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Marcos Troyjo analisa rivalidade das superpotências e os desafios para o Brasil

Marcos Troyjo analisa rivalidade das superpotências e os desafios para o Brasil

Marcos Troyjo analisa o avanço da geopolítica sobre a economia global, a disputa entre Estados Unidos e China e os desafios do Brasil para transformar sua posição internacional em vantagem estratégica

A economia mundial atravessa uma mudança que vai além de taxas de crescimento, comércio exterior e investimentos. A rivalidade das superpotências, especialmente entre Estados Unidos e China, colocou a geopolítica no centro das decisões econômicas e empresariais. Essa foi uma das principais reflexões apresentadas por Marcos Troyjo, empresário, cientista social, diplomata, escritor e economista, durante a palestra “Era da Rivalidade das Superpotências: Uma Visão de Longo Prazo na Inserção Internacional Brasileira”.

Para Troyjo, o mundo deixou para trás um período marcado pela expansão acelerada da globalização e entrou em uma etapa na qual interesses estratégicos nacionais voltaram a determinar o comportamento de governos, empresas e mercados.

“Nós saímos de um cenário na economia mundial intenso em globalização para um cenário intensivo em geopolítica”, afirmou.

Segundo ele, essa transformação já pode ser percebida em diferentes frentes. “A geopolítica chegou com tudo, nos mercados financeiros, na corrida tecnológica, na ideia de distribuição territorial da produção”, destacou. Na avaliação do economista, essas mudanças têm peso decisivo para compreender os novos rumos da economia internacional.

China busca retomar protagonismo histórico

Um dos principais eixos da nova configuração global é a ascensão chinesa. Troyjo ressaltou que o avanço do país nas últimas décadas deve ser analisado a partir de uma perspectiva histórica mais ampla.

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Ele lembrou que a China possui cerca de quatro mil anos de história e características culturais marcadas pelo confucionismo, pela valorização do trabalho, pelo respeito à autoridade e pela importância atribuída à família. Durante uma parcela significativa da história humana, observou, o país esteve entre as maiores forças econômicas do planeta, posição que perdeu com a ascensão das potências industriais ocidentais.

“Em certo sentido, nesses últimos 48 anos, a China está retomando seu lugar na história como grande economia”, afirmou.

Esse crescimento também estaria acompanhado de uma estratégia para reduzir vulnerabilidades externas e ampliar a influência chinesa sobre outras economias.

Ao descrever o que considera ser a lógica dos estrategistas de Pequim, Troyjo resumiu: “Trabalhar para fazer a China o menos dependente possível do menor número de países; e transformar em dependente da China o maior número possível de países”.

Estados Unidos contrariam previsões de declínio

Apesar do crescimento chinês, Troyjo contestou a ideia de que os Estados Unidos estejam necessariamente caminhando para uma perda acelerada de relevância econômica. Segundo ele, previsões de que a economia chinesa ultrapassaria a norte-americana em poucos anos precisam ser revistas diante do desempenho recente das duas potências.

O próprio economista contou que já considerou provável uma ultrapassagem por volta de 2028 ou 2029. No entanto, a diferença entre os dois produtos internos brutos voltou a aumentar nos últimos anos.

“Se você olhar a ‘abertura da boca do jacaré’ entre os dois PIBs nos últimos cinco anos, ela voltou a abrir. A economia dos EUA voltou a crescer muito mais”, disse.

Na análise apresentada durante a palestra, a força econômica norte-americana continua sendo um componente essencial para entender a rivalidade das superpotências. Troyjo destacou ainda a dimensão da economia dos Estados Unidos e questionou interpretações que associam automaticamente as políticas de Donald Trump a um processo de decadência do país.

Dólar ainda ocupa espaço difícil de substituir

A discussão sobre uma eventual perda de protagonismo do dólar também apareceu na análise. Ex-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, conhecido como Banco dos BRICS, Troyjo afirmou ser frequentemente questionado sobre a possibilidade de criação de uma moeda comum do bloco.

Para ele, o debate muitas vezes desconsidera uma questão básica: retirar o dólar do centro das transações internacionais exige colocar outra estrutura capaz de cumprir funções semelhantes em seu lugar.

“Em economia você não substitui uma coisa por nada. Se você vai tirar o dólar, maior fonte de liquidez dos mercados, você precisa de alguma coisa no lugar”, afirmou.

Troyjo também demonstrou ceticismo em relação à possibilidade de uma moeda comum dos BRICS no horizonte próximo. Para ele, faltam sinais concretos de que os principais integrantes do grupo estejam dispostos a avançar efetivamente nessa direção.

Protecionismo americano vai além das tarifas

Ao tratar da política comercial dos Estados Unidos, Troyjo chamou atenção para uma aparente contradição. De um lado, o país aumenta tarifas e adota medidas protecionistas. De outro, busca tornar seu ambiente doméstico mais favorável à atividade empresarial.

“Tem uma coisa muito mais relevante acontecendo nos EUA: ao mesmo tempo em que Trump está taxando os outros países, por conta da política fiscal protecionista, ele está desburocratizando, desregulamentando e cortando impostos”, explicou.

Na visão do economista, o resultado é um ambiente de negócios mais amistoso à realização de empreendimentos dentro dos Estados Unidos. Isso significa que a política econômica norte-americana não deve ser analisada apenas pelas tarifas, mas também pela tentativa de ampliar a competitividade e a atração de investimentos.

No caso brasileiro, Troyjo destacou que, entre as economias do G20, o Brasil estaria entre as menos atingidas pelas tarifas. Para ele, esse dado enfraquece interpretações simplistas sobre as motivações por trás das medidas norte-americanas.

Brasil encontra oportunidade externa, mas enfrenta problemas internos

Em meio à reorganização da economia mundial, o Brasil pode encontrar uma posição relativamente favorável. Essa vantagem, porém, não seria necessariamente resultado de avanços internos, mas também da perda de atratividade ou do aumento das dificuldades enfrentadas por outros países.

Para ilustrar a situação, Troyjo recorreu a uma frase bem-humorada: “Quando eu me olho no espelho, eu me preocupo, mas quando eu me comparo com os outros, eu me tranquilizo”.

Segundo ele, o Brasil aparece em boa posição relativa no cenário internacional justamente porque outras economias enfrentam dificuldades que reduzem sua atratividade. O diagnóstico positivo, entretanto, vem acompanhado de uma advertência. “Agora, aqui dentro, você tem muita barbeiragem macroeconômica acontecendo”, afirmou.

A mensagem coloca o país diante de um paradoxo. A intensificação da rivalidade entre Estados Unidos e China, a reorganização das cadeias produtivas e a busca das potências por parceiros estratégicos podem ampliar a importância internacional brasileira. Ao mesmo tempo, problemas domésticos podem limitar a capacidade de transformar essa conjuntura em crescimento, investimentos e maior influência.

Nesse novo cenário, a inserção internacional do Brasil dependerá não apenas de sua habilidade de dialogar com diferentes potências, mas também da capacidade de fortalecer a própria economia. A geopolítica voltou ao centro das decisões globais e, como mostrou Troyjo, entender essa mudança será fundamental para definir o espaço que o Brasil pretende ocupar nas próximas décadas.