Howard Marks levou ao palco do Money Week 2026 uma definição de risco que contraria a intuição de boa parte do mercado. Risco, para ele, não é o cenário ruim que se materializa, e sim a quantidade de cenários possíveis.
O painel, mediado por Stephan Kautz, economista-chefe da EQI Investimentos, girou em torno dessa ideia aplicada ao momento atual dos mercados.
O cofundador da Oaktree Capital Management tratou o tema como uma questão de amplitude, não de direção. Quanto maior a distância entre o melhor e o pior desfecho de uma tese, maior o risco embutido nela.
“A definição de risco é a de que mais coisas podem acontecer do que vão acontecer. O risco vem do fato de que muitas coisas podem acontecer, mas hoje, com a inteligência artificial, é o momento em que isso é mais exagerado”, disse Marks.
A tese sobre inteligência artificial arrastou consigo o investimento em ativos físicos que a sustentam. E é aí que Marks vê o mercado usando uma referência que talvez não sirva.
“Tenho a sensação de que investir em data center não é nada parecido com investir em infraestrutura como se fazia antes”, observou.
Estradas, portos e redes elétricas têm vida útil medida em décadas e depreciação previsível. Modelos construídos sobre essas premissas, aplicados a outra categoria de ativo, podem estar partindo da base errada.
Sobre recessão, a resposta é não saber
Provocado sobre o que poderia desacelerar a economia americana, o investidor recusou o exercício de previsão. A lógica é conhecida em seus memorandos: informação antecipada, se existisse, já teria sido usada por alguém.
“É difícil dizer se há uma recessão chegando. Antes de tudo, não sabemos, e ninguém sabe. Em geral, se as pessoas soubessem de algo antes, poderiam agir, mas isso não é algo que se sabe”, afirmou.
Petróleo em alta e inflação persistente entraram na lista de coisas que podem dar errado, sem que ele as tratasse como cenário-base. Marks foi direto ao dizer que a atividade econômica não é o que mais o preocupa hoje.
Diante de incerteza dessa natureza, a resposta de portfólio que ele descreveu é reduzir o número de apostas. Concentrar, no vocabulário do gestor, significa ficar no terreno que se conhece bem, em vez de espalhar capital por teses pouco dominadas.
Brasil, alternância política e o obstáculo regional
A leitura sobre o país foi favorável, com uma ressalva que ele estendeu a toda a região.
“Sou um grande entusiasta do Brasil. As pessoas são inteligentes e trabalhadoras”, afirmou o investidor.
O obstáculo, na visão dele, é institucional e se repete há décadas na América Latina. Governos de esquerda assumem prometendo resolver o problema econômico, não entregam, e o eleitor devolve o poder à direita, em um ciclo que encurta o horizonte de planejamento.
“A esquerda tenta resolver os problemas econômicos, não consegue, e as pessoas trazem a direita de volta. Isso gera volatilidade política”, explicou.
Controle de risco antes do retorno
A hierarquia da Oaktree, segundo o cofundador, inverte a pergunta habitual do investidor. O primeiro cálculo não é quanto se ganha no cenário favorável.
“Nos investimentos, controle de risco está em primeiro lugar. As pessoas focam em quanto podem ganhar se tudo for bem. Nós focamos também no que podemos perder se tudo der errado, e nossas melhores performances vêm em momentos difíceis”, afirmou.
Essa disciplina também governa a decisão de saída. Lucro acumulado, isoladamente, não é razão para vender, e nenhuma regra funciona em todas as situações.
“Você só deve vender quando extraiu toda a oportunidade do ativo, não apenas porque teve lucro”, disse.
O encerramento veio com uma autocrítica. Perguntado sobre o que faria diferente se começasse hoje, Marks apontou o custo de ter sido conservador demais em um mercado que subiu por décadas.
“Eu teria sido menos cauteloso. Subestimei os benefícios da economia americana e, se tivesse corrido mais risco, meus clientes teriam ganhado mais dinheiro. Mas talvez eu não tivesse tantos clientes”, concluiu.






