A corrida global pela inteligência artificial (IA) não será decidida apenas por quem desenvolver os modelos mais avançados. Energia, data centers, chips, dados e capacidade computacional também estarão no centro dessa disputa. Para o Brasil, o tempo para conquistar uma posição relevante pode estar se esgotando.
Essa foi uma das principais mensagens de Mat Velloso, Chief Product Officer da Docker e ex-executivo de Meta e Google DeepMind, durante a palestra “Sem Hype: IA Vista de Dentro”, no Macro Day do BTG Pactual. A apresentação foi seguida por uma conversa com Roberto Sallouti, CEO do banco.
“A gente está nesses últimos cinco minutos, no que diz respeito à IA”, afirmou Velloso. Para ilustrar a velocidade da transformação, o executivo comparou o avanço da tecnologia a uma gota de água que dobra de volume a cada minuto dentro de um estádio. Durante boa parte do processo, quase nada parece acontecer. Nos minutos finais, porém, o crescimento se torna rápido demais para permitir reação.
Segundo ele, esse é o risco atual: acreditar que a inteligência artificial é apenas hype e não se preparar para o que vem pela frente.
Energia vira ativo estratégico na era da IA
Um dos principais gargalos dessa corrida, segundo Velloso, será a energia. Se petróleo e carvão alimentaram as máquinas das revoluções industriais anteriores, agora “a eletricidade alimenta as máquinas que geram inteligência bruta”, afirmou.
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Quanto maior e mais barata a oferta energética, menor tende a ser o custo de operar sistemas de IA e maior o número de problemas que poderão ser enfrentados com a tecnologia.
É nesse ponto que Velloso vê uma ameaça para o Brasil. Ele comparou o ritmo de expansão da capacidade elétrica brasileira com o avanço chinês e classificou a diferença como um “massacre”.
Na avaliação do executivo, a China entendeu que energia abundante significa maior capacidade computacional e, consequentemente, uma vantagem na corrida pela IA.
“Eu acho que a China está ganhando essa guerra”, disse Velloso. Segundo ele, o país vem reduzindo rapidamente a distância tecnológica em relação aos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que avança em modelos abertos, infraestrutura e alternativas próprias de hardware.
Soberania vai além de criar uma IA brasileira
Para Velloso, a discussão sobre soberania tecnológica também precisa ir além da ideia de simplesmente desenvolver grandes modelos nacionais.
O executivo relatou uma conversa com integrantes do governo brasileiro em que surgiu a preocupação de que modelos estrangeiros pudessem apagar referências da cultura nacional. Embora defenda investimentos em ciência e pesquisadores brasileiros, ele considera que o debate estratégico deveria priorizar outros riscos.
“É importante que o Brasil tenha ciência. É importante que tenhamos pesquisadores. Ponto”, afirmou.
Na avaliação de Velloso, soberania envolve capacidade energética, data centers, proteção de dados e infraestrutura crítica. Diante da escala dos investimentos realizados pelas grandes potências e empresas de tecnologia, o Brasil também precisará construir alianças.
“Agora a oportunidade é o quê? Parcerias”, resumiu.
IA pode transformar ciência e mercado de trabalho
A velocidade da mudança também aparece na ciência. Velloso citou o AlphaFold, do Google DeepMind, como exemplo da capacidade da inteligência artificial de acelerar pesquisas que exigiriam um volume extraordinário de trabalho humano.
“Isso é só o começo”, afirmou. Na visão do executivo, modelos cada vez mais avançados poderão resolver problemas matemáticos, identificar vulnerabilidades de segurança e contribuir para a descoberta de medicamentos.
O risco para países que não participarem dessa transformação é ampliar rapidamente sua distância científica e tecnológica. “Nós não temos o luxo de não participar disso”, alertou.
No mercado de trabalho, Velloso acredita que o impacto da IA pode ocorrer em etapas. Hoje, ferramentas produzem códigos, documentos e outros conteúdos em grande escala, mas ainda exigem revisão humana.
“A quantidade está boa, mas a qualidade não está”, disse.
O cenário muda quando a própria IA passa a revisar melhor do que as pessoas. Segundo ele, pode chegar o momento em que empresas dirão: “Eu jamais confiaria num documento que não passou por uma revisão de IA”.
Para empresas, vantagem estará no que não pode ser copiado
Durante a conversa com Sallouti, Velloso também discutiu como empresários e investidores podem identificar companhias mais preparadas para a transformação.
A pergunta central, segundo ele, é se a empresa possui uma vantagem difícil de reproduzir. “Você tem um moat? Você tem um centro de distribuição? Você tem gravidade?”, questionou.
O executivo citou o Facebook para mostrar a diferença entre reproduzir um produto e reproduzir um negócio. Com IA, seria possível criar uma plataforma com funcionalidades semelhantes, mas não copiar automaticamente sua base de usuários e seus efeitos de rede.
“Eu consigo fazer um clone do Facebook hoje, igualzinho o Facebook com a IA. E se eu lançar ele, sabe quantos usuários eu vou ter? Zero”, afirmou.
Dados proprietários também podem representar uma barreira competitiva. Segundo Velloso, empresas que possuem informações exclusivas têm ativos que modelos concorrentes não conseguem reproduzir apenas com dados disponíveis na internet.
Oportunidade está onde faltam pessoas
Velloso também questionou a estratégia de utilizar IA apenas para reduzir equipes e custos.
“Eu acho que esse é o raciocínio errado”, afirmou.
Para ele, as maiores oportunidades estão em problemas cuja dimensão é grande demais para ser atendida pela capacidade humana disponível. Investigação de crimes, auditorias, ciência e saúde estão entre os exemplos citados.
“Os investimentos interessantes estão onde você não tem ser humano suficiente no planeta para resolver um problema”, disse.
Nesse sentido, problemas históricos do Brasil também podem se transformar em oportunidades para empresas capazes de aplicar inteligência artificial em grande escala.
Brasil precisa transformar vantagens em estratégia
Apesar dos alertas, Velloso considera que o Brasil possui ativos relevantes para a nova economia, como recursos naturais, potencial energético e uma posição geopolítica que permite construir relações com diferentes potências.
O desafio é transformar essas vantagens em infraestrutura e estratégia antes que a janela de oportunidade se feche. Isso passa, segundo ele, por energia, data centers, pesquisa, segurança e parcerias internacionais.
Para empresários e investidores, uma conclusão é inevitável: “Você vai ter que trabalhar com a IA. Não tem como não trabalhar com a IA”.
Velloso também defendeu que o país reduza a polarização em torno do tema e trate a inteligência artificial como uma questão estratégica de longo prazo.
“A gente está ficando sem tempo”, alertou.
Ao encerrar sua apresentação, o executivo resumiu o que considera estar em jogo para o país: “Eu não quero ver a gente perder essa chance. Porque eu acho que não vai ter outra”.
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