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Além dos EUA: onde estão as novas oportunidades para o investidor global

Além dos EUA: onde estão as novas oportunidades para o investidor global

Em palestra na Money Week 2026, Ângelo Dalla e Marink Martins defenderam que a diversificação internacional do brasileiro precisa avançar para além dos Estados Unidos, em um cenário de dólar pressionado, ativos americanos mais caros e novas oportunidades em mercados antes deixados de lado

A internacionalização da carteira do investidor brasileiro está entrando em uma nova fase. Se, durante anos, investir no exterior foi praticamente sinônimo de comprar ativos dos Estados Unidos, o cenário atual começa a exigir uma visão mais ampla sobre moedas, regiões e classes de ativos.

Essa foi uma das principais mensagens da palestra “Nova Fronteira de Alocação do Investidor Global: Como se Posicionar Além dos EUA”, apresentada na Money Week 2026 por Ângelo Dalla, head da mesa internacional da EQI International, e Marink Martins, analista CNPI de mercados internacionais da EQI Research.

Para Martins, a economia global atravessa um período que ele define como uma “era da coexistência”, marcada pela ascensão de novos polos econômicos e por uma oposição à liderança americana em uma intensidade diferente daquela observada nas últimas décadas. Isso não significa, segundo o analista, apostar no enfraquecimento definitivo dos Estados Unidos, mas reconhecer que outras regiões podem ganhar espaço nas carteiras.

“Muita gente pensa que estou clamando por derretimento dos EUA. Longe disso”, afirmou Martins. A questão, segundo ele, é identificar oportunidades relativas em mercados que ficaram baratos ou foram deixados de lado enquanto os ativos americanos acumulavam forte valorização.

Bolsa americana segue forte, mas preço exige atenção

A discussão acontece depois de anos de desempenho expressivo do mercado acionário americano. Dalla destacou que “faz quatro anos que a bolsa americana está cada vez mais cara, mas ela só vem se valorizando”.

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O movimento ajuda a explicar por que simplesmente abandonar os Estados Unidos não é a estratégia defendida pelos especialistas. A proposta é ampliar a diversificação.

Um dos gráficos apresentados durante a palestra mostrou que o fluxo líquido de recursos estrangeiros para ativos denominados em dólar continua positivo em sua média móvel de 12 meses. Ou seja, apesar do debate sobre uma possível redução da exposição global aos Estados Unidos, o movimento de “Sell America” ainda não aparece de maneira clara nos fluxos.

Ao mesmo tempo, Martins chamou atenção para a influência da liquidez internacional sobre os mercados. Ao comentar ciclos anteriores, lembrou que bancos centrais como o Banco do Japão e o Banco Central Europeu tiveram papel relevante na injeção de recursos no sistema financeiro global. Para ele, esse tipo de dinâmica ajuda a entender por que “o internacional tende a atropelar o doméstico” em determinados ciclos.

China e a busca por ativos baratos

A China ocupou espaço importante na discussão. Martins avalia que a moeda chinesa permanece relativamente barata e pode fazer parte de um processo mais amplo de valorização de ativos fora dos Estados Unidos.

“Devemos comprar o que está barato, abandonado e em tendência de alta”, afirmou. Na avaliação do analista, essas características podem ser encontradas atualmente na moeda chinesa.

Martins fez uma comparação histórica com o Acordo de Plaza, de 1985, quando grandes economias coordenaram medidas para enfraquecer o dólar. “O dólar começou a cair e surgiu um fenômeno chamado Japão”, disse.

Agora, a China enfrenta outro desafio: estimular consumidores ainda cautelosos a gastar e investir. Segundo Martins, uma valorização dos ativos e da moeda poderia contribuir para um efeito riqueza, ajudando a fortalecer o consumo doméstico.

“A moeda chinesa tende a se valorizar, e isso está acontecendo em todo o mundo”, afirmou o analista.

Japão e Europa entram no radar da diversificação

A tese apresentada não se limita à China. Japão e Europa também aparecem como peças importantes da nova distribuição do capital internacional.

