As stablecoins atreladas ao dólar estão deixando de ser utilizadas apenas por investidores acostumados a negociar Bitcoin e outros criptoativos. Com negociação disponível 24 horas por dia e paridade com a moeda americana, esses ativos começam a integrar as estratégias de dolarização de um público mais tradicional, movimento já percebido por plataformas como Mercado Bitcoin e a Avenue.
As stablecoins são tokens digitais desenvolvidos para acompanhar o valor de outro ativo. No caso de moedas como USDT e USDC, cada unidade busca manter uma cotação próxima de US$ 1. Diferentemente do Bitcoin, portanto, seu principal objetivo não é oferecer valorização, mas funcionar como uma representação digital do dólar.
O mercado global de stablecoins possuía uma capitalização de aproximadamente US$ 301 bilhões nesta quinta-feira (13), segundo o DefiLlama. O valor indica o estoque desses ativos em circulação, e não o volume movimentado em transações.
No Brasil, dados da Receita Federal mostram que as stablecoins responderam por cerca de 80% do volume declarado de criptoativos em 2025. Entre agosto de 2019 e dezembro do ano passado, foram informados R$ 1,13 trilhão em operações com esses ativos, equivalentes a 71,7% de todo o mercado declarado no período.
A maior parte desse volume está concentrada no USDT, que respondeu por 88,7% das transações com stablecoins no intervalo analisado. O USDC apareceu em segundo lugar, com participação de 7,1%.
De acordo com o Mercado Bitcoin, as stablecoins de dólar correspondiam a 4,1% do volume total de criptoativos negociado na plataforma no primeiro semestre de 2024. No mesmo período de 2026, essa participação se aproximou de 30%.
A penetração desses ativos também cresceu por cinco semestres consecutivos. Atualmente, um em cada cinco investidores que negocia criptoativos na plataforma também passa pelas stablecoins de dólar. Entre os clientes que já possuíam esses ativos, o volume movimentado aumentou 71,4%.
“Nos últimos anos, vimos uma mudança importante no perfil do investidor em ativos digitais. Se antes a maior parte da demanda estava concentrada em ativos de maior volatilidade, hoje cresce o interesse por instrumentos que oferecem exposição ao dólar e ao ouro de forma simples, digital e acessível”, afirmou Giresse Contini, diretor do Mercado Bitcoin.
Demanda já chegou aos investidores tradicionais
A mudança também começa a aparecer fora das exchanges especializadas em criptomoedas. Em janeiro deste ano, a Avenue passou a oferecer o USDC dentro de sua plataforma, integrando a stablecoin aos serviços de investimentos e banking disponíveis aos clientes.
No modelo adotado pela empresa, o investidor pode comprar o USDC e manter o ativo em uma carteira dentro da plataforma. Quando quiser investir ou utilizar o dinheiro por meio dos serviços bancários, precisa converter a stablecoin em dólar. Segundo a Avenue, essa conversão ocorre na proporção de um para um.
O USDC ainda não pode ser utilizado diretamente no cartão de débito da empresa. A stablecoin funciona, por enquanto, como uma etapa intermediária da jornada: o cliente mantém a exposição ao dólar no ativo digital e posteriormente o converte em moeda disponível na conta.
Durante encontro com jornalistas realizado nesta quarta-feira (12), Fernando Cesário, diretor de Banking da Avenue, afirmou que a adesão não está concentrada entre os clientes mais familiarizados com criptomoedas.
“Tipicamente, o nosso usuário que tem adotado o USDC não é o investidor mais acostumado à vida dos criptoativos. Eles nos perguntam o que é isso, se é seguro e se tem lastro. Fizemos um trabalho forte de comunicação porque enxergamos no ativo uma oportunidade de destravar novas jornadas”, disse Cesário.
Na avaliação do executivo, a possibilidade de comprar e negociar stablecoins a qualquer momento é uma das principais diferenças em relação às operações tradicionais de câmbio. O instrumento pode ser utilizado inclusive durante noites, finais de semana e feriados.
