa de juros, a depender da magnitude, com o Fed com juro maior, se nós mostrarmos que vamos controlar o gasto público, pode até ser melhor para o Brasil. Se a gente controla o gasto público, sinais disso, isso pode levar a um cenário de inflação melhor e um ingresso de recursos de fora, um dólar mais barato, e uma queda mais rápida de juros”, disse Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual e secretário do Tesouro Nacional entre 2016 e 2019.
A fala ganhou contexto no mesmo dia em que o mercado repercutia um discurso do novo presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh. Ele falava no simpósio de Jackson Hole, com tom considerado mais duro. Warsh assumiu o comando do banco central americano em maio, no lugar de Jerome Powell.
“O mercado ficou com muita dúvida da posição do novo chairman do Fed com relação aos juros. Hoje, o mercado se surpreendeu porque a linguagem do Kevin Warsh foi um pouco mais dura. Ele deixou aberta a possibilidade de aumentar juros”, afirmou Almeida.
Para Almeida, a última reunião do Fed já havia mostrado divisão interna sobre o rumo dos juros americanos. Ele não descartou uma nova alta nos próximos meses, a depender dos dados de inflação.
“A última reunião do Fed teve muita dissidência. A depender dos dados, talvez seja necessário, sim, o Fed aumentar os juros nesses três, quatro próximos meses”, disse.
Tarifas e protecionismo
Almeida também tratou da guinada protecionista dos Estados Unidos desde a pandemia. Para ele, o fim do livre-comércio como eixo da economia americana gerou um efeito cascata sobre o comércio mundial.
“Até a pandemia, a economia dos Estados Unidos era toda pautada no livre comércio. A partir do momento em que ela começa a impor tarifas de importação altas e a defender políticas de conteúdo nacional, isso causa um tsunami no mundo todo. Por outro lado, isso tem levado vários países a fazer outros acordos comerciais, como a assinatura do livre comércio entre Mercosul e União Europeia”, afirmou.
O economista descreveu um mundo em que as decisões de investimento pesam cada vez mais o risco geopolítico. A eficiência econômica pura perdeu espaço nesse cálculo.
“A gente está num mundo em que o conflito geopolítico é maior do que há seis anos, e cada vez mais as decisões de investimento são tomadas sob esse prisma, e não em termos de eficiência. É um mundo mais difícil”, disse.
Contradição leva a menos globalização
Para Almeida, essa contradição entre eficiência e geopolítica tende a se aprofundar. O resultado, segundo ele, é um mundo com menos globalização e preços mais altos.
“Daqui para frente, essa contradição entre ser eficiente e levar em conta questões geopolíticas nas decisões de investimento vai nos levar a um mundo de menor globalização e de preços mais caros. E preços mais caros impactam no crescimento”, concluiu.
Apesar do cenário externo mais adverso, Almeida reforçou que o Brasil tem margem para seguir seu próprio caminho. Para ele, a credibilidade fiscal pesa mais do que o rumo dos juros americanos na trajetória da Selic.
Um dólar mais barato e uma entrada maior de recursos estrangeiros, segundo o economista, dependem menos de Washington e mais de Brasília.
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