O painel “Impacto dos primeiros 100 dias no mercado” da Money Week reuniu Ricardo Cara, head de fundos multimercado da EQI Asset, André Raduan, fundador e co-CIO na Genoa Capital, e Gustavo Pessoa, gestor na Legacy Capital.
Cara iniciou o debate afirmando que o DNA do atual governo foi revelado antes mesmo dele começar, durante as negociações da PEC da Transição. “O DNA é de mais gasto, para estimular geração de emprego e crescimento”, avalia.
“Vemos também um certo nível de disputa da ala política com a ala econômica, um querendo puxar para um lado, o outro puxando para o outro. No fundo, o que vemos é uma ansiedade em querer ver uma taxa de juros mais baixa, para que se possa gerar crescimento e que esse governo consiga implementar suas políticas. Só que ele faz isso de maneira muito atabalhoada”, pondera.
“E há muita preocupação com a popularidade também. A gente teve uma eleição muito acirrada, então qualquer deslize pode refletir na popularidade, o que preocupa principalmente a ala política”, acredita.
Raduan, por outro lado, tem uma visão mais otimista do novo governo que seus pares.
“A gente começou com um filme de terror, uma PEC da Transição que era uma licença para gastar de quase R$ 200 bilhões, muito acima do necessário, o que criava um rombo fiscal muito elevado. Mas, ao longo do tempo, eu acho que esse filme de terror foi migrando para quase um ‘pastelão de terror’. O DNA, claramente, é de mais gastos, mais intervenção econômica. Mas é um DNA que, de certa forma, era até esperado pelo mercado. Um DNA de quem ia subir impostos a fim de compensar, pelo menos, parte desse aumento de gastos”, afirma.
Gustavo Pessoa se diz mais pessimista quanto ao arcabouço fiscal, que veio para substituir teto de gastos, afirmando que ele não estabiliza a dívida em nenhum momento e que esta não vai parar de crescer.
“A dívida vai crescer até 85% do PIB no final do governo. Não vai ser 100%, não vai quebrar o país, mas teremos o dobro da dívida do México, por exemplo. E a gente e se compara muito com México e África do Sul, mas nossa relação dívida/PIB é muito diferente. O Brasil tem juro alto porque tem muita dívida”, avalia.
“É um governo que gasta muito com pessoas, Bolsa Família, incentivos, classe artística. Mas de quem o governo está cobrando? De empresas e pessoas de alto poder aquisitivo. E nós operamos com ativos, com empresas na bolsa. Então, a gente não consegue ficar otimista por conta disso”, diz, resumindo:
“O Brasil não tem feito o dever de casa e está sinalizando que vai fazer um dever de casa mais ou menos daqui para a frente. Quem vai pagar a conta serão as empresas e as pessoas de alta renda”.
Pessoa também critica o que chama de desconfiguração da Lei de Responsabilidade Fiscal.
“Qual a punição se o Governo não cumprir com o arcabouço fiscal? Não tem, porque a Lei de Responsabilidade Fiscal foi desconfigurada. A lei diz que tem que definir meta, seguir cronograma, tem que fazer contingenciamento e, se isso não for feito, está se infringindo a lei. Do jeito que o arcabouço foi mandado para o Congresso, não tem punição. E o Congresso tem que fazer isso, garantir os 2,5% de crescimento real, mas tem que ter amarras”, avalia.

Impactos dos 100 primeiros dias no mercado: quando o BC vai cortar juros?
Para Gustavo Pessoa, um dos erros do novo Governo foi colocar na mesa a discussão da alteração da meta da inflação.
“Não se tem registro de qualquer situação em que aumentar a meta foi positivo. Se você tem uma meta e muda, você perde a credibilidade”, afirma.
“Felizmente a gente tem um Banco Central independente, porque o que mais contamina a inflação é a expectativa. Por que a gente chegou a juros de 13,75%? Porque a inflação estava em 12% e teve muito gasto na eleição. Como faz cair o consumo se existe um impulso de renda muito forte?”, questiona.
Para ele, apesar da discussão de subir a meta da inflação para 4%, aparentemente, o governo está entendendo que não faz sentido fazer essa alteração.
Raduan concorda com Gustavo Pessoa.
“É desnecessário falar de mudança de meta nesse momento. Uma vez que foi definida a meta em 3,25%, vamos seguir com ela”. Mas, pondera: “Dado que o presidente quer mudar e houve o debate, tenho dúvida se não caberia levar para 3,5%. Eu, particularmente, votaria por manter. Mas um quer 4%, outro 5%, outro 9%. Às vezes, é melhor ceder um pouco”.
Cará complementa que o mercado quer ver menos incerteza, tanto em relação ao arcabouço quanto à meta da inflação. “O timing é ruim para falar de mudança de meta, mas, independentemente da decisão, virando essas duas páginas, a gente pode começar a ter um ambiente favorável à redução de juros”, acredita.
Endividamento recorde
Outro ponto levantado pelos gestores é o aumento do endividamento de pessoas físicas e jurídicas, em decorrência dos juros elevados, que vem provocando, inclusive, uma série de recuperações judiciais de empresas.
“Eu acredito no credit crunch, nem gosto de falar disso, mas se o Banco Central baixar juros para 11% não vai fazer diferença. Quanto mais o Governo não der espaço para o Banco Central baixar juros, enquanto não parar de brigar, maior a chance de a recessão nos atingir, de o cenário piorar”, afirma.
Para os gestores, a recessão é mesmo o que se desenha daqui para a frente em todos os países, com maior ou menor intensidade.
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