Essa disponibilidade também permite que o investidor mantenha a posição até definir a finalidade do dinheiro. Posteriormente, o recurso pode ser direcionado para uma aplicação internacional ou para despesas no exterior.
“O benefício do USDC não depende somente da eventual arbitragem de IOF. Ele continua tendo vantagens, como a instantaneidade, a disponibilidade 24 horas por sete dias e a possibilidade de conversão para outros ativos. São características que resolvem pontos de dor também em outras geografias”, explicou o diretor.
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Stablecoin não é o mesmo que dólar em conta
Apesar da paridade buscada com a moeda americana, uma stablecoin não equivale a um depósito bancário em dólar. O token é emitido por uma empresa privada, responsável por manter reservas capazes de sustentar sua conversão.
Por isso, além da variação do dólar em relação ao real, o comprador está exposto a riscos relacionados ao emissor, à composição das reservas, à custódia, à plataforma utilizada e à possibilidade de a stablecoin perder temporariamente a paridade com a moeda americana.
Já o dinheiro mantido em uma conta internacional pode ser utilizado diretamente em transferências, compras com cartão, pagamentos e investimentos, conforme os serviços oferecidos pela instituição. A stablecoin acrescenta vantagens tecnológicas, como negociação contínua e liquidação mais rápida, mas não reproduz necessariamente todas as funções nem as proteções de uma conta bancária.
O crescimento acelerado também não significa que esses ativos já tenham alcançado uma adoção ampla. Em análise publicada em agosto, o ING destacou que as stablecoins representam aproximadamente 7% da capitalização total do mercado de criptomoedas e ainda possuem participação limitada no universo global de pagamentos.
As projeções para os próximos anos também apresentam grande dispersão. As estimativas citadas pelo banco apontam que a capitalização das stablecoins pode alcançar entre US$ 900 bilhões e US$ 4,2 trilhões até 2030. Segundo o ING, a distância entre os números evidencia a dificuldade de prever se esses ativos conseguirão avançar para além do ecossistema cripto.
Na avaliação do banco neerlandês, uma adoção mais ampla dependerá da existência de regras claras, da integração com os sistemas de pagamentos e da capacidade de competir com alternativas como depósitos bancários tokenizados e moedas digitais emitidas por bancos centrais. Esses instrumentos também podem oferecer transações rápidas e disponibilidade contínua, mas com vínculos diretos com bancos regulados ou autoridades monetárias.
O ING alerta ainda que uma expansão expressiva pode produzir efeitos sobre o sistema financeiro. Nos mercados emergentes, a facilidade para converter moedas locais em stablecoins de dólar pode ampliar movimentos de saída de recursos durante períodos de estresse, pressionar o câmbio e reduzir a capacidade de transmissão da política monetária.
A regulamentação também está avançando. O Banco Central incluiu determinadas operações com ativos virtuais no mercado de câmbio e estabeleceu regras para as empresas prestadoras desses serviços. A mudança busca ampliar a transparência sobre transferências internacionais e reduzir as diferenças regulatórias entre o mercado tradicional e o universo cripto.
Para Cesário, porém, a tendência não deve provocar a substituição imediata de uma alternativa pela outra. A expectativa é que dólares tradicionais e suas representações digitais sejam utilizados de acordo com a finalidade de cada operação.
“Não enxergamos isso como uma questão de substituição, mas de coexistência. Os ativos digitais e as moedas tradicionais devem conviver, dependendo da jornada e do caso de uso. No futuro, veremos as stablecoins participando de forma mais intensa das transações da economia”, afirmou.
Para o investidor, a comparação também não deve considerar apenas a cotação oferecida no momento da compra. Spread, tributação, taxas de transferência, possibilidade de uso, segurança da custódia e qualidade das reservas da stablecoin são fatores que podem alterar o custo e o risco da operação.






