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Por que o petróleo a US$ 100 não assusta os mercados?

Por que o petróleo a US$ 100 não assusta os mercados?

Mercado reage à variação do preço da energia, e não ao nível, e hoje não precifica uma interrupção prolongada da oferta

O petróleo voltou a superar os US$ 100 por barril, mas o estrago foi menor do que a história sugeria. Em episódios anteriores, preços de três dígitos vinham acompanhados de queda nas bolsas, disparada dos juros dos títulos e incerteza sobre a economia. Desta vez, não.

“Diferentemente de episódios anteriores, em que preços de petróleo em três dígitos desencadearam preocupações com crescimento, inflação e reação dos mercados, a mais recente incursão do Brent acima da marca dos US$ 100 causou menos estrago que o usual”, aponta Kriti Gupta, diretora executiva e estrategista global de investimentos do JPMorgan Private Bank.

O S&P 500 opera perto da máxima histórica, contraste marcante com o choque inicial provocado pela escalada das tensões no Oriente Médio no começo do ano. A leitura da estrategista é que os investidores não reagem ao preço na manchete, mas ao sinal econômico embutido nele.

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O orçamento das famílias mudou

O petróleo oscilou majoritariamente entre US$ 80 e US$ 100 nos últimos meses, com a maior pressão concentrada nos derivados. Mesmo com margens de refino em alta e a gasolina acima de US$ 4 por galão desde o início do conflito com o Irã, o consumidor aguentou.

“Como percentual da renda disponível, o gasto com gasolina está em cerca de 2,5%, um dos menores níveis dos últimos 65 anos”, diz Gupta.

Depois de rodadas de estímulo fiscal, restituições tarifárias e cortes de impostos, as famílias americanas reduziram o endividamento a mínimas de várias décadas, o que criou uma folga maior contra a alta dos preços.

A comparação histórica ajuda a dimensionar. O mesmo aumento na gasolina que apertaria de forma relevante o orçamento doméstico há duas décadas, ou mesmo há quatro anos, hoje representa um freio bem menor sobre o poder de compra. As famílias de renda mais baixa seguem como as mais vulneráveis, e altas prolongadas ainda podem pesar sobre o consumo discricionário.

O que muda é a variação, não o nível

Os mercados respondem à mudança nos preços de energia, não necessariamente ao patamar. Em março e abril, foi preciso precificar um evento geopolítico de alta incerteza: o fechamento efetivo do Estreito de Ormuz abriu a possibilidade de uma interrupção sustentada da oferta global, e o Brent saltou de cerca de US$ 60 para quase US$ 120 em poucas semanas.

“Aquela incerteza e a duplicação dos preços da energia derrubaram as ações em quase 10%, com recuperação em 11 pregões”, observa Gupta.

A diferença agora é que os investidores não trabalham mais com o cenário de perda estrutural de produção.

Ações têm se mostrado cada vez mais sensíveis ao petróleo

Correlação móvel de 40 dias entre o S&P 500 e o preço do petróleo Brent

Fonte: JP Morgan

No início de 2025, a correlação era positiva, atingindo um pico acima de 0,6, o que significa que os preços das ações e do petróleo tendiam a se mover na mesma direção. Em meados de 2025, a correlação tornou-se negativa, caindo para abaixo de -0,6; assim, as ações e os preços do petróleo passaram a se mover em direções opostas.

Houve breves períodos de correlação positiva novamente no final de 2025, mas, a partir do início de 2026, a correlação tornou-se fortemente negativa e permaneceu assim durante o verão, atingindo mínimas próximas de -0,7.

“Esse padrão evidencia como a relação entre os preços do petróleo e as ações mudou ao longo do tempo, com as ações movendo-se cada vez mais em sentido contrário aos preços do petróleo nos últimos meses”, aponta o JP.

O termômetro dos juros

O mercado de títulos reforça essa leitura. Os rendimentos de prazo mais longo mostram correlação crescente com o aperto nos derivados, mas avançam aos poucos, sem salto, o que não sinaliza uma reprecificação brusca de juros capaz de sacudir a bolsa.

“A variável-chave já não é o nível dos preços do petróleo, mas se os custos mais altos de energia começam a transbordar para as expectativas de inflação e para o consumo”, projeta Gupta.

Por enquanto, há pouca evidência disso, e é por isso que o petróleo a US$ 100, ainda que incômodo, assusta menos do que assustava. A ressalva fica para uma escalada direta contra infraestrutura crítica de energia, que empurraria o preço bem para cima e criaria um vento contrário mais forte aos ativos de risco.

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