O movimento conhecido como “Sell America” — termo usado por investidores para descrever a intensificação da saída de recursos de ativos americanos em momentos de maior aversão ao risco — voltou a ganhar tração e recolocou o Brasil como um dos principais destinos do fluxo financeiro do mundo.
A leitura aparece em relatório do Bradesco BBI, que aponta uma rotação crescente para mercados emergentes em meio ao enfraquecimento do dólar e à mudança de expectativa sobre juros nos Estados Unidos.
No relatório, o banco destaca que, apesar do ambiente de realização de lucros após uma sequência de altas, a dinâmica global de fluxos pode continuar sustentando o desempenho do mercado brasileiro.
“Apesar de cinco altas consecutivas e um ambiente que sugira a realização dos lucros por aqui, essa dinâmica global de fluxos pode sustentar mais um ganho para o Ibovespa neste início de semana”, afirma a equipe.
“Sell America” pressiona Wall Street e amplia a busca por proteção
O pano de fundo para a rotação envolve um aumento da cautela com ativos americanos, num contexto em que o mercado tenta precificar tanto os próximos passos da política monetária quanto a resiliência da economia dos EUA.
Segundo o Bradesco BBI, os índices futuros em Nova York operavam em queda na manhã desta segunda-feira, refletindo o aumento da aversão ao risco.
Para o banco, um ponto crucial por trás do sucesso recente do mercado americano foi a concentração de performance nas chamadas “7 Magníficas” — grupo das maiores empresas de tecnologia do mundo. Por isso, a temporada de resultados de companhias como Apple (AAPL; AAPL34), Microsoft (MSFT; MSFT34), Meta (META; $M1TA34) e Tesla (TSLA; TSLA34) entrou no radar como um teste importante para o humor global ao longo da semana.
Dólar mais fraco e juros americanos no foco mudam o equilíbrio do fluxo
Além das bolsas, a leitura do mercado também passa pelo comportamento do dólar e dos juros. O relatório do Bradesco BBI aponta que a moeda americana recuava pelo terceiro dia consecutivo frente às principais divisas, enquanto os rendimentos dos Treasuries operavam em queda diante do aumento das apostas de que o Federal Reserve pode cortar juros em 2026.
Ao mesmo tempo, ativos tradicionalmente associados à proteção ganharam força. O banco menciona que o ouro superou US$ 5 mil pela primeira vez, enquanto a prata renovou recordes, em mais um sinal de reposicionamento global em meio a incertezas.
No bloco de commodities, o cenário foi mais misto: o petróleo operava perto da estabilidade, enquanto o minério de ferro recuava no mercado futuro asiático, com queda de 0,95% em Dalian, para US$ 112,66 por tonelada.
Por que o Brasil aparece como destino natural desse movimento
Na visão do Bradesco BBI, o enfraquecimento do “excepcionalismo americano” — a percepção de que os EUA seriam um mercado estruturalmente superior e imune a ruídos típicos de emergentes — tem impulsionado uma nova rodada de interesse por países emergentes. E, dentro desse mapa, o Brasil aparece como destaque.
“O excepcionalismo americano continua a perder força, impulsionando uma nova rotação para mercados emergentes”, aponta o banco, ao avaliar que o cenário global segue favorável para esse tipo de alocação.
Um dos motivos é a combinação entre liquidez, valuation e assimetria, que faz com que o interesse pelo Brasil seja maior do que o peso do país nos índices globais sugeriria.
“O Brasil é nossa principal escolha, com exposição overweight (acima da média)”, diz o BBI, citando a proximidade do ciclo de afrouxamento monetário e a sustentação do apoio global como pilares.
A leitura também é de que o Brasil é visto como o mercado com capacidade de absorver volumes relevantes de capital na região, o que reforça seu papel como “porta de entrada” na América Latina.
Em paralelo, o relatório chama atenção para o desempenho do EWZ, principal ETF do Brasil negociado no exterior, que registrava leve alta no pré-mercado, em sinal de que a demanda internacional seguia presente mesmo após o rali recente.
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Juros no Brasil entram como gatilho e sustentação da tese
No cenário doméstico, a expectativa de início do ciclo de cortes de juros é um dos fatores que podem continuar favorecendo a Bolsa. A avaliação é que o movimento de afrouxamento monetário tende a beneficiar setores mais sensíveis ao custo de capital, além de melhorar a leitura sobre crescimento e atividade ao longo do ano.
Esse ponto aparece como parte central da tese de que o Brasil reúne “combustível” para continuar no radar, principalmente se o ambiente externo seguir apontando para dólar mais fraco e juros americanos menos pressionados.
Eleição e fiscal viram o principal risco no horizonte
Apesar do pano de fundo favorável, o Bradesco BBI reforça que a narrativa do mercado brasileiro começou a migrar. Na visão do banco, o foco deixou de ser apenas juros e passou a incluir, com mais peso, o debate político e fiscal.
“A narrativa mudou das taxas de juros para as eleições: o campo de concorrentes e, acima de tudo, a perspectiva fiscal é fundamental para a durabilidade da estrutura macroeconômica do Brasil”, afirma a equipe.
Ao mesmo tempo, a comparação feita por investidores globais de que os EUA estariam se comportando como um “mercado emergente populista” também ganhou espaço nas discussões. Segundo o banco, essa percepção tem se disseminado diante de pressões políticas sobre instituições como o Federal Reserve e de sinais de políticas econômicas que lembram o intervencionismo visto historicamente em emergentes.
“Os EUA estão cada vez mais sendo percebidos como um ‘mercado emergente populista’. Essa comparação, que antes era anedótica, agora se tornou mais disseminada entre os investidores”, diz o relatório.
Para os emergentes, a mudança é vista como amplamente positiva: aumenta a probabilidade de um dólar global mais fraco, juros americanos mais acomodativos e amplia o horizonte de diversificação dos investidores americanos fora do próprio país.
Fed e big techs podem definir o humor da semana
O curto prazo, no entanto, ainda deve ser guiado por eventos que podem mudar o sentimento rapidamente. A principal atenção do mercado nesta semana se volta ao Federal Reserve, que inicia sua reunião de dois dias nesta terça-feira (27). O consenso é de manutenção dos juros, mas o foco estará no tom do comunicado e na coletiva do presidente do Fed, Jerome Powell.
Além disso, os resultados das big techs devem ajudar a calibrar a leitura sobre o peso das “7 Magníficas” no desempenho de Wall Street — e, por consequência, sobre a intensidade do movimento de rotação para emergentes.
Com isso, o Brasil segue como um dos mercados que mais se beneficiam do novo desenho de fluxo, mas com um ponto de atenção cada vez mais claro: o equilíbrio entre o impulso externo e os riscos domésticos que devem ganhar relevância à medida que 2026 avança.






