O Brasil pode estar entre os beneficiários de uma diversificação gradual dos investimentos para fora dos Estados Unidos. A avaliação é de Mohamed El-Erian, chairman da Gramercy Fund Management e conselheiro econômico-chefe da Allianz, que participou nesta segunda-feira (31) do Macro Day 2026, evento promovido pelo BTG Pactual.
Durante uma conversa com André Esteves, chairman e sócio sênior do BTG Pactual, El-Erian afirmou que os Estados Unidos continuam no centro do sistema financeiro internacional e não possuem um substituto direto. A influência americana, entretanto, começou a ser questionada nas margens, abrindo espaço para mercados emergentes, ouro e outros ativos.
“Os Estados Unidos não têm mais a mesma influência que costumavam ter. Não há ninguém para substituí-los, mas existe uma diversificação parcial para longe do país. Na margem, investidores vão para economias emergentes, ouro e outras alternativas. Isso beneficia países como o Brasil e muda gradualmente o funcionamento do sistema global”, afirmou El-Erian.
O movimento se aproxima da tese conhecida como “Sell America”, que ganhou força em momentos de dólar mais fraco e maior procura por oportunidades fora dos ativos americanos. Para El-Erian, porém, não se trata de uma ruptura com os Estados Unidos, mas de uma redistribuição gradual de parte do capital global.
Dívida e inteligência artificial pressionam o mercado americano
A mudança ocorre em um momento de crescimento simultâneo da oferta e da demanda por capital nos Estados Unidos. A dívida pública americana superou US$ 40 trilhões em agosto, depois de praticamente dobrar em dez anos.
Ao mesmo tempo, as grandes empresas de tecnologia precisam levantar volumes elevados de recursos para financiar a expansão da inteligência artificial, especialmente investimentos em data centers, chips e infraestrutura energética. Segundo El-Erian, as companhias de maior escala captaram aproximadamente US$ 280 bilhões no último ano.
Do lado da demanda por títulos públicos, compradores tradicionais se tornaram menos previsíveis. A China reduziu sua disposição por razões geopolíticas, países do Golfo passaram a direcionar mais recursos para projetos domésticos e o Japão vende Treasuries quando intervém no mercado cambial.
“Os mercados de capitais americanos se apaixonaram pela inovação e estão financiando a inteligência artificial de uma forma que nenhum outro mercado consegue fazer. Isso aumenta muito a demanda por capital. Ao mesmo tempo, três compradores tradicionais de títulos americanos — China, países do Golfo e Japão — já não apresentam a mesma confiabilidade”, explicou.
Essa combinação pressiona os juros dos títulos de longo prazo e aumenta a disputa pelos recursos disponíveis. Para El-Erian, a tentativa do Tesouro americano de interferir nesse equilíbrio por meio da ampliação das recompras de títulos transmitiu uma percepção de fraqueza ao mercado.
Emergentes terão vencedores e perdedores
Embora o deslocamento favoreça os mercados emergentes, El-Erian alertou que os recursos não serão distribuídos de maneira uniforme. Tarifas, sanções, conflitos geopolíticos e diferenças nas políticas econômicas devem ampliar a distância entre países e empresas.
Nesse ambiente, índices amplos podem oferecer uma leitura incompleta das oportunidades. O economista defendeu uma análise construída de baixo para cima, baseada nos fundamentos de cada ativo, empresa ou país.
“É um mundo de dispersão, com mais vencedores e perdedores. O país médio já não é mais um país médio, por isso a construção do portfólio precisa ser cautelosa e feita de baixo para cima. Os índices podem ser enganadores, e o investidor precisa estar preparado para volatilidade, novas tarifas e sanções”, disse.
A avaliação ajuda a explicar por que o capital estrangeiro voltou a procurar oportunidades no Brasil, mas também indica que o movimento não deve beneficiar indiscriminadamente todas as empresas ou classes de ativos.
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Crédito privado amplia oportunidades
El-Erian apontou o crédito privado como uma das áreas mais promissoras nos mercados emergentes. Segundo ele, falhas de mercado ainda dificultam o acesso ao financiamento para empresas com bons projetos, criando espaço para investidores dispostos a fornecer capital diretamente ao setor produtivo.
“O crédito privado nos países em desenvolvimento oferece oportunidades semelhantes às que existiam nas economias avançadas há 15 anos. Há falhas de mercado que não recompensam adequadamente as empresas que precisam de capital. É um mundo de oportunidades incríveis, mas precisamos ser bastante seletivos”, concluiu.






