Para o economista Gustavo Franco, o Brasil enfrenta um desafio de comunicação sobre o problema fiscal. Ele defendeu que a população precisa entender que a taxa de juros não depende só da inflação, mas também das contas públicas. A avaliação foi feita nesta quinta-feira (27), durante palestra na Money Week 2026, evento da EQI Investimentos em Balneário Camboriú.
“No Brasil, é muito difícil fazer as pessoas compreenderem que a taxa de juros tem a ver com a dívida pública. Tem lugares em que essa separação é mais flagrante, a Europa, por exemplo. No Brasil, a gente precisa explicar para a população que a taxa de juros não é feita só mirando na inflação. O fiscal afeta”, disse Gustavo Franco, sócio fundador e senior advisor da Rio Bravo.
Ele também foi presidente do Banco Central entre 1997 e 1999, um dos formuladores do Plano Real.
Superávit primário é a porta de entrada para o grau de investimento
Segundo Franco, voltar a ter superávit primário é pré-requisito para o Brasil reconquistar o grau de investimento. A mudança de status teria efeito direto sobre o custo de capital do país.
“Para voltar a ser grau de investimento, precisava ter superávit primário. Quando o país se torna investment grade, o custo de capital não é esse que a gente tá vendo aí, de 14% ao ano. É um número mais próximo de 5% ao ano do que de 10%. Olha o impulso que isso pode trazer. O Brasil fica mais rico”, afirmou.
Franco resumiu o problema fiscal a uma equação simples entre o que o país arrecada e o que gasta. Para ele, o país não pode seguir acumulando dívida no ritmo atual.
“Receita igual a despesa. A conta tem que fechar. Não pode acumular dívida para sempre. Um endividamento maluco como o atual não dá”, disse.
Franco cita Dilma e vê paralelo entre Lula e Trump
Franco recuperou um episódio do primeiro mandato de Dilma Rousseff para ilustrar o risco de reverter o ajuste fiscal. Segundo ele, o país nunca se livrou totalmente das consequências daquele período.
“O que podia dar errado? Era a Dilma Rousseff. Ela transformou um primário positivo de 3% em um déficit de 1,5%, do qual a gente nunca conseguiu se livrar”, disse Franco.
Apesar do diagnóstico duro, Franco se mostrou otimista sobre os próximos anos. Para ele, o país já superou o desafio mais difícil, o fim da hiperinflação, e agora enfrenta um problema de natureza orçamentária.
“Esses 30 anos do Real para cá foram muito difíceis, não tanto quanto os 30 anteriores. Os próximos 30 vão ser mais fáceis. Não temos mais hiperinflação, é uma questão orçamentária. O problema fiscal acho que a gente vai resolver”, afirmou.
Franco também traçou um paralelo entre Brasil e Estados Unidos na relação entre o Executivo e o Banco Central. Nos dois países, segundo ele, o presidente da República pressiona por juros mais baixos.
“Nos dois primeiros anos do Lula, a gente via uma guerra entre ele e o então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Nos Estados Unidos aconteceu o mesmo: vimos brigas públicas entre Trump e Jerome Powell, e agora vamos ver sua relação com o presidente que ele mesmo indicou ao Fed. Será um teste para a independência da instituição”, concluiu.






