O setor de construção mantém sinais de resiliência em meio a um cenário de juros elevados, custos pressionados e escassez de mão de obra, segundo relatório do BB Investimentos, elaborado pelo analista Felipe Mesquita. O Índice de Confiança da Construção (ICST), medido pela FGV Ibre, recuou 0,6 ponto em julho, para 91,7 pontos, ficando estável na comparação anual.
O indicador de Situação Atual caiu 0,2 ponto no mês, para 92 pontos, enquanto o índice de Expectativas recuou 0,9 ponto, para 91,7 pontos. Apesar da queda, as expectativas permaneceram acima do nível registrado em agosto de 2025. Já o Nível de Utilização da Capacidade da Construção avançou 2,7 pontos percentuais, para 78,8%, maior patamar desde outubro do ano passado.
Na indústria da construção, o nível de atividade apresentou leve alta em julho, para 47,3 pontos, mas permaneceu 2,2 pontos abaixo do registrado um ano antes. As expectativas para os próximos seis meses, por sua vez, voltaram a superar o nível neutro de 50 pontos, chegando a 50,6 pontos, alta de 1,4 ponto no mês. A Utilização da Capacidade Operacional (UCO), entretanto, caiu para 66%, ante 67% em junho.
O relatório também destaca a força do mercado imobiliário. Dados da Abrainc referentes a maio mostram que as empresas associadas lançaram 191,4 mil unidades nos 12 meses encerrados no período, alta de 10,7% em relação à mesma janela de 2025. O segmento econômico respondeu por 85,4% dos lançamentos, favorecido pelas condições dos programas habitacionais.
As vendas somaram 198,5 mil unidades no acumulado de 12 meses, crescimento de 3,3% na comparação anual. No segmento de médio e alto padrão (MAP), as vendas ficaram 11,8% acima dos lançamentos, contribuindo para uma redução de 9,8% no estoque de unidades em oferta na comparação anual.
Por outro lado, os distratos continuam em trajetória de alta. Foram 23,9 mil unidades nos 12 meses até maio, aumento de 21,8% em relação ao mesmo período do ano anterior. O volume correspondeu a 22,7% das entregas no período, 3,2 pontos percentuais acima do ano anterior, embora ainda abaixo da média histórica de 25,5%.
Juros e funding são pontos de atenção
As condições de crédito seguem como um dos principais pontos de pressão para o setor. Segundo dados do Banco Central, a taxa média dos financiamentos imobiliários para pessoas físicas chegou a 11,3% ao ano em julho, alta de 0,1 ponto percentual no mês e de 0,8 ponto em 12 meses.
Nas operações com taxas de mercado, a média ficou em 14,3% ao ano. Para pessoas jurídicas, a taxa subiu para 12,6% ao ano, alta de 0,4 ponto percentual tanto na comparação mensal quanto anual.
A inadimplência também apresentou avanço. A taxa média entre pessoas físicas chegou a 1,3%, enquanto entre pessoas jurídicas atingiu 1,2%, com alta de 0,1 ponto percentual no mês em ambos os casos.
O cenário de financiamento também apresenta sinais mistos. Segundo a Abecip, a poupança destinada ao Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) registrou resgate líquido de R$ 9,5 bilhões em agosto. O saldo total ficou em R$ 757 bilhões, queda nominal de 0,6% tanto no mês quanto em 12 meses. Considerando a inflação, a retração real do saldo nos últimos 12 meses chegou a 4,7%.
As contratações de operações do SBPE apresentaram comportamentos distintos entre construção e aquisição. Na comparação anual, o volume financeiro destinado à construção cresceu 27,6%, enquanto as operações para aquisição recuaram 8,5%, segundo os dados atualizados até o fim de junho.
No FGTS, a captação líquida acumulada em 12 meses até julho somou R$ 32 bilhões, 4,1% abaixo do registrado no mesmo período de 2025. Já as operações imobiliárias originadas com recursos do fundo cresceram 1,8% na comparação anual.
Custos e emprego
Os custos continuam sendo outro desafio para as empresas. O INCC-M subiu 0,85% em agosto e acumulou alta de 6,56% em 12 meses. A inflação dos materiais avançou 0,33% no mês, acumulando 5,66% em 12 meses. Já o componente de mão de obra teve alta de 1,56% em agosto e acumulou avanço de 7,81% em 12 meses, maior patamar das últimas três leituras.
Segundo o BB Investimentos, tanto o INCC-M quanto seus componentes permanecem com variação acumulada em 12 meses acima do IPCA, que acumulava alta de 4,22% no período.
Entre as capitais pesquisadas, São Paulo passou a registrar a maior alta acumulada, de 7,38%, superando Porto Alegre, que apresentou variação de 6,86%. Na sequência aparecem Salvador, com 6,13%; Recife, com 5,98%; Belo Horizonte, com 5,80%; Rio de Janeiro, com 5,34%; e Brasília, com 5,28%. Todas ficaram acima da inflação ao consumidor medida pelo IPCA.
No mercado de trabalho, a construção contribuiu de forma relevante para a geração de empregos. O Caged registrou criação líquida de 58,6 mil postos de trabalho no país em julho, dos quais 12,7 mil foram gerados pelo setor de construção. Com isso, o segmento respondeu por 10,65% dos empregos criados no Brasil nos últimos 12 meses, maior participação desde abril de 2024.
Ações imobiliárias avançam em agosto
No mercado acionário, o índice imobiliário apresentou recuperação em agosto, com alta de 3%, enquanto o Ibovespa recuou 0,33%. O movimento, segundo o relatório, refletiu a repercussão dos resultados do segundo trimestre das principais companhias do setor.
A Tenda registrou crescimento de 30% na receita líquida na comparação anual, acompanhado de uma margem bruta seis pontos percentuais acima da registrada no segundo trimestre de 2025. A Direcional apresentou crescimento de lançamentos e vendas, além dos primeiros empreendimentos desenvolvidos no âmbito da parceria com a Moura Dubeux.
A Cury, por sua vez, alcançou o 29º trimestre consecutivo de geração positiva de caixa e registrou crescimento de 14% no lucro líquido. A companhia, contudo, teve impacto pontual de despesas financeiras decorrente de atrasos na entrega de algumas unidades em fase final de desenvolvimento.
Na MRV, o processo de desinvestimento das operações internacionais avançou com a venda e a assinatura de compromissos de venda de terrenos e empreendimentos. As operações resultaram em uma perda contábil de R$ 529 milhões, mas, segundo o relatório, sua conclusão deve contribuir para o processo de desalavancagem da companhia.
A Cyrela apresentou geração positiva de caixa, enquanto um memorando para a venda de um portfólio imobiliário ao FII TRXF11 não avançou. Já a EZTEC encerrou o primeiro semestre com o maior volume semestral de lançamentos de sua história, enquanto as vendas líquidas cresceram 47% em relação ao primeiro semestre de 2025.
A JHSF, por fim, registrou crescimento de 80% no lucro líquido na comparação anual, ainda beneficiada pelo reconhecimento gradual de receitas relacionadas à venda de seu portfólio de incorporação.
O conjunto dos indicadores mostra um setor que mantém níveis relevantes de atividade, impulsionado principalmente pelo segmento econômico e pelo mercado de trabalho, mas que enfrenta restrições nas condições de financiamento e nos custos de produção.
A evolução dos juros, dos distratos e da disponibilidade de recursos para o crédito imobiliário aparece entre os principais fatores a serem acompanhados nos próximos meses.






