Há algo de diferente nos mercados quando chega outubro em ano eleitoral. A proximidade da votação altera expectativas, aumenta a sensibilidade dos preços e faz o investidor acompanhar cada pesquisa com atenção redobrada. Uma análise da Ágora Investimentos reuniu os padrões que se repetem nesses ciclos.
O primeiro deles contraria a intuição. O momento de maior impacto para os ativos costuma acontecer antes da definição da disputa.
“A reação mais intensa frequentemente acontece no primeiro turno, não no segundo”, aponta Ricardo França, estrategista da Ágora Investimentos.
A explicação é a quantidade de informação que chega de uma vez: além do desempenho dos candidatos, o mercado passa a enxergar a composição do Congresso e as condições de governabilidade do próximo mandato.
Esse segundo elemento pesa tanto quanto o primeiro. O Congresso define o alcance de qualquer agenda econômica, e quando esse quadro fica visível, as expectativas são recalibradas rapidamente.
Desempenho do Ibovespa em ciclos de eleições

O que move os preços não é o vencedor
O histórico recente é farto em episódios nos quais pesquisas e urnas apontaram direções diferentes. Candidatos cresceram além do previsto, favoritos receberam menos votos do que se esperava e disputas dadas como resolvidas acabaram indo para o segundo turno.
O ponto não é identificar qual lado foi beneficiado por essas diferenças, porque as surpresas aparecem em todas as direções. Para quem investe, o recado é que prever resultados eleitorais com confiança excessiva costuma sair caro.
“Os preços respondem menos ao vencedor em si e mais à diferença entre expectativa e realidade”, diz França.
Mercados convivem bem com cenários conhecidos, e o que provoca movimentos fortes é a necessidade de reavaliar depressa aquilo que parecia consensual.
A primeira reação engana
Há também um padrão comportamental que se repete. Movimentos extremos observados logo após a apuração perderam força nos dias seguintes em diferentes eleições, com quedas acentuadas parcialmente revertidas e altas expressivas devolvendo parte dos ganhos.
“Os investidores frequentemente respondem primeiro à emoção e só depois reavaliam os fatos com mais calma”, observa França.
Por isso, as manchetes das horas seguintes à apuração dizem menos sobre as semanas à frente do que parece.
Volatilidade das ações em eleições

Onde o sinal aparece primeiro
As ações raramente lideram esse processo. Os primeiros sinais costumam surgir no câmbio e na curva de juros, onde mudanças na percepção de risco fiscal ou na capacidade de execução da política econômica se refletem com rapidez. Quando a confiança aumenta, o dólar tende a perder força e as taxas futuras recuam, com a bolsa apenas acompanhando.
O efeito também não é uniforme entre as empresas: petroleiras, bancos estatais e parte do setor elétrico têm sensibilidade maior ao ambiente político, enquanto exportadoras de mineração, celulose e proteína animal funcionam como amortecedor, por se beneficiarem de um câmbio mais depreciado.
“Navegar períodos eleitorais raramente depende de antecipar o resultado correto. Depende mais da capacidade de evitar decisões precipitadas diante de um ambiente temporariamente mais ruidoso”, projeta França.
Com o tempo, os movimentos convergem de volta para os fatores concretos: lucros das companhias, condições macroeconômicas e valuation.






