Os protestos republicanos no Capitólio ganharam intensidade nos últimos dias, abrindo uma nova frente de tensão institucional em Washington. No centro da controvérsia está a presidência do Fed – Federal Reserve, ocupada por Jerome Powell, agora alvo de uma investigação criminal conduzida pelo Departamento de Justiça do governo de Donald Trump. A apuração, segundo o próprio Powell, tem caráter político e busca intimidar o banco central em meio a divergências sobre o ritmo de corte das taxas de juros.
Apesar do ruído político, os mercados financeiros encerraram a sessão em clima positivo. Após tocarem mínimas intradiárias, os principais índices de Wall Street se recuperaram e fecharam em níveis recordes. O S&P 500 e o Dow Jones Industrial Average renovaram máximas históricas, enquanto o Nasdaq Composite também avançou, refletindo a avaliação dos investidores de que a ofensiva contra o presidente do Fed não altera, ao menos por ora, os fundamentos da economia americana.
O Dow Jones subiu 0,17%, fechando em 49.590,20 pontos, enquanto o S&P 500 avançou 0,16%, para 6.977,27 pontos. Já o Nasdaq Composite registrou alta de 0,26%, encerrando o pregão aos 23.733,90 pontos. O movimento ocorreu mesmo após a confirmação, no domingo à noite, de que o Departamento de Justiça abriu uma investigação criminal sobre a condução das reformas da sede do Federal Reserve, um projeto estimado em US$ 2,5 bilhões, e sobre o depoimento de Powell ao Congresso.
Presidência do Fed: frustação de Trump?
Em declaração pública, Powell afirmou que a investigação é resultado da frustração do presidente Donald Trump com a postura do Fed, que tem reduzido os juros em um ritmo mais lento do que o desejado pela Casa Branca. Segundo ele, a ameaça de acusações criminais representa um risco direto à independência do banco central. “Trata-se de saber se o Fed continuará a definir a política monetária com base em evidências e condições econômicas, ou se passará a agir sob pressão política ou intimidação”, disse.
A reação dentro do Partido Republicano foi rápida — e, em grande parte, crítica ao governo. O senador Thom Tillis, da Carolina do Norte, membro do Comitê Bancário do Senado, anunciou que pretende bloquear qualquer nomeação para o Federal Reserve até que a investigação seja concluída. Como o comitê é composto por 13 republicanos e 11 democratas, a oposição de um único senador republicano pode paralisar o avanço de um indicado, criando um obstáculo significativo para Trump, que desde o começo do seu mandato manifesta o desejo de substituir Powell por um aliado.
Outros republicanos ecoaram o tom de preocupação. A senadora Lisa Murkowski, do Alasca, classificou a investigação como uma tentativa de coerção e defendeu uma apuração do Congresso sobre a atuação do Departamento de Justiça. Para ela, os riscos institucionais são elevados: a perda de independência do Fed poderia comprometer a estabilidade dos mercados e da economia americana como um todo.
Na Câmara, o presidente do Comitê de Serviços Financeiros, French Hill, afirmou que a abertura de uma investigação criminal contra o presidente do Fed cria uma distração desnecessária em um momento em que a economia exige foco. Até mesmo críticos históricos de Powell, como o senador Kevin Cramer, reconheceram que, apesar de discordâncias sobre a gestão e os custos das reformas, não veem fundamento criminal nas acusações.
Trump, por sua vez, mantém a intenção declarada de substituir Powell quando seu mandato como presidente do Fed terminar em maio. Ainda assim, Powell poderia permanecer no Conselho de Governadores até 2028, prolongando sua influência sobre a política monetária americana. Nesse contexto, o embate atual vai além de uma disputa pessoal: coloca em xeque o equilíbrio entre poder político e autonomia técnica que sustenta a credibilidade da presidência do Fed há décadas.
Timing inadequado
Em conversas reservadas com o presidente Trump, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, alertou que a investigação aberta contra o presidente do Federal Reserve havia “criado uma confusão” e poderia provocar instabilidade nos mercados financeiros, segundo reportagem do site Axios.
De acordo com a publicação, Bessent não colocou em dúvida a legitimidade de uma apuração completa sobre a conduta de Powell, mas ressaltou que o timing da investigação e sua repercussão política representavam riscos relevantes. Para ele, o momento escolhido ampliava a incerteza em um período sensível para a política monetária e para a confiança dos investidores.
A preocupação de Bessent estaria diretamente ligada às expectativas em torno da transição de liderança no Federal Reserve. A avaliação predominante até então era de que, após a nomeação de um novo presidente do Fed por Trump, Powell deixaria o cargo de forma ordenada, preservando a estabilidade institucional do banco central.
Com a abertura da investigação, no entanto, esse cenário teria mudado. Powell passou a demonstrar maior disposição para permanecer no posto, o que abre espaço para um impasse prolongado e politicamente carregado. Na avaliação de Bessent, esse novo contexto “complicou” o que deveria ter sido uma transição tranquila, acrescentando mais uma camada de incerteza para os mercados financeiros.
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