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Queda do dólar no Brasil reflete alocação em emergentes, não perda de hegemonia dos EUA

Queda do dólar no Brasil reflete alocação em emergentes, não perda de hegemonia dos EUA

Avenue destaca que a valorização do real ocorre em meio à forte entrada de capital estrangeiro, diferencial elevado de juros e rotação global para mercados emergentes

A queda do dólar frente ao real reflete uma rotação global de capital para os mercados emergentes, com destaque para o Brasil devido ao seu elevado diferencial de juros, avalia Cauê Valim, analista de Alocação e Inteligência da Avenue.

Segundo o analista, a fraqueza recente da moeda norte-americana não indica perda de hegemonia dos Estados Unidos, mas sim uma adequação ao novo fluxo de capital global em busca de retorno relativo fora das economias desenvolvidas.

Para entender essa avaliação, é preciso observar o desempenho recente do câmbio frente ao real.

O dólar vem acumulando uma forte queda frente ao real em 2026. A moeda norte-americana recua cerca de 6,7% no acumulado do ano, negociada próxima de R$ 5,14, em patamares que não eram observados desde maio de 2024, em um contexto de fortalecimento do real e melhora do apetite por ativos brasileiros.

O movimento ocorre em meio à maior alocação global de recursos em mercados emergentes, especialmente no Brasil, favorecido pelo diferencial elevado de juros e pela entrada de capital estrangeiro em ações e títulos públicos.

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“Na verdade, a gente está vendo um fluxo de capital internacional entrando no Brasil, em mercados emergentes como um todo, nesses últimos meses. E essa queda do dólar frente ao real é influenciada por esse fluxo de capital estrangeiro entrando aqui, influenciando até positivamente a Bolsa. Entre a ‘caixinha’ de emergentes que está se expandindo para o investidor global, o Brasil é um nome que eles enxergam com bons olhos por conta do diferencial de juros ainda elevado”, afirma o analista da Avenue.

Fluxo estrangeiro e diferencial de juros sustentam valorização do real

De acordo com Valim, a valorização do real ocorre em meio a uma combinação de fatores que reforçam a atratividade relativa do Brasil no mundo. Além da entrada de capital estrangeiro, o país oferece um diferencial de juros expressivo, com a Selic em 15% ao ano, enquanto a taxa básica dos Estados Unidos permanece na faixa de 3,5% a 3,75%.

Esse spread elevado aumenta o interesse por estratégias de alocação em emergentes, especialmente em um ambiente de busca global por retorno. 

Ao mesmo tempo, a Bolsa brasileira também reflete esse fluxo. O Ibovespa acumula alta de 19,5% em 2026 e avanço superior a 50% em 12 meses, movimento que dialoga com o ingresso de capital estrangeiro no mercado local.

“Pegando os dados mais recentes, houve entrada de bilhões de dólares em ações brasileiras e também em títulos emitidos pelo governo brasileiro. Esses números têm sido maiores do que os registrados nos mesmos períodos de anos anteriores, o que mostra uma rotação de capital. Eles estão realocando recursos para mercados emergentes e o Brasil tem um potencial de retorno relativo interessante, justamente pelo diferencial de juros”, destaca o analista.

Além do diferencial de taxas, a análise aponta ainda que o menor ruído político no início do ano contribuiu para o fortalecimento do real, ao reduzir a percepção de risco doméstico no curto prazo e favorecer a alocação de investidores estrangeiros.

Rotação global para emergentes explica fraqueza do dólar no curto prazo

O enfraquecimento do dólar frente ao real também se insere em um contexto mais amplo de realocação global de portfólio. Nos últimos seis meses, a moeda norte-americana registra queda próxima de 4,9% contra o real e, em 12 meses, o recuo supera 10%, movimento que ocorre em paralelo à busca por oportunidades fora dos Estados Unidos.

Para Valim, esse comportamento não deve ser interpretado como um sinal de perda de força da moeda americana, mas sim como uma resposta tática dos investidores ao cenário de retorno relativo em outras regiões.

“O dólar tem se enfraquecido globalmente também em relação a outras moedas, em parte porque os investidores vêm procurando retorno em outras regiões e não porque houve uma quebra estrutural na economia americana. Não tem relação com perda de hegemonia dos Estados Unidos. A moeda americana continua sendo a principal reserva global e muitos investidores seguem posicionados em dólar”, afirma.

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Na avaliação da Avenue, a queda do dólar reflete, sobretudo, uma redução temporária da demanda por ativos denominados na moeda americana, em meio à expansão da alocação para emergentes como o Brasil. Esse processo ocorre sem alterar os fundamentos estruturais do sistema financeiro internacional.

“É basicamente uma realocação pontual de recursos que estavam mais concentrados em dólar e que agora vêm sendo direcionados para mercados emergentes como um todo. O Brasil se destaca nesse contexto pelo diferencial de juros mais alto e pelo potencial de retorno relativo. Isso explica a performance positiva do real nas últimas semanas e meses, sem indicar qualquer mudança estrutural no papel do dólar”, conclui Valim.

Assim, a queda do dólar no Brasil aparece menos como um sinal de fragilidade da economia americana e mais como consequência direta da rotação global de capital, do diferencial elevado de juros e do aumento do fluxo estrangeiro para ativos locais, fatores que têm sustentado simultaneamente o fortalecimento do real e o bom desempenho da Bolsa brasileira em 2026.