Recentemente, vi uma publicação nas redes sociais que destacava as vantagens de se posicionar a favor de uma tendência estrutural. Naquele caso específico, a reflexão estava relacionada à escolha de um curso de formação em um ambiente como o atual, marcado por transformações aceleradas e com impactos muito diferentes sobre cada setor da economia.
Embora a publicação não estivesse diretamente relacionada ao mundo dos investimentos, o comentário me fez lembrar um dos principais ensinamentos que recebi nos primeiros anos da minha carreira como analista.
Tive a sorte de iniciar minha trajetória profissional trabalhando próximo a um grande gestor de ações brasileiro e, entre as muitas lições daquele período, uma das mais importantes foi a necessidade de investir a favor das mudanças estruturais, e não contra elas.
Ele costumava dizer: “É muito mais fácil ganhar dinheiro quando a maré sobe e leva todos os barcos do que quando você precisa escolher o único barco capaz de sobreviver à tempestade”.
Um exemplo claro desse princípio foi o crescimento do mercado de infraestrutura em nuvem (cloud), impulsionado pela digitalização da economia. A pandemia acelerou esse processo ao obrigar empresas de diferentes setores a migrar rapidamente parte relevante de suas operações para os canais digitais.
Para manter equipes inteiras trabalhando à distância, armazenar dados, atender clientes e prestar serviços on-line, tornou-se necessário ampliar de forma significativa a infraestrutura tecnológica.
Mesmo antes do boom da inteligência artificial, portanto, os investimentos em nuvem já cresciam de maneira acelerada. A receita global do setor avançou de US$ 47 bilhões, em 2017, para US$ 225 bilhões, em 2022. Isso representa uma expansão de quase cinco vezes em apenas cinco anos, equivalente a um crescimento médio anual próximo de 37%, como mostra o gráfico abaixo.

Esse avanço do mercado se refletiu diretamente nos resultados das companhias que atuavam no setor. Mesmo empresas que não ganharam participação de forma expressiva conseguiram crescer de maneira relevante, simplesmente porque o mercado endereçável se expandia em ritmo elevado.
Aquelas que, além de acompanhar o crescimento do setor, aumentaram também sua fatia de mercado, apresentaram resultados ainda mais expressivos.
Segundo os relatórios anuais das próprias companhias, entre 2018 e 2022, a receita da AWS, divisão de nuvem da Amazon (AMZN; AMZO34), mais do que triplicou, enquanto a receita do Google Cloud avançou mais de quatro vezes. A Microsoft (MSFT; MSFT34), por sua vez, não divulga a receita específica do Azure, mas reportou taxas de crescimento entre 50% e 70% ao ano para o serviço ao longo de boa parte desse período.
Em outras palavras, o vento favorável do setor permitiu que diferentes empresas crescessem simultaneamente, ainda que em velocidades distintas.
Esse crescimento também se refletiu nas cotações. Como mostra o próximo gráfico, Microsoft, Amazon e Alphabet (GOOG; GOGL34); apresentaram desempenho significativamente superior ao do S&P 500 entre 2017 e 2022, apesar de o próprio índice norte-americano ter registrado uma valorização relevante no período.
Não foi necessário identificar uma única vencedora: estar exposto a um setor em forte expansão já aumentava consideravelmente a probabilidade de bons resultados.

Movimento semelhante ocorreu no Brasil durante o chamado boom das commodities, sustentado pelo crescimento acelerado da China no início dos anos 2000.
A expansão da economia chinesa elevou a demanda por minério de ferro, aço, petróleo e outras matérias-primas, impulsionando seus preços e melhorando de forma expressiva os resultados das companhias brasileiras expostas a esse ciclo.
Empresas dos setores de mineração, siderurgia e petróleo apresentaram forte crescimento de receitas e lucros, o que se traduziu em retornos muito superiores aos do Ibovespa ao longo de boa parte do período.
Houve, mais uma vez, diferenças importantes entre as companhias, mas o ambiente setorial favorável ampliou o número de vencedores e reduziu a dependência de acertar uma única tese.

Nos dois exemplos, embora os desempenhos tenham sido diferentes, grande parte das empresas expostas às tendências de crescimento apresentou retornos muito positivos e superou com folga seus respectivos índices de referência.
Isso evidencia o ensinamento daquele gestor: quando a maré sobe e leva vários barcos, o investidor não precisa depender de uma escolha quase perfeita para obter bons resultados. A exposição a tendências de longo prazo pode trazer benefícios tanto em termos de retorno quanto de mitigação de riscos.
Quando o mercado endereçável de uma empresa cresce de forma estrutural, a companhia pode expandir seus resultados sem depender exclusivamente de ganhos de participação, de uma recuperação cíclica ou de eventos pontuais. Para o investidor, isso cria uma margem de segurança adicional: mesmo que a execução não seja impecável, o crescimento do setor pode compensar parte dos erros.
Isso não significa, contudo, que todas as empresas expostas a uma tendência favorável necessariamente oferecerão bons retornos.
Um setor em expansão costuma atrair concorrentes, exigir investimentos elevados e, muitas vezes, pressionar margens. Além disso, permanecem riscos relacionados à regulação, à execução operacional, à capacidade de repassar preços, à estrutura de capital e à qualidade da alocação de recursos.
O vento ajuda, mas não corrige um modelo de negócios frágil nem uma gestão incapaz de transformar crescimento em geração de caixa.
Também é indispensável avaliar o preço pago para participar dessas tendências. Por serem movimentos amplamente reconhecidos e de longa duração, parte relevante dos benefícios esperados pode já estar incorporada às cotações.
Quando o investidor paga um valor excessivamente elevado, mesmo uma excelente companhia pode oferecer retornos insatisfatórios. Em investimentos, não basta acertar a direção da transformação; é preciso avaliar quanto o mercado já está cobrando por ela.
Na prática, uma tendência estrutural deve funcionar como um primeiro filtro, e não como a decisão final de investimento. Depois de identificar um mercado favorável, é necessário avaliar quais companhias possuem vantagens competitivas, capacidade de financiar o crescimento, disciplina na alocação de capital e espaço para aumentar os lucros sem destruir rentabilidade.
É essa combinação que transforma uma boa narrativa em uma tese de investimento consistente.
Portanto, estar a favor do vento é uma vantagem importante, mas não suficiente. Um investimento de sucesso exige a combinação de três elementos: um mercado estruturalmente favorável, uma empresa capaz de converter esse crescimento em resultados e um preço de entrada que ainda ofereça retorno atrativo.
A tendência aponta a direção; a qualidade da companhia determina se o barco consegue navegar; e a avaliação define se o investidor não está pagando caro demais pela viagem.
Em um mercado no qual é impossível prever todas as mudanças, buscar negócios que tenham o tempo e as transformações estruturais a seu favor costuma ser uma estratégia mais prudente do que depender de reviravoltas improváveis.
Afinal, como aprendi no início da minha carreira, é muito mais fácil avançar quando o vento sopra na direção certa.
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