Martins lembrou que Japão e Alemanha são economias historicamente poupadoras e relevantes financiadoras dos mercados globais. Países com grandes estoques de poupança e investidores institucionais relevantes podem exercer influência importante sobre os fluxos internacionais, especialmente em períodos de mudança nas relações entre moedas, juros e preços dos ativos.

Nesse contexto, o Japão pode se beneficiar de uma reorganização do mercado asiático. “A moeda chinesa vem se apreciando e isso abre espaço para a moeda japonesa”, disse Martins.

A diversificação também passa por mercados emergentes. O analista observou que esses mercados tiveram desempenho inferior ao americano durante parte relevante dos últimos anos, apesar de incluírem economias e empresas importantes, como as companhias de tecnologia e semicondutores da Coreia do Sul.

Brasileiro ainda concentra patrimônio demais no mercado doméstico

Para Dalla, um dos principais problemas está no ponto de partida do investidor brasileiro. Segundo ele, aproximadamente 98% dos investimentos dos brasileiros ainda estão concentrados no Brasil, nível considerado elevado para um país emergente.

“O caminho do investidor brasileiro vai ser diferente do ano passado”, afirmou.

A própria atuação internacional, acrescentou Dalla, não deve ser interpretada como sinônimo de exposição exclusiva aos Estados Unidos. “EQI Internacional não é só EUA. Também é Europa, Taiwan, México, Tailândia”, disse.

A diversificação geográfica, porém, precisa considerar mais do que o potencial de valorização dos ativos. Dalla ressaltou que aspectos tributários e sucessórios também entram na construção de uma alocação eficiente para brasileiros que investem fora do país.

Nesse contexto, ETFs internacionais podem ser utilizados como instrumentos para acessar diferentes regiões e setores de maneira operacionalmente mais simples. Segundo Dalla, estruturas adequadas também podem trazer vantagens no planejamento tributário e sucessório, dependendo do veículo e da jurisdição escolhidos.

Carteira global traduz tese em diferentes mercados

Durante a apresentação, os especialistas mostraram a Global Investor Portfolio, carteira recomendada voltada à diversificação internacional. A composição exibida na palestra ajuda a ilustrar a tese de que internacionalização não precisa significar concentração em ações americanas.

A carteira apresentada reunia renda fixa dos Estados Unidos por meio do ETF e posições em ativos ligados a empresas e mercados de diferentes regiões. Entre as exposições mostradas estavam Estados Unidos, Europa, Suécia, China, Coreia do Sul, Sudeste Asiático e Brasil.

A lógica é combinar diferentes geografias, moedas e classes de ativos para reduzir a dependência de um único mercado. Isso também permite que o investidor brasileiro mantenha exposição ao dólar e à economia americana sem deixar de participar de possíveis ciclos de valorização em outras partes do mundo.

Diversificar não significa apostar contra os Estados Unidos

A mensagem central da palestra foi menos uma defesa da saída dos Estados Unidos e mais um questionamento sobre a concentração excessiva no país.

Os EUA continuam reunindo algumas das maiores empresas do mundo, forte capacidade de inovação e um mercado de capitais profundo. Mas, depois de anos de valorização e expansão dos múltiplos, China, Japão, Europa e mercados emergentes começam a oferecer argumentos para disputar uma parcela maior das carteiras globais.

O Brasil também pode fazer parte desse movimento. Martins afirmou que o país vem sendo recomendado por diferentes casas de análise e apontou sinais de uma rotação mais saudável entre mercados e classes de ativos.

Para o investidor brasileiro, portanto, a próxima etapa da internacionalização pode ser justamente abandonar a ideia de que existem apenas duas alternativas: Brasil ou Estados Unidos. Em um mundo de maior coexistência entre potências econômicas, a diversificação global passa a significar distribuir riscos e buscar oportunidades onde capital, moedas e ativos apresentem relações mais atraentes entre preço e potencial de valorização.